«Quero fazer parte da geração que tornou o crioulo língua oficial de Cabo Verde»

Durante o primeiro Festival Morabeza – Festa do Livro, que decorreu na cidade da Praia, Abraão Vicente, ministro da cultura, afirmou a vontade política de elevar o crioulo a língua oficial de Cabo Verde. E considerou que os países da CPLP não se conhecem verdadeiramente.

Texto de Carla Macedo, em Cabo Verde | Fotografia de Paulo Sousa Coelho

Abraão Vicente, ministro da cultura cabo-verdiano, não se contenta com as relações económicas e linguísticas entre a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP). Quer mais. Lança a ideia de uma comunidade assente na língua, sim, mas com livre circulação de bens culturais. Além disso, quer afirmar o crioulo como língua oficial do país durante esta legislatura, para reforçar identidade cultural dos cabo-verdianos sem pôr em causa as características específicas de cada ilha. Entrevista no último dia do Morabeza – Festa da Língua, que quer transformar no encontro literário mais importante de África.

Num festival de língua portuguesa não é um pouco contraditório falar de crioulidade, de caboverdianidade?
O Festival não é de língua portuguesa. A temática é a literatura e em Cabo Verde esta é feita em português e em crioulo. A nossa ideia de unir a CPLP é exatamente a de trazer toda a diversidade, todos os idiomas, sotaques e dialetos que existem em todos os países. O que nós queremos é um debate sobre a diversidade dos países que falam português, mas mantêm na sua matriz identitária outros fatores. Esses fatores às vezes são línguas, que carregam histórias, identidades, etnias, raças. O facto de a língua portuguesa nos unir e fazer com que nos entendamos não elimina o resto. Ou seja, a nossa cultura é muito mais rica que a língua portuguesa. Sempre partindo do pressuposto que a língua portuguesa não está em causa.

Neste festival, falou-se muito da importância do mercado em língua portuguesa, até por comparação com o mercado anglófono. É possível num festival como este esquecer esse fator económico?
Nós não esquecemos. Nos encontros que nós temos tido com a comunidade, uma das ideias que Cabo Verde já lançou, tanto na minha pessoa como na pessoa do primeiro-ministro, foi a ideia de um mercado comum para a cultura e para as indústrias criativas. Isso significa que o português é a língua que nos une. Mas é sempre errado querermos minar esse debate da importância do mercado comum feito em português com a tentativa de eliminar outras temáticas. O que temos de ter é uma mentalidade aberta para debater essas nuances que enriquecem de facto a língua portuguesa.

«O português é a língua oficial, ponto final, mas notamos que está a sair fragilizado pela predominância do crioulo no quotidiano.»

De que nuances fala?
O português falado no Brasil é muito diferente do português falado em Portugal ou em Luanda ou em Maputo ou em Cabo Verde ou em São Tomé e a riqueza está aí, exatamente. A temática do crioulo e da crioulidade e da nossa identidade surgiu como parte de um debate para definir uma palavra que é crioula. Morabeza é uma palavra crioula, não é uma palavra portuguesa. Nós em Cabo Verde não vemos esse dilema de ter que escolher. O crioulo veio como um debate sobre se não será altura de, também constitucionalmente, o reconhecermos como uma das línguas oficiais.

Falou disso na sua intervenção e há algum debate em Cabo Verde, sobretudo nos meios académicos. Há quem defenda que o português deve ser a língua de cultura de Cabo Verde. Esta não é a sua ideia.
O português é a língua oficial, ponto final. Não há debate. O lugar do português não está em causa. Cabo Verde adotou desde este ano letivo o ensino do português como língua segunda, que é um instrumento de trabalho para reforçar o português, porque estamos a notar que o português está a sair fragilizado pela predominância do crioulo no quotidiano. O que queremos como país e como Estado é reforçar o português. O português é o nosso principal instrumento de internacionalização e de integração no mundo. Não temos nenhuma dúvida disto.

O que a Constituição de Cabo Verde diz é que tudo devemos fazer para que o crioulo tenha o mesmo estatuto que o português. Isso não é uma guerra de línguas, é apenas o reconhecimento de um percurso.

Mas a sua posição é a do reconhecimento do crioulo como língua oficial.
Claro. Mas quem conhece o artigo 9º da Constituição de Cabo Verde sabe que ali se diz que o português é a língua oficial de Cabo Verde e que o Governo e o Estado tudo devem fazer para que o crioulo tenha, a nível constitucional, o mesmo estatuto que o português. É constitucional, não é um debate trazido por mim. É uma questão de dignidade da língua. Isso não é uma guerra de línguas, é apenas o reconhecimento de um percurso.

