Açafrão: o Prozac medieval que também tem o seu quê de afrodisíaco

Quem pensa que a especiaria mais potente é a malagueta é porque ainda não conhece as propriedades enérgicas e revigorantes do açafrão. Confirma-se: há centenas de anos que este ingrediente mágico tem vindo a alterar o estado de espírito das pessoas.

Texto NM | Fotografias da Shutterstock

Vale o seu peso em ouro mal descobrimos a reputação do açafrão como antidepressivo medieval. As freiras guardavam-no em doses individuais (cada uma com a sua, não fosse o diabo tecê-las) e usavam-no como estimulante sempre que precisavam de mostrar cara alegre nas matinas ou elevar os cânticos às alturas.

O imperador Alexandre, o Grande, tão famoso pelo cabelo rebelde como pelas campanhas militares, usava água com açafrão para conservar o tom alaranjado dos cachos.

O rei Henrique VIII, apreciador da especiaria à mesa, mandava enforcar quem quer que apanhasse a falsificar açafrão.

E há mais, muito mais, a dizer: as esposas louras do rei inglês Henrique VIII, a par das nobres que tentavam tudo para imitá-las, aclaravam os cabelos com açafrão misturado com um pouco de óleo, urina, sementes de cominho e celidónia. O próprio Henrique VIII, apreciador da especiaria à mesa, mandava enforcar quem quer que fosse apanhado a falsificar açafrão.

No oriente, as mulheres ainda hoje o usam para clarear a pele e regenerá-la graças às propriedades antisséticas, antibacterianas e anti-inflamatórias do açafrão. Além de amarelar uma boa paella, atuar contra o colesterol e proteger de degenerações oculares e cancros do cólon, fígado e ovários, potencia a libertação de serotonina – o neurotransmissor da felicidade.

«Por vezes, o homem morre de riso e das gargalhadas por comer uma grande quantidade de açafrão.»

Sobre ele escrevia o médico português João Rodrigues, reconhecido como um dos melhores da Europa no século XVI: «Por vezes, o homem morre de riso e das gargalhadas por comer uma grande quantidade de açafrão. Vimo-lo em Mitina do Campo, o mercado mais famoso de toda a Hispânia», conta.

Aí havia um certo mercador que, tendo comprado muitos saquinhos de açafrão para transportá-los para a Lusitânia, exagerou nas porções que acrescentou a uma panela que continha carnes cozidas. «Depois de comê-las irrompeu num riso tão intenso que não passou muito tempo até que se afastasse da vida por causa disso», finaliza o médico.

Açafrão e fluoxetina revelam o mesmo grau de eficácia no tratamento da depressão.

Bem mais recente (data de 2013), um estudo inovador do Departamento de Farmacologia do Government Medical College em Bhavnagar (Gujarat), na Índia, comparou as propriedades da curcumina do açafrão-das-índas – conhecida como curcuma e mais barata que o açafrão obtido da flor – com as do Prozac (fluoxetina) para concluir que ambos revelam o mesmo grau de eficácia no tratamento da depressão.

É por estas e por outras que deve começar a juntar uma pitadinha de açafrão ao seu dia-a-dia.

A mesma eficácia tem ainda sido observada em estudos clínicos de doentes com Alzheimer ao evitar a oxidação de certas fibras cerebrais associadas a doenças neurodegenerativas. E isto com a inequívoca vantagem de o açafrão não causar os efeitos secundários associados ao uso da fluoxetina, como náuseas, perda de apetite, ansiedade, cefaleia, disfunção sexual e outros.

Tudo razões mais do que suficientes para começar a juntar uma pitadinha de açafrão ao seu dia-a-dia. Na nossa fotogaleria damos-lhe mais umas quantas a não desdenhar (nomeadamente a tal parte do afrodisíaco de que falávamos no título).

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