OPINIÃO

Música que ajuda o gelo a não derreter

Depois de uma semana que a Fundação Champalimaud dedicou a discutir avanços e desafios do combate ao Alzheimer – doença com mais de cem mil casos diagnosticados em Portugal –, lembre-se que nem o rock nem a pop escapam às doenças mentais que afetam mais de cinquenta milhões de pessoas em todo o mundo.

Daquele passeio pelo jardim, David Gilmour guardou a loucura da mãe – «via fotografias e caras de pedra, penduradas em árvores», contou à Rolling Stone para explicar o significado de Faces of Stone, canção de Rattle that Lock (2015).

Em Afire Love (2014), Ed Sheeran conta a história do avô, vítima de Alzheimer, a quem o «diabo roubou a memória». E não há fã de rock que não conheça a história de Malcom Young, senhor dos riffs que transformaram os AC/DC numa instituição, forçado ao internamento em 2014 por doença mental.

Depois de uma semana que a Fundação Champalimaud dedicou a discutir avanços e desafios do combate ao Alzheimer – doença com mais de cem mil casos diagnosticados em Portugal –, lembre-se que nem o rock nem a pop escapam às doenças mentais que afetam mais de cinquenta milhões de pessoas em todo o mundo.

Gilmour estreou-se no tema em 1974, quando, durante a digressão em França, tocou pela primeira vez Shine on You Crazy Diamond. Um ano depois, chegava o disco de homenagem, Wish You Were Here. Nessa altura, os Pink Floyd mal tinham completado uma década de existência, mas na estrada já tinham perdido o homenageado, Syd Barrett, o primeiro vocalista que enlouquecera por excesso de consumo de drogas alucinogénias.

Mais bem-comportado, anos antes e do outro lado do Atlântico, Brian Wilson também cedeu. Com os seus Beach Boys embalados pelo sucesso dos primeiros singles e com Pet Sounds nas lojas, Wilson sofreu um violento ataque de pânico tendo posteriormente sido diagnosticado como bipolar.

O génio por detrás dos Beach Boys chegou a passar três anos na cama. Barret ainda gravou dois discos a solo, mas desapareceu pouco depois, e ao Alzheimer ninguém ganhou. Para doentes e cuidadores, a viagem é dura e só o desfecho está traçado. Dave Mustaine, dos Megadeth, também sentiu de perto a ferroada das doenças mentais quando, em 2014, a sogra, com Alzheimer em fase avançada, desapareceu, tendo sido encontrada, sem vida, dois meses depois.

No ano seguinte, editava Super Collider e pelo meio a faixa Forget to Remember. Em entrevistas, Mustaine nunca escondeu a ferida: «É [um processo] muito, muito doloroso. Como ver derreter a escultura de gelo de alguém que amas.» Segundo a Associação Alzheimer Portugal, a música ajuda a comunicar com os doentes em estado mais avançado. Só não chega para impedir que o gelo derreta.

RATTLE THAT LOCK, 2015
David Gilmour
15,99 euros

CRÍTICA

NUNCA A GUERRA ÀS DROGAS SOOU TÃO BEM
Adam Granduciel até chamou ao estúdio a banda que o acompanha quando sobe a palco como War on Drugs, mas acabou por tocar a maioria dos instrumentais, a compor e a produzir Deeper Understanding. No primeiro disco da banda, com o selo da Atlantic, não há revolução sonora nem se encontram grandes surpresas para quem ouviu, em 2014, Lost in a Dream. Mas volta a haver a mistura que de tanto soar familiar soa a novo e dá vontade de o ouvir em loop. O melhor dos War on Drugs e um dos discos do ano.

A DEEPER UNDERSTANDING
War on Drugs
16,99 euros

RESTAURADA A FÉ NA HUMANIDADE
Há uns anos, juntar LCD Soundsystem e Arcade Fire na mesma frase exigiria cuidado. Agora, tudo mudou, e nem tudo para melhor. Se juntar as duas bandas se tornou assustadoramente fácil, só James Murphy assegura que a fé na humanidade não partilha o destino do bom gosto de Win Butler & Cia. Quando Everything Now obriga a recordar ABBA, James Murphy lança American Dream, que muito mais do que um disco é um atestado da vivacidade de Murphy e a prova de que é possível fazer música de dança sem afogar o bom gosto.

AMERICAN DREAM
LCD Soundsystem
11,99 euros