OPINIÃO

Onde estou?

Passei demasiado tempo longe daqui, em quartos que não vi realmente, que não senti: o meu corpo separado de mim. Eu a existir naquilo que imaginava ou que lembrava, eu a existir em telefonemas ao fim do dia, e o meu corpo a atravessar lugares, deitado em mil camas de hotel, lavado debaixo de chuveiros, diante das paisagens de muitas janelas.

De repente, a escuridão. Não encontro direções ou formas no interior do negro, há uma distância infinita para todos os lados. Quero levantar-me, mas tenho medo de tanta falta de sentido. Onde estou? Essa pergunta preenche-me e angustia-me. Estendo os braços e, como num pesadelo, não distingo contornos reconhecíveis.

 

Se toco numa parede, na esquina de um armário, numa almofada, tudo é inesperado. Estou no avesso do mundo, num lugar a que cheguei por acidente, caí por uma falha da perceção.

Acordei e, nesta escuridão absoluta, sem nome, talvez o mundo tenha acabado, ou talvez eu esteja cego, talvez esteja morto, talvez eu tenha deixado de ser eu. Então, aos poucos, o silêncio desiste de ser repentino, transforma-se em tempo suspenso, tempo sem referências, noite de nenhum mês, instante de nenhuma hora, tempo que apenas permanece. Ainda estou vivo, inspiro esse alívio.

Reconheço o ritmo prolongado de uma respiração. É um murmúrio tranquilo, como as ondas na praia: estende-se longamente, é entremeado pelo silêncio, recolhe-se longamente, e recomeça. Reconheço o cheiro da pele nos lençóis e na roupa da cama, o cheiro do morno. Reconheço a presença do meu filho.

Aos poucos, as imagens ou as ideias juntam-se na minha cabeça e, como uma construção, o sentido revela-se. Então, lembro-me de ter chegado ao quarto do meu filho para adormecê-lo, recordo detalhes, o que falámos, como rimos naquele momento. Apaguei a luz e, durante algum tempo, ficámos a falar na escuridão, ele deitado na cama, eu sentado no chão, com a cabeça encostada à colcha.

Passei demasiado tempo longe daqui, em quartos que não vi realmente, que não senti: o meu corpo separado de mim. Eu a existir naquilo que imaginava ou que lembrava, eu a existir em telefonemas ao fim do dia, e o meu corpo a atravessar lugares, deitado em mil camas de hotel, lavado debaixo de chuveiros, diante das paisagens de muitas janelas.
Levanto-me devagar e, com todo o cuidado, para não fazer barulho, avanço na direção da porta. A escuridão deixou de ser tão escura.