O Carnaval é quando um homem quiser? Raios!

[…]

– Recebemos um recado do jardim de infância.
– Então?
– Temos de fazer uma fantasia de carnaval com um tema à escolha.
– Mas o carnaval já passou.
– Pois. Mas eles acham que não o celebraram bem e algumas crianças queixaram-se que os pais não tinham feito fantasias muito giras.
– Então e agora?
– Então, agora as educadoras lembraram-se de fazer outro Carnaval.
– Mas não podem. Isso não é assim.
– Dizem que o Carnaval é quando um homem quiser.
– Mas não é. Não pode ser. Carnaval já foi, foi na semana passada e já passou. Passou. Passado. Adeus. Tchau Carnaval, olá Páscoa. É assim, chama-se calendário. Tem uma sequência. Não se muda assim.
– Mas qual é o teu problema?
– O problema é que detesto o Carnaval. E detesto tudo o que tenha a ver com carnaval. E agora que temos a vantagem, a boa notícia, a alegria suprema, a festa, hossana nas alturas, de já ter passado o carnaval, vamos deitar tudo por terra e voltar a festejar isso? Nem pensar.
– Vai dizer isso às tuas filhas.
– Não preciso de dizer, elas sabem que já passou.
– Elas sabem que já passou. Mas agora vai-lhes lá dizer que não se podem mascarar outra vez, desta vez como deve ser, porque o pai não quer. E que é outra vez culpa do pai?
– Desta vez como deve ser? Outra vez culpa do pai? Que conversa é essa?
– Quer dizer que elas foram fazer queixa de ti.
– As minhas filhas foram fazer queixa de mim? A quem? Porquê?
– Às educadoras delas. Cada uma à sua. Disseram que tu não gostas do carnaval, que as mascaraste à pressa, que as fantasias eram feias, que as amigas iam todas mais bonitas do que elas.
– Mas elas estavam tão giras. A Branca de Neve e um morango.
– Não era um morango, era uma amora. Uma bata manhosa que compraste no chinês, três números acima e que desbotou para a roupa dela. E a irmã com um fato Branca de Neve antigo, que era da tua irmã, do tempo em que o Walt Disney ainda devia ser vivo.
– Aquele fato andou pelas mulheres todas da minha família.
– E por isso mesmo está naquele bonito estado. A tua filha queria ir vestida de Elsa, de Ana, de Princesa Sofia ou de astronauta, e tu arranjaste um fato de Branca de Neve com 25 anos. Só porque eu não estava cá e foste preguiçoso.
– E elas agora fizeram queixa de mim, foi?
– Foi. Disseram-me ontem o que tinham feito e que estavam zangadas e que queriam falar com as educadoras.
– Então isto é tudo por causa de mim? O que é que tu disseste?
– Disse para fazerem o que o pai as ensinou a fazer: quando não concordam com uma injustiça, protestem. E elas protestaram.
– Por que é que não me disseste?
– Porque elas têm razão. E porque pediram para não te dizer. Para não poderes boicotar a festa delas.
– A festa é delas?
– A festa é para elas. As educadoras sugeriram e os amiguinhos das salas delas concordaram. Para as manas não ficarem tristes, vão ter direito a uma festa de carnaval especial.
– E o que é que os outros pais dizem disso?
– Possivelmente dizem que tu és um palerma que os obriga a arranjar mais fatos de carnaval. Mas isso é problema teu.
– Tratas das fantasias?
– Trato das das miúdas. Da tua não.
– A minha?!
– Também tens de ir mascarado. Do que quiseres.
– Foram as educadoras que disseram?
– Não. Mas as tuas filhas iam gostar.

[Publicado originalmente na edição de 5 de março de 2017]