OPINIÃO

Alegremente, rolando Tejo abaixo

«Mais importante do que saber se o condutor vinha embriagado é saber se os rails de proteção da estrada aguentam o impacto», diria o ministro da Administração Interna sobre um qualquer acidente rodoviário. Impossível? Nem por isso.

Imagine-se o ministro da Administração Interna a dizer o seguinte: «Mais importante do que saber se o condutor vinha embriagado é saber se os rails de proteção da estrada aguentam o impacto», diria Eduardo Cabrita sobre um qualquer acidente rodoviário. Impossível? Nem por isso.

Na passada segunda-feira, em entrevista à RTP sobre as descargas que no final de Janeiro encheram o Tejo de espuma, João Matos Fernandes, ministro do Ambiente, explicou que «mais importante do que saber se houve descargas ilegais» é assumir que o Tejo não aguenta os valores das descargas acordados com as celuloses.

Sobre isso, a Celtejo, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente responsável por 90 por cento das descargas, avisou – novas reduções tornariam «inviável» a central em Vila Velha de Ródão. Guerra aberta? O governante garante que não, apenas «cada um a fazer o seu papel».

Seriam motivo de polémica as imaginárias declarações de Cabrita? Dependeria da agitação nas redes sociais, mas na passada semana João Matos Fernandes teve sorte. Depois de o Tejo ter sido inundado por espuma das celuloses, ao que a APA conseguiu apurar num nível «cinco mil vezes» superior ao suposto, foram instalados medidores para aferir a qualidade da água nos dias seguintes ao desastre ecológico. Passadas 24 horas, no momento da recolha, estavam vazios.

Na segunda tentativa? Vazios novamente. Só à terceira, com recolhas manuais e supervisão da GNR, foi possível medir a poluição junto à central da Celtejo. Reação do ministro? Considerou «estranha» a dificuldade em recolher amostras e prolongou por mais trinta dias o período de atividade reduzida à empresa. Agora, enquanto o Ministério Público investiga «o mistério das amostras desaparecidas», como escrevia o Público, com a empresa a garantir que cumpre todas as regras, o Estado lá começou a limpar a espuma que rolou Tejo abaixo.

Uma música? A escolha é previsível mas dificilmente poderia ser outra que não Proud Mary. A letra assinada por John Fogerty nos Creedence Clearwater Revival bem fala de descer o rio tranquilamente, do ritmo imparável das grandes rodas e até deixa uma promessa de caridade – gente sem dinheiro não tem problemas em partilhar. Fogerty referia-se à comida de que a orgulhosa Maria podia precisar. Por cá, as cedências parecem envolver o nosso maior rio.

O DISCO

CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL
Bayou Country
4 estrelas
23 euros

A MINHA ESCOLHA

OS AMIGOS DE GODINHO
Há trinta anos, os Amigos do Gaspar passaram na RTP. Para a história, além das marionetas protagonistas, da série ficou a banda sonora de Sérgio Godinho. E se nos anos da troika, e de Vítor Gaspar nas Finanças, a expressão ganhou novo significado, agora foi o próprio Godinho quem recorreu a amigos. Para terminar um interregno de 11 anos sem originais, Godinho pediu música a David Fonseca, Hélder Gonçalves, Nuno Rafael e José Mário Branco e acrescentou letra. Com Filipe Raposo fez ao contrário, entregou os versos de Noite e Dia e aguardou pela música para os acompanhar. No alinhamento dos onze temas que completam Nação Valente, só em duas assina letra e música – Baralho de Cartas e Noites de Macau – e ainda incluiu um original de Márcia. Mas será este um disco de colaborações? Na ficha técnica, sim. Na hora de ouvir, nem por isso. E ainda bem. Se José Mário Branco cresceu com Godinho por perto, todos os outros parecem ter crescido a ouvi-lo e todos sabiam para quem estavam a compor. Nação Valente não só soa a Godinho perto da melhor forma, como a colaboração dos amigos lhe garante um toque moderno que o torna um belo disco. Na banda sonora de Amigos do Gaspar, Godinho cantava: «E é tão bom, uma amizade assim/Faz tão bem, saber com quem contar/ Eu quero ir ver quem me quer assim/É bom para mim é bom para quem tão bem me quer.» Tinha razão.

SÉRGIO GODINHO
Nação Valente
Universal
3 estrelas
14,99€

Nota. Posteriormente à publicação da crónica na Notícias Magazine que acompanhava as edições número 54 353 do Diário de Notícias e 255/130 do Jornal de Notícias, fui alertado para o facto da banda sonora de “Os Amigos de Gaspar” ter sido composta por Jorge Constante Pereira, sendo as letras da autoria de Sérgio Godinho. Aos leitores e aos autores, as minhas desculpas pelo erro.