OPINIÃO

Primeiros socorros sem limite de idade

Num minuto, tudo pode mudar. E saber como agir rapidamente pode ser a diferença entre a vida e a morte. Para consciencializar os seniores para a importância dos primeiros socorros e, ao mesmo tempo, promover o envelhecimento ativo, a cruz vermelha de torres vedras criou um projeto inovador. Objetivo: salvar vidas de quem precisa, melhorar vidas de quem ajuda.

Texto de Cláudia Pinto | Fotografia de Leonardo Negrão/Global Imagens

Imagine a seguinte situação: está tranquilamente num restaurante a almoçar e, de repente, alguém sente-se mal. Numa questão de segundos fica inconsciente. Não o conhece e provavelmente nunca se tinha cruzado com ele na vida. Não sabe que doença tem, a sua história de vida, nada.

Continua inconsciente, não reage a qualquer estímulo. Queremos ajudar, ser úteis. O que fazer? Ou o que se deve evitar para não piorar a situação? Qual seria a sua primeira reação? O projeto Juntos Salvamos mais Vidas, da Delegação de Torres Vedras da CVP (DTVCVP) arrancou este ano com o objetivo de consciencializar e capacitar os munícipes com mais de 65 anos na prestação de primeiros socorros, em caso de acidente ou doença súbita.

No final do ano passado, o projeto inovador garantiu à instituição o primeiro lugar no Prémio BPI Seniores 2016 (ex aequo com a Associação Mutualista Covilhanense), no valor de cerca de 16 mil euros.

Cerca de seiscentos seniores do concelho, a população-alvo, têm agora a oportunidade de adquirir conhecimentos – ou aperfeiçoar outros – nas sessões de formação que começaram em fevereiro e decorrerão até novembro.

Durante duas a quatro horas, os seniores adquirem conhecimentos sobre prevenção e medidas de segurança, suporte básico de vida, obstrução da via área e posição lateral de segurança. A inscrição é gratuita e qualquer sénior pode participar. No final das primeiras sessões serão escolhidas seis pessoas para integrar a equipa SOLIDARIEDADE de emergência da DTVCVP.

Neste primeiro ano, o foco incide nos residentes das freguesias do interior do concelho, com população mais envelhecida, tendo em consideração os Censos de 2011. No final do ano passado, o projeto inovador garantiu à instituição o primeiro lugar no Prémio BPI Seniores 2016 (ex aequo com a Associação Mutualista Covilhanense), no valor de cerca de 16 mil euros. A verba está a ser aplicada nos materiais utilizados nas formações (consumíveis como compressas e luvas), nos manequins para a simulação de manobras de Suporte Básico de Vida (SBV), nas deslocações da equipa e na gestão logística do projeto.

Parte da verba será ainda aplicada em formação mais alargada, num total de 80 horas, das seis pessoas selecionadas como voluntários do projeto. Inspirados num projeto semelhante mas direcionado para crianças do primeiro ciclo de escolas do concelho, os colaboradores da instituição sentiram necessidade de replicá-lo junto de seniores.

«Achámos que poderia fazer sentido apostar nesta população, uma vez que o nosso concelho é muito envelhecido», diz Filipa Coelho, socióloga e coordenadora da área social da DTCVP. Os primeiros socorros são habitualmente difundidos em escolas e junto da comunidade em geral. «Acreditamos que estas pessoas merecem ter as mesmas possibilidades».

SEGUNDOS PRECIOSOS

A paragem cardíaca no adulto «representa a principal causa de morte na Europa e afeta até 700 mil indivíduos anualmente, sendo que dois terços dos casos ocorrem fora do ambiente hospitalar», segundo dados (de 2010) do European Resuscitation Council. Por outro lado, «a realização de manobras de reanimação de Suporte Básico de Vida (SBV) e de Desfibrilhação Automática Externa nos primeiros três a cinco minutos após paragem cardíaca podem resultar num aumento da taxa de sobrevivência até 75%», segundo a mesma entidade.

Um estudo realizado em 2013 pelo Automóvel Club de Portugal e outros congéneres europeus, em colaboração com delegações nacionais da Cruz Vermelha, concluiu que Portugal tem uma grande falta de formação em primeiros socorros nos condutores, quando comparado com outros países europeus. Na Alemanha, Áustria, Croácia, Dinamarca, Eslovénia, Republica Checa, Sérvia e Suíça, por exemplo, os candidatos a condutores têm obrigatoriamente formação nesta área. Ao contrário do que se passa em Portugal, Espanha, França, Itália, Bélgica e Finlândia.

Mas esta realidade pode mudar, pelo menos no nosso país – no passado dia 20 de abril foram aprovadas em Conselho de Ministros mais de cem medidas no âmbito do Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária (PENSE 2020). Entre elas a introdução de cursos de primeiros socorros e de Suporte Básico de Vida no ensino secundário e para obtenção da carta de condução.