OPINIÃO

Um ginásio ao ar livre

A criação de um parque geriátrico veio trazer outros motivos de alegria a seniores de Peso da Régua. Já se sabe que é possível envelhecer de forma saudável e que a idade não é um entrave ao exercício físico regular. Mas agora é mais fácil passar da teoria à prática.

Texto de Cláudia Pinto | Fotografia de Rui Ferreira/Global Imagens

Está um rico dia», diz Antonieta Pinto, de 73 anos. Mora em Canelas, no concelho de Peso da Régua, e destaca a primavera antecipada que se faz sentir numa bonita e agradável tarde de março. Não sai da terra que a viu nascer, a menos que seja para visitar a filha e os netos que moram a 45 minutos. Dedica-se à lida da casa todas as manhãs e assim é desde que se casou.

O projeto é recente e resultou da atribuição de uma menção honrosa no BPI Seniores, em outubro do ano passado, no valor de aproximadamente 17 700 euros.

Antes disso, trabalhava na vinha. Da parte da tarde, os planos são outros: passar umas horas no Centro de Dia da Associação de Assistência Nossa Senhora das Candeias (AANSC), localizada na mesma freguesia. Nem as dores dos ossos ou as cirurgias a cada joelho a demovem de jogar à bola ou de praticar atividade física. No exterior da associação, foi criado recentemente um parque geriátrico, onde os seniores podem praticar exercício físico no meio da natureza.

O projeto é recente e resultou da atribuição de uma menção honrosa no BPI Seniores, em outubro do ano passado, no valor de aproximadamente 17 700 euros. «Isto é uma maravilha», diz Antonieta convictamente e sem perder a gargalhada genuína. E desengane-se quem pensa que a atividade a cansa. «Nós cansamo-nos, mas de tanto rir», diz.

O parque pode ser utilizado pelos utentes da associação, mas também por qualquer pessoa que habite na freguesia ou que tenha vontade de experimentar. Não existia, até à data, nenhum parque geriátrico do género no concelho. Com a verba ganha, foi possível revitalizar as zonas exteriores e pintar o parque de merendas e o parque infantil que se localizam nas imediações.

Com a proximidade ao parque geriátrico, não raras vezes, cruzam-se seniores e crianças, promovendo-se o convívio intergeracional, outro dos objetivos da associação. O montante foi ainda utilizado para adquirir e montar oito equipamentos para a prática de exercício. «Sempre contemplámos a atividade física nas nossas iniciativas. Temos agora um novo trunfo», explica Ana Cristina Sá Teixeira, diretora técnica da associação. Estes equipamentos foram construídos com especificações próprias para utentes mais velhos.

«Têm uma dimensão adaptada à altura média da população portuguesa a partir dos 65 anos e uma amplitude mais reduzida, pois sabemos que a partir desta idade os movimentos vão ficando mais condicionados», sublinha. Cada aparelho tem ainda um dístico que explica como se deve realizar cada exercício e o número de vezes que o utente pode repeti-lo em segurança.

Maria, de 78 anos, confessa estar satisfeita com a novidade. «Há uns tempos, fiz um passeio até Estarreja com equipamentos parecidos com estes e pensei que tal “coisa” nunca chegaria à minha terra. » Afinal, estava enganada. E já conhece todos os equipamentos.

«Ainda tenho destreza para experimentar todos, e quando me canso num, passo para outro. Não tenho pressa, não estou a olhar para o relógio», conta. Há cinco anos a frequentar o Centro de Dia, ganhou uma vida repleta de atividades que contrastam com «a vida pacata da aldeia». Além de gostar de fazer tricot, de música e de jogar boccia, o importante para si é mesmo o convívio.

«Apoiamos atualmente 70 idosos, em centro de dia e ao domicílio», explica Ana Teixeira.

«Estão aqui pessoas ainda mais antigas do que eu. Sinto-me uma criança a ouvir as histórias que têm para contar.» Apesar de alguma resistência inicial fruto do desconhecimento por parte dos seniores relativamente às funcionalidades destes equipamentos, a reação tem sido positiva.

«Gostam muito e tem sido um verdadeiro sucesso», diz a responsável. Foi em 1966 que a Associação de Assistência Nossa Senhora das Candeias foi criada para combater os problemas associados à infância. Na sua génese, tinha uma creche, mas à medida que o tempo foi passando e novas necessidades foram surgindo, as respostas foram alargadas a seniores e à população em geral que vive em situação de pobreza. «Apoiamos atualmente 70 idosos, em centro de dia e ao domicílio», explica Ana Teixeira.

No centro de dia existe um plano de atividades diversificado à medida dos gostos e das necessidades de um grupo heterogéneo. «Temos pessoas que sempre trabalharam na vinha, de sol a sol. Outras foram emigrantes e estão agora a regressar ao país. Todas elas têm motivações diferentes. Se umas gostam de bingo, outras há que nunca viram números na vida.

Se umas adoram a hidroginástica, outras nunca vestiram um fato de banho», afirma a diretora. No final, o balanço faz-se sentir. «Quando experimentam e gostam, sentimos que o nosso trabalho segue no caminho certo», conclui.

MAIS PROJETOS, MAIS CANDIDATURAS, MAIS APOIO

O Prémio BPI Seniores foi criado em 2013 com o objetivo de apoiar projetos que promovam a melhoria da qualidade de vida e o envelhecimento ativo e saudável das pessoas com mais de 65 anos. No total das quatro edições, foram distinguidos 107 projetos e doados 2,3 milhões de euros a instituições privadas sem fins lucrativos, o que já permitiu melhorar a vida de mais de 38 mil pessoas. As candidaturas para a quinta edição do BPI Seniores estão abertas até 30 de abril – podem candidatar-se instituições privadas sem fins lucrativos, com sede em Portugal, através do site www.bancobpi.pt.

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