OPINIÃO

O meu bairro tem má fama

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Fez ontem quatro anos que me mudei para o bairro do Intendente, em Lisboa. Instalei-me numa antiga vila operária, que agora é prédio de habitação, no meio de uma travessa onde sempre proliferou a prostituição e o tráfico de droga. Na altura, a Câmara Municipal de Lisboa estava a investir forte na zona. Havia um programa em marcha para requalificar a má fama do sítio e, em grande medida, as coisas resultaram. O largo central tornou-se numa das novíssimas centralidades da capital e as ruas em seu redor foram tomadas por novos residentes, bares, esplanadas, lojas e ateliers. Apanhei a transformação em cheio e, para mim, essa transformação tem um rosto. Não é o antigo-autarca-atual-primeiro-ministro, ainda que tenha sido ele o mentor da mudança. É a Luísa.

Luísa é uma angolana de 53 anos que passou quase trinta a vender o corpo nas ruas do Intendente. Conto isto sem pudores porque ela também não os tem: a vida é o que é e ela assume sem vergonha que foi puta. Quando o bairro começou a mudar, a vida dela deu uma volta também. Estava cansada de esquinas e dos quartos alugados à hora, a clientela escasseava e as curvas já não tinham a mesma firmeza. Luísa precisava de endireitar-se – e a oportunidade surgiu quando as primeiras organizações não-governamentais chegaram ao bairro.

A requalificação do Intendente teve iniciativa camarária, sim, mas muito trabalho das pequenas associações locais que tentaram fazer a ponte entre a população que estava e a que chegava. O Largo, o Sou, a Cozinha Popular da Mouraria, o Renovar a Mouraria, por exemplo. Alguns destes grupos convidaram Luísa para trabalhar com eles. Tornou-se cozinheira e empregada de balcão, deixou a vida que tinha. E sente-se tão agradecida por isso que todos os anos cozinha no Largo do Intendente um almoço comunitário de Natal, pago com o dinheiro que fatura em gorjetas e o apoio de algumas destas ONGs. Toda a gente é bem-vinda, ninguém precisa de pagar um tostão.

A transformação do meu bairro salvou a vida da Luísa, e é ela que o diz de peito cheio. Os bairros, em boa verdade, podem fazer isso, salvar vidas. Mas, se há quatro anos, quando fui viver para o Intendente, a transformação seguia a alta velocidade, agora a mudança abrandou e, em muitos casos, fez marcha atrás. O policiamento do bairro passou a estar circunscrito a um Largo e deixou de ser feito nas dez ou doze ruas circundantes, o que permitiu o regresso do tráfico e o aumento dos assaltos. As descargas ilegais de lixo em zonas habitacionais tornaram-se frequentes, apesar das queixas dos moradores. Então o Intendente está a tornar-se numa coisa nova: uma ilha limpa e arranjada para turista ver, mas rodeada de problemas que se estão a agravar.

Fez ontem quatro anos que me mudei para o bairro do Intendente e hoje tenho um problema. É que, do sítio onde vivo, eu consigo perceber que a prioridade de Lisboa tem de ser os lisboetas – e que mais importante do que erguer ilhas bonitas é criar bairros que sejam verdadeiramente bairros. Que misturem os que chegam com os que estão. Que salvem Luísas. Há uma regra em reportagem que se devia aplicar à gestão das cidades. A história não está sempre no centro da praça. Está muitas vezes nas margens, nos sítios ao lado. É aí que a vida acontece.

Ricardo J. Rodrigues