OPINIÃO

Os turistas ingénuos que vieram para ficar

Dependemos demasiado do turismo para deixá-lo ao sabor de achismos nacionais. Até porque há algo enternecedor nos turistas que ingenuamente querem sê-lo.

Desde que as viagens se massificaram, viajar deixou de ser uma vacina contra a estupidez. É possível viajar numa bolha de ignorância, em que tudo é preparado para que não haja imprevistos. E embora o turismo sustentável seja o desígnio, a tendência, até pela velha questão do mínimo denominador comum, é a homogeneização. Os mesmos restaurantes, com os mesmos pratos, os mesmos souvenirs, as mesmas fórmulas em todos os cantos do mundo. O objetivo parece ser fazer que todos se sintam em casa. Uma verdadeira quadratura do círculo.

Há, no entanto, algo de enternecedor nestes turistas que não se importam de o ser e muito menos de o parecer. Pagam rios de dinheiro e levam pouco para casa, umas quantas fotografias a mais no telemóvel. Comem em restaurantes miseráveis, pelos quais pagam mais do que deviam, compram souvenirs made in China – está lá escrito – e nunca se atrevem além da estrada mais batida e segura. Para não dar exemplos próximos, basta caminhar pelos canais menos centrais de Veneza para perceber isto. Sim, é possível encontrar silêncio em Veneza.

Esta espécie de auto-limitação que os turistas se impõem faz que vejam apenas o que lhes quisermos mostrar. O que «for» turístico. Ou seja, para além das consequências económicas para os lisboetas, das rendas a subir aos cafés mais centrais ao dobro do preço, parece que poderemos guardar para nós alguns segredos.

Isto porque tenho uma notícia triste para dar aos que escolheram o turismo e os turistas em Portugal como alvo dos seus maus fígados: segundo o Conselho Mundial para o Turismo o crescimento vai ser exponencial. E, nisto, o país não está sozinho: podem vir ataques terroristas, instabilidade política, pandemias e doenças, que as pessoas vão continuar a viajar. As viagens e o turismo, na verdade, são das únicas certezas que podemos ter. A indústria do turismo é das maiores do mundo, e, em 2016, contribuiu para 10,2% da riqueza mundial, um em 10 empregos.

Portugal não é exceção nesta economia sem fronteiras – o que, diga-se é da maior justiça, uma vez que fomos nós que a inventámos, há mais de 500 anos. Neste momento, criam-se em Portugal 905 mil empregos diretos e indiretos à conta do turismo e a indústria representa 16,6% do PIB – 30,8 mil milhões de euros. E Portugal ainda está em 47º lugar no ranking mundial no peso do turismo para a riqueza. Há vários países desenvolvidos à nossa frente, numa lista liderada pelo Reino Unido, seguido de França, Itália, Espanha e Turquia. Ou seja, além de ser uma tendência difícil de travar, é também irrealista tentar travá-la. Até porque esta é a terceira atividade com maior percentagem de crescimento no mundo, logo a seguir à indústria química e automóvel.

Por tudo isto é melhor encararmos a questão: os turistas vieram para ficar. De meias brancas, sandálias e bermudas, ou chapéus chiques e sabrinas. Respeitando o que encontram pela frente ou fazendo parte das hordas que se limitam a chegar, tirar uma selfie e ir embora. Eles estão aí, e como dizem os americanos, temos de lidar com eles.