OPINIÃO

Tempos imemoriais

A memória esbate-se, como a tinta numa parede. Ou seleciona, tantas vezes sem nos perguntar se queremos apagar esta ou aquela informação.

Deveria haver aqui encaixada na nossa programação a obrigatoriedade de confirmar antes de apagar, como qualquer computador de meia-tigela. Mas não, parece que o sistema decide o que apagar sem nos consultar. E, às vezes, acaba por cometer erros e apagar coisas importantes.

Deve ser porque pensa que essas coisas importantes já estão tão entranhadas, que não vale a pena guardar os pormenores, só assim um traço geral. Como se ficassem gravadas no nosso código genético e nos fossem guiando, sem sabermos bem como, nem porquê, mas sabendo apenas que aquele é o caminho certo, sem precisar de voltar a repetir todas as alternativas que demonstraram ser erros, com o consequente sofrimento que acarretam.

A essa sensação de certeza acerca de como proceder perante determinada situação, mesmo que nunca se tenha vivido nada parecido, chamar-se-á de instinto. A herança que gerações anteriores nos passaram é preciosa e deveria ser mantida intocada. Só que de vez em quando, talvez por erro do sistema, que falha ao não perceber a importância daquela informação, essa herança começa a perder-se.

Os instintos começam a fraquejar e o perigo parece-nos apetecível, amigo, até. Deve ser por isso que dizemos que a história tende a repetir-se. Por esta falha de memória, este erro do sistema, que nos apaga as memórias coletivas, deixadas pelos antepassados. Apagam sobretudo as lágrimas e o sofrimento que as antigas pegadas causaram e ficamos convencidos de que afinal nem foi tão mau assim.

Vai daí, ficamos predispostos a escolher caminhos carregados de perigosas armadilhas que nos levarão certamente a destinos que não serão de bonança. Felizmente, por vezes, nesta rota autodestrutiva, alguém se lembra do caminho certo e consegue inverter o rumo dos outros a tempo de salvar todos.

É tudo uma questão de memória. Pode ficar esbatida numa parede esquecida, mas enquanto ninguém pintar algo por cima, ficará sempre um resquício que acabará por ser lido a tempo de relembrar o velho e precioso lema: liberdade, igualdade

* Cantora