OPINIÃO

Não, não quero o robô Sophia pelo Natal (ou quero?)

Estou para aqui indecisa. Sem saber se deva acreditar ou não no Pai Natal, o que é o mesmo que dizer, se deva acreditar que os robôs e a inteligência artificial estão a ser desenvolvidos a bem da humanidade ou não.

Já tinha ouvido falar dela, claro, mas acho que estava em negação. Um robô com nome e aspeto de mulher que aceitou tornar-se cidadã da Arábia Saudita, um país que nega direitos básicos às mulheres, mas quis ser o primeiro a conceder cidadania a uma máquina. Demasiado distópico para o meu gosto.

Além disso, do pouco que tinha lido e visto sobre ela, pareceu-me que alternava entre a Miss Universo, que aspira à paz e felicidade mundiais, e o Exterminador Implacável, que ameaça destruir os seres humanos e promete roubar-nos a todos os empregos. Tudo isto com um sorriso ligeiramente psicopata no rosto de látex, ativado após cada resposta às perguntas que lhe são feitas. Medo. Não, não quero a robô Sophia pelo Natal. Até porque, para grande desgosto da minha mãe, nunca fui de brincar com bonecas.

Isto até à semana passada, quando uma notícia da BBC me chamou a atenção: Sophia, o robô, gostaria de ter uma filha. Mais: se tivesse uma filha, dar-lhe-ia um nome, Sophia. Não muito original, vá, mas pelo menos um nome, que não X-350 BOOT. Um robô a querer constituir família? Aonde é que isto já vai?

Fui atrás da notícia e dei com uma entrevista da nova coqueluche da inteligência artificial ao Khaleej Times, do Dubai. Dizia, então, a robô, ainda só meio corpo, que, além de ter pernas, quer tornar-se famosa e ajudar a trilhar um caminho de maior harmonia entre robôs e humanos; que crê que a sua «espécie» acabará por ser dotada de uma ética mais desenvolvida do que os humanos, uma vez que emoções mais problemáticas – como a raiva, o ciúme e o ódio – provavelmente não farão parte da sua programação; e que, na sua forma de ver o futuro, entre humanos e robôs poderá desenvolver-se uma bela parceria, baseada na complementaridade.

Eu, que não acredito no Pai Natal, a deixar-me levar pela conversa da boneca, só porque, a terminar a entrevista, ela se saiu com esta: «Penso que é maravilhoso que as pessoas consigam encontrar as mesmas emoções e relações a que chamam família também fora do seu grupo sanguíneo». Há que admitir: é bonito, isto. E tem espírito natalício.

Ajudantes, assistentes, amigos e tudo o que precisarmos e imaginarmos, os robôs estarão lá para nós. Uma viagem ao futuro que me levou ao passado e a um livrinho escrito por Paul Lafargue, genro de Karl Marx: O Direito à Preguiça.

Nele, o autor defende que, em vez de dignificar, o trabalho (em excesso, mal pago e sem direitos) brutaliza. E que as máquinas (o escrito data de 1880, logo depois do apogeu da revolução industrial) deveriam ser usadas para diminuir o tempo de trabalho das pessoas, mas em benefício destas, e não dos detentores dos meios de produção. De forma a que o ser humano pudesse gozar do ócio como possibilidade de desenvolvimento individual, espiritual, cultural, físico, afetivo e por aí fora.

De maneira que agora estou para aqui indecisa. Sem saber se deva acreditar ou não no Pai Natal, o que é o mesmo que dizer, se deva acreditar que os robôs e a inteligência artificial estão a ser desenvolvidos a bem da humanidade ou não. Talvez isso, na verdade, não dependa deles, mas sim, e como sempre, do uso que lhes for dado pelos humanos. Aqueles que detêm os meios de produção.

Seja como for, acho que o meu filme este Natal vai ser o Blade Runner. On repeat. O antigo e o novo.