Os riscos da dieta vegan para as crianças

Médicos alertam em estudos para casos de raquitismo e AVC em crianças que seguem dietas vegan radicais, sem controlo e sem suplementos. Há mesmo profissionais que defendem que se deve pedir a intervenção do tribunal nos casos mais graves para garantir tratamento e vigilância dos menores. DGS explica que vegetarianismo pode ser saudável desde que sejam seguidas certas regras nutricionais.

Texto de Catarina Guerreiro | Fotografia de Shutterstock

Um bebé com cinco meses começou a seguir uma dieta vegan, como os pais, e acabou com raquitismo grave aos dois anos; um outro, de 10 meses, teve um AVC porque a mãe, durante a gravidez, teve o mesmo tipo de alimentação; e outro ainda revelou atrasos motores e deformações ósseas. Os casos passaram-se todos em hospitais portugueses, levando os médicos a fazer alertas para os perigos da dietas que impõem restrições alimentares às crianças.

Em vários estudos, os profissionais de saúde têm, por isso, falado da moda das dietas vegan e chamado a atenção para os riscos que podem representar por levarem a deficiências nutricionais de vitaminas D e B12, cálcio e ferro e poderem causar alguns problemas sérios.

Há mesmo clínicos que consideram que têm de ser tomadas medidas mais severas. É isso que defende o grupo de pediatras da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo que, no estudo «Raquitismo carencial: uma doença da modernidade?», garante que se tem assistido ao aparecimento crescente de casos de distúrbios nutricionais graves em crianças alimentadas à base de dietas vegetarianas.

As situações de desnutrição «devem ser notificadas e, se necessário, poderá ser solicitada ordem judicial para providenciar tratamento e supervisão adequada».

Explicam que o raquitismo carencial está a reemergir devido a este tipo de dietas e à baixa exposição solar e admitem que, com o estudo, pretendem «alertar para as potenciais complicações do vegetarianismo estrito nas crianças em crescimento». Por isso, defendem que «as famílias em risco devem ser identificadas, orientadas e aconselhadas do ponto de vista nutricional».

E vão mais longe: as situações de desnutrição «devem ser notificadas e, se necessário, poderá ser solicitada ordem judicial para providenciar tratamento e supervisão adequada a estas crianças vítimas de maus tratos por negligência parental». A opinião é da equipa de sete médicos que elaborou o estudo – Ana Moutinho, Nélia F. Costa, Domingas Assunção, Edite Spencer, Verónica Tubal, Maurílio Gaspar, Aniceta Cavaco – e que foi publicado na Acta Médica Portuguesa, uma revista científica da Ordem dos Médicos.

O filho de dois anos de um casal que seguia uma alimentação vegan teve de ser internado numa Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo por falta de cálcio.

«É um assunto que tem gerado preocupação e reflexão dentro da Ordem dos Nutricionistas», garante, por seu lado, a bastonária Alexandra Bento, confirmando que a questão de adesão à alimentação vegan pode implicar alguns problemas de caráter legal e moral: «Até que ponto o que eu faço, como mãe, atinge a liberdade de outra pessoa?».

Os casos nos hospitais têm-se sucedido nos últimos anos. O filho de dois anos de um casal que seguia uma alimentação vegan há oito teve de ser internado naquela Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo por falta de cálcio. Chegou à consulta com as pernas tortas – posicionadas como as de um cowboy (o que clinicamente se chama varismo) e os médicos suspeitaram logo do que se podia estar a passar. Fizeram análises e exames. Mas bastou uma radiografia ao punho para mostrar que era evidente a reduzida densidade óssea.

Apesar de ter dois anos, «a idade óssea foi estimada em 18 meses», explicam os médicos, que contam este caso clínico no estudo científico. A criança começou, então, a ser seguida, mas a situação agravou-se e aos 29 meses estava com varismo agravado. Ou seja, com bossa frontal e alargamento dos punhos e das articulações das costas. Pouco depois teve de ser internado por prostração e recusa alimentar. Foi tratado e, ao fim de três dias, teve alta.

Começou a seguir um tratamento à base de cálcio e vitamina D durante semanas e os pais, dizem os médicos, «colaboraram na introdução de iogurtes» na dieta. Dieta esta que, desde que nascera, tinha tido características muito especiais: até aos cinco meses, apenas consumiu leite materno (sem suplementos) e a partir daí passou para uma dieta vegan, como os pais, sem produtos de origem animal e incluindo leite de amêndoas, detalham os especialistas.

