OPINIÃO

Lembra-se do Vitinho? Vai voltar

Já tem 33 anos mas continua com o mesmo ar de criança de 4, com um chapéu de palha e jardineiras, que nos entrava pela casa dentro para anunciar a hora de dormir. E agora está de volta, com uma coleção de livros para resgatar a memória dos pais que eram crianças no final da década de 80. Viagem aos bastidores do nascimento do Vitinho, pela mão do seu «pai».

Texto de Cláudia Pinto

«Está na hora da caminha, vamos lá dormir, que lá fora, as estrelas dormem a sorrir. E amanhã cedinho, bem cedinho tu vais ver, acordas mais forte e mais esperto, isso é crescer. Boa noite, sonhos lindos. Adeus e até amanhã

A letra da canção ficou na memória dos portugueses e acompanhou mais do que uma geração no final da década de 1980: a dos que iam para a cama quando o simpático boneco aparecia na RTP 1; a dos que já eram «muito crescidos» para se deitarem com o Vitinho mas tinham irmãos mais novos; e a dos pais e avós que ainda hoje sabem de cor aqueles versos.

Durante dez anos, era o Vitinho que dava o mote para as crianças se irem deitar. Às nove da noite em ponto, pais e filhos sabiam que estava na hora de ir para a cama. O Vitinho tornou-se uma espécie de sinal horário.

A 16 de outubro passaram 31 anos da estreia da rubrica Boa Noite na televisão nacional. O que muitos não sabem, ou não se recordam, é que o Vitinho tinha nascido dois anos antes, numa proposta da agência de publicidade EPG para a campanha da linha de cereais Miluvit, da Milupa. «O primeiro esboço, em papel vegetal, é de 1984», explica José Maria Pimentel, o «pai» do Vitinho. «Pretendia-se criar uma personagem que enternecesse os compradores (os pais) mas que tivesse credibilidade e carisma suficiente para atrair também os miúdos, consumidores do produto», explica o criativo, professor e designer, hoje com 61 anos. Tinha 31 quando criou aquele menino de cerca de 4 anos, sorridente, com um chapéu de palha e jardineiras com monograma no peito, que andava descalço no meio da natureza.

Às nove da noite em ponto, na RTP, pais e filhos sabiam que estava na hora de ir para a cama. o vitinho tornou-se uma espécie de sinal horário.

O que se seguiu foi totalmente inesperado. O boneco a bocejar e a ir para a cama ao som da canção Boa Noite, Vitinho (com música de António Calvário e letra de João Mendes Martins, na altura diretor-geral da Milupa) começou a entrar em casa das famílias portuguesas e a ganhar a admiração de miúdos econsumi graúdos. Muitos produtos de merchandising foram criados e surgiam aos poucos como ofertas dentro das embalagens de cereais (autocolantes, brinquedos, livros de colorir, réguas, jogos e passatempos, agendas, livros de banda desenhada, etc.). Mais tarde, já com a associação à rubrica Boa Noite, da RTP, foi lançada uma linha de almofadas.

Três décadas depois, o Vitinho está de volta. E novamente pela mão de José Maria Pimentel. Desta vez não vai à televisão, vem em forma livros — para já são três, mas a coleção de vinte já está acordada com a editora Dom Quixote (Leya) para os próximos cinco anos. O primeiro é O Grande Livro do Vitinho, uma homenagem a todos os que tornaram possível esta história, espécie de legado para os pais, com todas as informações sobre o personagem e os bastidores da sua criação. Os outros dois (É a Dormir que se Cresce e Um Dia eu vou Ser Grande) serão lançados a 9 de novembro (apesar de já estarem à venda nas livrarias desde 24 de outubro) e pretendem conquistar as novas gerações.

A coleção de vinte livros, com textos e ilustrações de Pimentel, terá um caráter educativo, com histórias associadas a mensagens temáticas relacionadas com o crescimento saudável. «Nutrição, desporto, prevenção de acidentes domésticos, entre outros, são os temas a abordar. Vamos seguir um rumo pedagógico», diz o autor.

Recuperar o Vitinho e dar-lhe nova vida era uma ideia antiga de José Maria Pimentel. O sucesso do personagem há trinta anos é um bom estímulo. «Julgo que não há criativo algum que espere que o seu trabalho tenha este tipo de impacto», diz o designer. «O trabalho dos criativos é sempre emocional, envolvente e esforçado, mas acaba assim que se pousa a caneta e se inicia outro projeto.» Até porque este está longe de ser o melhor trabalho da carreira, acredita o criador. «Os meus melhores projetos caíram porventura totalmente no esquecimento e não tiveram o mesmo alcance.»

Quando criou o Vitinho, Pimentel inspirou-se numa das filhas, Ágata, à época com 2 anos, para alguns traços fisionómicos do boneco. O facto de andar descalço vinha da ideia de natureza, em ambiente rural, e simbolizava alguma liberdade. Vitinho começou por se chamar «Vita», porque se associava a vida, vitalidade, vitamina, e caminhou depois para «Vitinha» até chegar à designação final.

O lançamento de O Grande Livro do Vitinho, É a Dormir que se Cresce e Um Dia eu vou Ser Grande terá lugar no dia 9 de novembro, às 18h30, na Livraria Buchholz, em Lisboa [Rua Duque de Palmela, 4]. A apresentação estará a cargo de João Mendes Martins, autor da letra da canção.

 

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