OPINIÃO

O liberticídio da juventude na FCSH

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De um e de outro lado da barricada da polémica da Universidade Nova, ideias erradas e uma grande vontade de não deixar a liberdade entrar num espaço que devia ser dela.

Há tanta coisa errada no cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa… Na base não está uma rixa entre grupos rivais, um arroubo de juventude. Como diz o comunicado da Associação de Estudantes, «tentar fazer crer às pessoas que não há substrato político no que está a acontecer é, no mínimo, desonesto». Há. E é preocupante.

A FCSH – conhece-se quem lá andou pela velocidade com que diz o acrónimo – dedica-se às ciências sociais e humanas. E leva ou levou, inevitavelmente, com teorias desconcertantes e antagónicas sobre o mundo. Acaba posto em causa e aquilo em que acredita também. Isso deu origem, ao longo dos anos, a uma comunidade que se gaba de um certo cinismo, tem o vício da relatividade, um tom blasé, pé atrás e um argumento sempre na ponta da língua. Dogmas eram vistos com desconfiança na FCSH que eu conheci – e as associações de estudantes, embora de pendor esquerdista, não se deixavam amordaçar.

Neste contexto, já foi estranho ver a tradição das praxes franquear os portões da Avenida de Berna e a rebelde esplanada ser palco de «tradições académicas». Tradições, para nós, questionava-se, não se seguia. Esses miúdos, vestidos de negro, em atitudes subservientes e sem espírito crítico, eram sinal de uma mudança – um momento de servidão começou a marcar a entrada na universidade, mesmo na FCSH.

As praxes foram estranhas, a polémica da conferência é chocante. Há, na FCSH, gente, pelos vistos suficiente para criar movimentos, disposta ao liberticídio. Uns porque o professam, outros porque o praticam. Gente que em vez de aproveitar a universidade como um tempo sem paralelo na formação do pensamento – no auge da juventude, com informação ao dispor, sem amarras, temporais, económicas, sociais ou ideológicas – debita ideologias, ainda por cima de forma confusa, papagueia ideias, muitas delas gastas, esmiuçadas e contraditas por tantos autores que são ensinados na instituição onde estudam. Há, nas atas da Associação de Estudantes da FCSH, linguagem panfletária que seria ridicularizada na FCSH que conheci, como aconteceria o mesmo ao linguarejar facebookiano do grupelho chamado Nova Portugalidade – que tem tanto de nova como… enfim, vocês sabem.

O mais preocupante é o tal «substrato político». O sintoma dos radicalismos que representa. Que, em vez de aparecer no debate para discutir como jovens aguerridos – com argumentos incendiados, ou, em última análise, à batatada – haja quem ache que deve «fazer tudo para que esse debate não aconteça». Quem não perceba que quem define o que é ou não um perigo para a democracia são os tribunais e não uma RGA, por mais «soberana» que seja – e não estamos a falar de pessoas com a 4ª classe, mas de jovens universitários. Por outro lado, há na FCSH – na minha informal e rebelde FCSH – gente disposta a lutar por valores populistas e bacocos, que, como o nome indica, são normalmente para seduzir o povo ignaro, não jovens, alunos de uma escola de pensar crítico.

Como é que isto aconteceu? O que leva esta juventude, inquieta como todas, a procurar em ideais bafientos a esperança para o seu futuro? Que falha tem a modernidade que não lhes dá respostas? Onde estiverem essas respostas está o fio da meada desta história.