«O planeamento dos regimes alimentares vegetarianos tem de ser cuidadoso de forma a proporcionar o suprimento nutricional adequado»

A partir dos seis meses começou a revelar problemas que só pararam aos dois anos, quando, já com raquitismo, a situação foi detetada no hospital. Nessa altura, teve de seguir um plano de tratamento rígido durante nove meses e consumir produtos lácteos. Pouco depois de fazer três anos, as pernas do filho do casal vegan ficaram finalmente sem deformações.

«O planeamento dos regimes alimentares vegetarianos tem de ser cuidadoso de forma a proporcionar o suprimento nutricional adequado», avisam os especialistas nas conclusões do trabalho – onde lembram que estes casos de raquitismo associado à alimentação vegan começaram a ser descritas em estudos clínicos no início dos anos 80. E recordam o caso de quatro bebés cujas mães pertenciam a uma comunidade do Médio Oriente e que praticava uma alimentação estritamente vegetariana, que foram internados por desnutrição e raquitismo grave.

«Na alimentação estritamente vegetariana não se ingerem produtos de origem animal, nem tão pouco se consome leite ou ovos, o que pode originar défices nutricionais graves de vitaminas que só se encontram nos alimentos de origem animal», explica Alexandra Bento.

A bastonária da Ordem dos Nutricionistas diz que a opção por uma alimentação vegetariana até podia ser uma boa solução para as famílias e crianças melhorarem os hábitos alimentares, que incluem muitas vezes excesso de gorduras. Mas aí, avisa, têm de ser dados suplementos para que elas não fiquem com carência de alguns nutrientes essenciais. «Mas o problema é que há pessoas que são muito radicais e não consomem esses suplementos por ter na sua origem uma base animal», nota Alexandra Bento.

Foi uma dieta vegetariana mais radical durante o aleitamento que, segundo uma equipa de médicos do Hospital Amadora Sintra, levou um bebé a sofrer um Acidente Vascular Cerebral.

Foi exatamente uma dieta vegetariana mais radical durante o aleitamento que, segundo uma equipa de médicos do Hospital Amadora Sintra, levou um bebé a sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral). A criança chegou à urgência por ter caído, estar prostrada e apresentar diminuição dos movimentos do braço esquerdo.

Feito o diagnóstico, percebeu-se que o bebé tinha tido o AVC devido a falta de B12 – uma vitamina encontrada em alimentos de origem animal, como carne, leite, queijo e ovos. A vitamina pode ser detetada também em alguns alimentos de origem vegetal, mas não em quantidade suficiente.

Fígado de bovino, vitela ou cordeiro, caviar e ostras são os alimentos com maior quantidade desta vitamina. Já a quinoa e as frutas não têm de todo esta vitamina essencial para a constrição do ADN, proteção e regeneração dos nervos e regeneração celular, entre outros.

Por isso, no estudo de Joana Amaral, Marta Ezequiel e Catarina Luís, do Departamento de Pediatria e consulta de Neuropediatria, do Hospital Fernando Fonseca, EPE (ou Amadora Sintra) avisam que a «dieta vegan não é isenta de défices nutricionais». E mais uma vez explicam que esta opção deve ser acompanhada. «Torna-se imperativo o pediatra acompanhar não só os hábitos alimentares das crianças, mas sim de todo o agregado familiar, especialmente durante o aleitamento materno».

Atenção aos ‘produtos naturais’

A falta de acompanhamento levou um rapaz de 17 meses de uma família vegan a ficar internado no serviço de Pediatria no Hospital Garcia de Orta. Quando ali chegou apresentava vários problemas: tinha dificuldades psicomotoras, não conseguia manter-se sentado sem apoio nem andar sozinho e tinha deformações ósseas. Estava emagrecido, notam as médicas do serviço de pediatria daquele hospital, que, em conjunto com outros clínicos do centro de Saúde de Corroios, descreveram o caso clínico no estudo «Novos hábitos, velhas doenças: um caso de raquitismo».

