OPINIÃO

Splendid Hotel

Anacleto Coelho está muito francamente exausto de tantos turistas. Tem defendido, por isso, a criação de uma taxa ou taxinha que contenha tamanha invasão – e fá-lo sempre com muita veemência e convicção, conforme se impõe a um homem honrado. «Os bárbaros descaracterizam a freguesia, conspurcam-nos o passeio público e as tradições, e não concedem um instante de sossego», protesta.

Pratica, por isso, um género de hospitalidade própria dos habitantes do Monte dos Vendavais e, a menos que alguma coisa muitíssimo excêntrica tenha sucedido nos últimos dias, voltará a passar o mês de agosto entrincheirado em casa, vigiando como um mocho pelos buraquinhos do estore fechado.

Embora a prática bovina do turismo o amofine solenemente, Anacleto aspira também ao éden e ao idílio que apenas a distância e o deslocamento permitem. Acalenta, por isso, o desejo de viajar para longe dos viajantes, rumo ao plácido paraíso onde não haja homens adultos em calções curtos, nem mulheres a chinelar nos passeios, nem petizes lambuzando-se com o açúcar colorido dos picolés, nem gordos expondo os refegos ao sol.

Lido e estudado como é, Anacleto encontrou num jornal estrangeiro a referência ao único hotel que talvez correspondesse às suas exigentes extravagâncias de antiviajante. Chama-se Splendid Hotel e é composto por uma única acomodação ampla e luminosa, instalada num pavilhão envidraçado na margem de um lago, entre o arvoredo. O chão é de mosaicos pretos e brancos e nas fotografias do suplemento do jornal havia cadeiras de baloiço em palhinha e uma luz diáfana e bela, capaz de embalar os mais profundos desejos de Anacleto Coelho.

Sendo, como é, um inturista convicto, Anacleto não se alojará no Splendid Hotel. Impedem-no os aborrecimentos da viagem e o seu indefectível apego à imobilidade, evidentemente, ainda que estes não sejam os maiores obstáculos a tão antiturística incursão. Anacleto Coelho bem telefonou, averiguou e quis saber, apurando que o alojamento consiste, afinal, numa efémera criação artística da francesa Dominique Gonzalez-Foerster, concebida para o Parque do Retiro, em Madrid. «Um rematado logro», protestou Anacleto. «Parece um hotel avesso a clientes, mas deve estar apinhado de turistas franceses.»