OPINIÃO

Cantar como se rezasse

Cremos muitas vezes que o mundo perde significado com a tecnologia, mas ela apenas nos deu mais liberdade.

 

Na revista Ilustração Portuguesa, de janeiro de 1931, podemos ler a seguinte declaração de Alfredo Marceneiro: «O meu maior desgosto em 1930 é um desgosto profissional… O gramofone veio industrializar o fado. Que vergonha! O fado não se deve nem se devia vender. Eu canto o fado como se rezasse. Mas veio o senhor Menano e a Maria Alice, começaram a ganhar dinheiro, e o fado tornou-se mercadoria. Que vergonha! Eu canto porque a minha alma mo ordena. E o que eu mais ambicionava para 1931 é que fossem proibidas as especulações que se fazem com a nossa linda canção. “É que eu sou um fadista trágico”.»

Evidentemente, a tecnologia, a gravação, permitiu mais facilmente comercializar o fado, mas não retirou a nenhum fadista a possibilidade de cantar porque a alma lho ordena. E uns, sem prejuízo para a alma, podem até ganhar dinheiro com isso, não com o objetivo do lucro, mas como consequência, enquanto outros, pelo contrário, podem pensar no fado como uma profissão ou mera ferramenta para ganhar dinheiro. São opções que não afetam o fado de Marceneiro. O dinheiro que uns recebem não altera a autenticidade dos outros, assim como um escritor comercial não diminui nenhuma das obras de Dostoiévsky (que, por sinal, chegou a escrever apenas para ganhar dinheiro, para sobreviver).

Cremos muitas vezes que o mundo perde significado com a tecnologia, com a repetição, com a indústria, com a globalização (com razão, em alguns casos). Mas ouço muitas vezes, o discurso de que já nada tem valor: a viagem perdeu o interesse porque as pessoas levantam voo no seu país e pousam do outro lado do mundo, os ilustradores agora fazem tudo em computador, etc. O raciocínio é, além de demasiado conservador, estranho. É como desejar acender um cigarro com pedras de sílex. Nesse tempo é que era. O isqueiro tira o prazer de fumar. Além disso, e mais importante, normalmente a tecnologia não impede que continuemos a fazer as coisas que fazíamos antes. Podemos abdicar dos esgotos e usar latrinas, podemos viajar de Lisboa a Berlim a pé, podemos acender a lareira friccionando pauzinhos. Ninguém nos impede de sermos mais ou menos medievais no nosso comportamento. A tecnologia não nos retirou essas possibilidades, apenas nos deu mais liberdade. Agora podemos decidir se queremos viajar de burro ou de avião.

E graças ao gramofone que, segundo Marceneiro, industrializou o fado, é-nos possível hoje em dia ouvi-lo cantar como se rezasse.