OPINIÃO

O desastre à beira mar?

Escondermos a cabeça na areia perante o que se passa nas nossas praias não vai ajudar nada. Que comece o debate sobre a organização da costa.

Se alguém quiser saber porque não se faz nada para melhorar as condições da floresta portuguesa basta ler a reportagem que faz capa nesta edição. Não, não estou a confundir alhos com bugalhos. Nesta edição falamos de praias, e sobretudo desse imenso areal da Caparica, não de floresta. Mas estamos igualmente a falar de natureza, daquela que é preciso proteger e que um dia pode voltar-se contra nós. E, sobretudo, estamos a falar de acidentes à beira de acontecer, de coisas que toda a gente com o mínimo de imaginação consegue prever. E do que podemos fazer para o evitar.

A Costa de Caparica é uma das razões por que Lisboa é uma das melhores cidades para viver. A meia hora de carro ali estamos, entre as dunas, as arribas e o mar. Um mar batido e fresco, um areal plano – mesmo muito plano na maré baixa – que convida a passeios intermináveis – ou que parecem sempre mais longos do que os nossos pés aguentam. Uma sucessão de bares e restaurantes que oscilam entre o hippie chique, o pé na areia, o tasco de pescadores. Ou, para quem preferir, uma praia deserta. Tudo isto no espaço de alguns quilómetros.

Deixem-me tornar isto um pouco mais pessoal. Todos os anos anseio por esse momento em que rumo à margem sul. O rádio do carro toca um suave Michael Kiwanuka. Abro a janela para que o ventinho suave, de oeste, arrefeça o interior, com cheiro a pinheiros marítimos. O Kiwanuka alerta-me de que vou de novo para casa, e é isso mesmo. Todos os anos anseio por esses fins de semana de verão, em Lisboa.

Depois, há trabalho, mas esses sábados e domingos à beira mar dão a sensação de férias. Provavelmente, podia repetir o mesmo texto substituindo a palavra Lisboa por muitas outras localidades, Porto, Ponta Delgada, Caminha, Faro, Odemira, Setúbal, Coimbra… Para quase todos nós, a maioria de nós, os que vivem na bordinha de Portugal, está apenas à distância da nossa vontade. Quantos alemães poderiam dizer o mesmo?

Faço aqui referência à minha crónica neste mesmo espaço, há três anos – foi o que citei no parágrafo acima. A costa portuguesa é uma das nossas maiores riquezas – tal como a nossa floresta. Mas preservá-la implica mudar hábitos, por vezes operar autênticas revoluções no estado normal das coisas como sempre as conhecemos. Se nada foi feito na floresta portuguesa, é porque não é fácil fazê-lo. Porque não dá votos, e pode mesmo granjear ódios. Não ser popular não é coisa de que os políticos gostem muito – mesmo os que não são populistas.

A reportagem que hoje publicamos fala sobre tudo isto. Sobre uma revolução que está a ser preparada na nossa costa, e sobretudo na Costa de Caparica. Ouve razões dos vários lados, explica prós e contras, vai ao fundo das questões. Há quem se queixe de exagero, há quem anuncie a desgraça. O debate está lançado. A pior coisa que podia acontecer era transformar desacordos em ódios, e não debater com realismo. Ou deixar andar. Gostamos todos demais das nossas praias para deixarmos isso acontecer.