OPINIÃO

Pai, o que é uma campanha eleitoral? E para que servem estes cartazes todos?

– Para que é que servem estas fotografias todas? – Para nada. Não servem para nada.

Aquele senhor é importante? Aquele ali da cara grande.
– O do bigode? É mais ou menos. É um político. É um candidato à nossa câmara municipal. Para mandar na cidade. Se fosse o presidente, era importante, mas como não é, é só mais ou menos.
– O que é um candidato?
– É alguém que quer ser uma coisa, mas ainda não é. Quer ter uma coisa, mas ainda não tem.
– A mãe disse-me que isso se chama ambicioso.
– É ambicioso, sim. Mas não faz mal ser ambicioso.
– E porque é que a cara dele é tão grande?
– Porque foi assim que fizeram o cartaz.
– Ele é muito feio. Se a cara fosse mais pequena não se via que é tão feio. A cara dele está em todo o lado. Já vi a cara dele na nossa rua. E ao pé da escola. E na rua da avó. Porque é que temos de ver a cara dele tantas vezes? Se ele fosse bonito não me importava.
– É um exagero, não é? Também acho.
– É ele que manda? Para aparecer tantas vezes?
– Ele gostava de mandar. Se ganhar as eleições vai mandar.
– Ele é muito feio para mandar.
– Não podemos escolher isso. Se tiver mais votos, ganha. Mesmo que seja feio. Bonito ou feio, importa é que trabalhe bem.
– Se ele ganhar vai ficar mais bonito?
– Não. Vai continuar feio. Mas o que interessa é que seja bom a fazer o que a cidade precisa. Não tem de ser bonito para fazer isso. A democracia não funciona assim, filho.
– O que é a democracia?
– Um dia destes explico-te. Mas não tem que ver com ser bonito ou feio.
– Eu acho que ele é muito feio para mandar.
– Já te disse que isso não importa nada. Se ele ganhar e fizer um parque com baloiços ao pé de nossa casa, vais gostar mais dele? Já vais achar que é bonito? Se ele tapar os buracos na rua da avó, vais gostar?
– Ele vai à avó? Eu não quero ir a casa da avó se ele estiver lá.
– Se ele ganhar, não é ele que vai tapar os buracos na rua da avó.
– Então para que é que importa ele ganhar?
– Não é ele que vai lá tapar. Ele manda alguém. Não precisas de
o ver.
– O senhor que manda na cidade é mais bonito do que este?
– Não é um senhor, é uma senhora. E é mais bonita, sim. É bem gira. Mas isso não interessa nada. É gira mas não faz muitas coisas.
– O que é que ela devia fazer?
– Devia tapar os buracos da rua da avó.
– É ela que vai tapar os buracos?
– Não é ela que tapa. Manda tapar.
– É ela que aparece naquelas fotografias com muitas pessoas?
– É ela, é. No partido dela fazem os cartazes assim. Com toda a gente. Um dia falo-te disso, do coletivo.
– Tem tantos amigos na fotografia e ninguém vai ajudar a tapar os buracos na rua da avó?
– Eles dizem que não têm dinheiro.
– Mas o dinheiro deles é para tapar os buracos noutras ruas?
– Não sei. Olha ali mais um cartaz com mais caras.
– Este tem óculos. Vê mal. Se vê mal não vê os buracos na rua da avó. Vamos ter de ver estas pessoas sempre? Estes cartazes vão cá ficar para sempre? Quando eu for velhinha e tu já tiveres morrido?
– Se calhar alguns cartazes ficam, mesmo quando formos muito velhinhos.
– Para que é que servem estas fotografias todas?
– Para nada. Não servem para nada.