OPINIÃO

E quando formos nós a apanhar o susto de uma vida?

A história está cheia de histórias destas. A nossa história. Cheia de histórias dos outros. De vez em quando, alguma nos toca a nós mais diretamente, mas somos capazes de andar uma vida inteira sem nos cruzarmos diretamente com uma assim.

A história está cheia de histórias destas. A nossa história. Cheia de histórias dos outros. De vez em quando, alguma nos toca a nós mais diretamente, mas somos capazes de andar uma vida inteira sem nos cruzarmos diretamente com uma assim. A ouvir falar, alguém que conta que um tio de um vizinho, ou mesmo um amigo de raspão no Facebook teve um susto. Um abanão. Um abre-olhos.

Mas a coisa está lá longe. Só acontece aos outros. A nós não. Nós sempre tivemos uma sorte danada, um bom karma, uma mão amiga. O destino, o universo, Deus, o Divino, seja o que for que regula isto – até mesmo o nosso livre arbítrio, cada um acredita no que quer – sempre nos protegeu.

Até ao dia. Até ao momento em que vemos o susto de frente, o abanão, o abre-olhos. Chegou perto. Ainda não nos tocou a nós. Ainda não chegou cá. Já está mais próximo, mas ainda não fez mossa direta. Só no choque em cadeia. Agora foi a colega da frente, a quem morreu o marido, assim de repente, um dia não acordou, finou-se.

Foi o vizinho do 2.º F, que perdeu a casa e o terreno e as poupanças de uma vida, quando foi tudo engolido pelo fogo lá na terra. Foi o chefe, que recebeu o relatório daquela biópsia e ficou a saber que tem um cancro. Foi o primo, tão saudável e desportista, que começou a sentir tudo enevoado e acordou dois dias depois numa cama de hospital sobrevivente de um AVC que o vai mudar para sempre. Foi o amigo, que perdeu o filho, atropelado por um bêbado que saiu da faixa e nem soube bem o que fez.

Aí paramos. Abrandamos um pouco. E se fosse connosco? E se fossemos nós, naquela cama de hospital, com aquele relatório nas mãos, naquele velório? Como é que fazíamos? A quem telefonávamos? A que boia nos agarrávamos para não ir ao fundo? Com quem choraríamos? A quem podíamos dizer que não, que não está tudo bem, que estamos mal e não sabemos o que fazer, como sair disto, como reagir, que estamos cansados de nos fazer fortes pelos outros? Para que porra de lado nos iríamos nós virar se a vida nos atirasse assim com um camião para a frente dos olhos?

É nessa altura que vamos passar menos horas no trabalho? Será a partir daí, quando ainda não somos nós no olho do furacão, mas estamos suficientemente perto para lhe sentir o vento, que vamos passar a comer melhor? A fazer exercício? É com a mudança de vida dos outros, mas com o susto que isso nos prega a nós, que vamos finalmente fazer uma lista dos amigos com quem queremos marcar almoços que andamos a adiar?

É com esses sinais de alerta que vamos mesmo – mas mesmo, à séria – meter na cabeça que temos de passar horas de qualidade com os filhos todos os dias? E que se não o fazemos à terça-feira, devemos compensar à quarta, porque há um dia em que vão crescer tanto que serão eles a já não ter dias da semana para nós.

Andar sempre bem com a vida e com os outros, equilibrado por dentro e por fora, a ser grato pelo que se tem, a lutar por ter mais mas apenas o suficiente, a ser ambicioso mas não ganancioso, a mudar a vida dos outros para melhor, a ver os filhos crescer e evoluir também como pessoa… Isso dá uma trabalheira danada e nem sempre conseguimos.

Passamos mais tempo a correr atrás do prejuízo e a fazer figas para não levar com o camião de frente do que a apreciar os momentos em que conseguimos mesmo ser um pouco do que almejamos. Mas de tempos a tempos, quando o susto passa perto, é bom pararmos para pensar. E enquanto desejamos que não nos toque a nós, vamos apreciando o que temos. E corrigindo o caminho sempre que for preciso.