O que a vida me ensinou: Valter Hugo Mãe

A vida não é um caminho em linha reta, acredita o escritor Valter Hugo Mãe. Há perdas, há ressentimentos, há expetativas defraudadas, há recuos, há avanços. Mas, apesar de tudo, vale a pena acreditar e continuar em frente para não viver numa amargura constante, numa angústia sem fim.

Texto de Sara Dias Oliveira | Fotografia de Pedro Ferreira/Global Imagens

«Aos 46 anos, aquilo que de mais precioso aprendi na vida é que não importa o que ela nos faça, o importante é mantermo-nos de boa-fé e propensos à alegria.» Em qualquer tempo, em qualquer lugar, importa-lhe regressar aos sorrisos. «Neste tempo de redes sociais e de folia, toda a gente pede a cabeça de toda a gente, e todos os dias há um ódio novo.»

E, uma vez mais, surge aquela fé no projeto humano que não permite que o mundo magoe. «A vida é uma aprendizagem de perda, é uma aprendizagem de aceitação. Não existe um mundo ideal, existe uma realidade ideal, a dos nossos próprios instintos, a dos nossos próprios gestos.»

«Os meus livros são constatações de percursos de dificuldade.» E, ao mesmo tempo, são livros que trespassam uma esperança inusitada, difícil de acreditar, mas que está sempre lá. Os livros são uma forma de fazer as pazes com a vida. A Máquina de Fazer Espanhóis foi a forma de se apaziguar com a morte do pai. O Filho de Mil Homens foi a forma de se apaziguar por não ter filhos. Os seus romances caraterizam a sua cabeça, o seu pensamento.

Neste momento, Valter Hugo Mãe anda de volta dos seus poemas. Em março do próximo ano, lançará um novo volume. «Uma versão revista e muito reduzida», revela. E com poemas inéditos.

Uma vida em números em números

77 – MÃE
A idade da mãe. A pessoa mais próxima. «É um acompanhamento muito especial porque me traz os problemas de uma pessoa mais velha, da Terceira Idade. Traz-me sobretudo a delicadeza.»

7 – ROMANCES
Romances publicados até agora. «Eles pontuam muito a minha vida. São vértices da minha vida, lugares pelos quais eu passo, são pontos de não retorno. A escrita de um romance não nos permite regressar.»

2 – BANDA SONORA
Partita n.º 2 para violino solo de Bach. A banda sonora mais importante da sua vida. «Um violino solo de uma melancolia profunda mas que, ao mesmo tempo, parece estar numa urgência. Como se a tristeza produzisse urgência e não quietude e desmobilização. Como se dentro da mais profunda tristeza encontrasse motivação para se mexer.»

9 – INFÂNCIA
Idade que tinha quando saiu de Paços de Ferreira para ir viver para as Caxinas, em Vila do Conde. «A idade com que se fecha a minha infância. Perco os meus amigos, as minhas referências seguras, e volto ao ponto onde não é mais possível ser uma criança e começo a ser um adolescente, um jovenzinho.» Foi uma fratura na sua vida.

30/10/2007 – PRÉMIO SARAMAGO
Data em que recebe o Prémio Literário José Saramago pelo livro O Remorso de Baltazar Serapião. «Não só porque o prémio reconheceu o meu trabalho, mas porque conheci Saramago, um homem que me inspira e me motiva nesse discurso de cidadania que tanto prezo.»