Apesar de ter já um ano e cinco meses, pesava 8,7 quilos e media 71,7 centímetros, muito abaixo da média para a sua idade. Além disso, não tinha em dia as vacinas previstas no Plano Nacional de Vacinação. Os pais eram vegetarianos estritos.

Até aos seis meses foi alimentado em exclusivo com leite da mãe, vegetariana, sem suplementos – o que causou défice de vitamina D. A partir dessa data diversificou a alimentação, mas de forma restrita. Isto é, sem leite e derivados e à base de cereais, legumes e proteínas quase exclusivamente vegetais. Ao mesmo tempo, os pais começaram a dar ao filho uma bebida de aveia, como alternativa ao leite.

Os vegetarianos consideram os alimentos rotulados como ‘naturais’ e sem produtos animais como uma escolha mais saudável e nutricionalmente superior, mas há que ter atenção à composição.

Foi, referem os médicos no estudo, essa bebida com baixo teor de vitamina D e cálcio que passou a ser dada depois de deixar de mamar, o que precipitou o raquitismo. O que consumiu durante meses não tinha as vitaminas necessárias para o crescimento e, como nunca tomou suplementos e teve pouca exposição ao sol, acabou por ficar doente.

O caso desta criança mostra, dizem os médicos, alguns erros que existem em relação a este tipo de alimentação. «Os vegetarianos consideram os alimentos rotulados como ‘naturais’ e sem produtos animais como uma escolha mais saudável e nutricionalmente superior. No entanto, podem ser associados a raquitismo carencial», avisam os médicos, explicando que quem opta por seguir uma dieta vegan tem de ter alguma atenção aos produtos que escolhe.

Em vez daquele leite de aveia com baixo teor de vitaminas, os profissionais garantem que no mercado «há fórmulas à base de soja adaptadas para lactantes que são uma boa alternativa vegetariana ao leite materno». Caso contrário, as crianças correm riscos, como sucedeu com esta que só seis meses depois de começar a ser tratada começou então a recuperar as capacidades motoras e a estrutura óssea melhorou.

Isto, mantendo uma dieta vegetariana, como desejavam os pais, mas com suplementos, adiantam os autores do trabalho, concluindo que «os regimes vegetarianos podem proporcionar aportes nutricionais apropriados ao crescimento e desenvolvimento da criança e adolescentes, mas devem ser adequadamente planeados, orientados e monitorizados pelos profissionais de saúde em conjunto com as famílias».

Em Itália, já há um projeto de lei a pedir penas de prisão para os pais que imponham dietas vegan aos filhos e eles venham, em consequência, a sofrer alguma doença ou lesão.

O tema está ser debatido pelo mundo. Recentemente, em Itália, e perante o aumento deste tipo de situações graves para a saúde, o assunto chegou ao parlamento. A deputada Elvira Savino, do partido Forza Itália, quer mesmo penas de prisão para os pais que imponham dietas vegan aos filhos e eles venham, em consequência, a sofrer alguma doença ou lesão. Para isso, apresentou uma proposta de lei que será discutida no parlamento italiano.

Segundo os autores do projecto – lançado depois de terem sido registado quatro casos de desnutrição infantil devido a este tipo de dietas – os pais têm tendência para iniciar uma alimentação vegan nos filhos sem consultar um especialista, pondo em causa as necessidade nutricionais dos mais novos.

Mas a questão não é pacífica. Basta ver que, em Itália, estão a ser analisados também outros projetos de lei em defesa dos vegetarianismo e que pretendem que as cantinas escolares adotem ementas deste tipo.

Em Portugal, a Direcção-geral de Saúde esclarece, em documentos oficiais, que as dietas vegetarianas, desde que sejam corretamente planeadas, são saudáveis e nutricionalmente adequadas para todas as fases do crescimento das crianças e adolescentes.

No entanto, perante o aumento da adesão a estas dietas vegan, e o crescimento de casos associados a problemas de saúde, a DGS lançou, em 2016, um guia para os vegetarianos. É que, avisam os especialistas deste organismo, as famílias que optam por este estilo de vida têm de seguir alguns cuidados nutricionais específicos e fazer um planeamento rigoroso no dia-a-dia.

Veja na FOTOGALERIA acima as 10 dicas dos peritos da DGS e descubra AQUI porque é que as vitaminas são importantes para o organismo e em que alimentos pode encontrá-las.

 

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