Do ponto de vista académico faltam algumas etapas ao crioulo para que se possa constituir como língua.
Sim. Falta todo o processo do estudo para a padronização da escrita. Eu não defendo que se escolha uma variante para que os outros se fundam nela. Acredito que grande parte da nossa memória imaterial está na nossa língua. Se ouvir o santantonês a falar o crioulo de Santo Antão ou o bravense a falar a língua de Brava, percebe que há aí mais do que um modo de expressão. Há o acumular de uma riqueza imaterial que só podemos encontrar na forma como eles falam o crioulo. Esta não é a minha área de especialidade, mas creio que para se oficializar plenamente o crioulo temos de ter toda a parte da gramática, a sintaxe, o léxico, o modo de escrita… é um longo processo. Não se pode tentar apressar um processo que só tempo pode fazer.

«Se não estivessem aqui [no festival] convidados estrangeiros, a língua de trabalho seria o crioulo e não o português.»

Há uma intenção concreta do governo de criar uma gramática crioula?
Já há. As universidades fazem esse trabalho. O que nós defendemos como Governo é que não podemos impor nenhuma variante mãe das outras variantes. Esse é um trabalho da academia. A política não deve entrar nesse aspeto. Se eu for dizer que o crioulo de São Vicente é o padrão, ou o de Santo Antão, ou de Santiago, independentemente de onde há maior massa populacional, o debate fica inquinado para uma divisão entre as pessoas.

Como se faz, então?
É um longo processo que só maior circulação entre as ilhas, maior convivência entre nós, maior divulgação do que fazemos irá resolver. Um bom exemplo é o funaná. O funáná canta-se tipicamente em badio, a língua de Santiago. Há muita gente já de São Vicente ou de Santo Antão a cantar funaná em crioulo. Este é um processo natural e histórico que não podemos impor. O que estamos a falar é da oficialização simbólica. É reconhecer que o crioulo já é uma língua oficial em Cabo Verde. Se não estivessem aqui convidados estrangeiros, a língua de trabalho seria o crioulo e não o português.

«A minha estratégia como ministro é conseguir a oficialização do crioulo. Eu quero fazer parte da geração que oficializou o crioulo.»

Passa a haver uma obrigação maior no sentido do estudo da língua?
Sim. A minha estratégia como ministro é conseguir a oficialização do crioulo. Eu quero fazer parte da geração que oficializou o crioulo.

É uma questão de vaidade?
Não, não é vaidade. É uma questão de dignidade do povo. Quero fazer parte dessa geração que olha o crioulo e diz é um património imaterial único, é algo que nos marca, que nos identifica. Não podemos ter medo dos debates. Faz-me confusão que eu não possa pensar livremente e dar a minha opinião porque pode dar polémica.

E tem tido bastantes reações às suas declarações e às suas escolhas.
Isso é normal.

Este Festival Morabeza também está envolto em polémica. Um poeta cabo-verdiano [José Luís Tavares] manifestou-se publicamente contra a forma como o festival está organizado.
A realidade contraria-o.

A questão económica é importante, até porque o festival também serve para fazer negócios. Ter-se trazido uma empresa portuguesa para a organização do festival gerou essa polémica.
A organização é mista. Contratámos uma parte logística de uma empresa que acreditamos ter o know how para conseguir trazer os autores de referência que nós queremos. Mas como pode ver mais de 70% da equipa é cabo-verdiana. O que estamos a fazer é formação on job. Eles vieram, formaram toda a equipa, toda a equipa da Biblioteca Nacional esteve estes dias em formação, a Feira do Livro é organizada em parceria, todas as conferências são organizadas em parceria. O que a Booktailors fez foi os contactos internacionais, o convite aos escritores, a divulgação à imprensa. Eu não vejo nenhum drama. Já disse isso várias vezes, eu quero afastar-me dessa questão e, claro, aqui há a caça ao ministro. Desde que eu entrei não há nada que eu faça que não seja polémico. Desde o dia da independência que chegaram portugueses e franceses e espanhóis a oferecer consultoria ao governo em todas as áreas.

«Não convidei o Mia Couto ou o José Agualusa ou o Afonso Cruz por vaidade minha. Por mim, trazia nóbeis da literatura. Mas as salas estão cheias porque há figuras internacionais que vêm complementar a parte nacional.»

Os convites a figuras internacionais como Mia Couto ou José Rodrigues dos Santos criaram polémica.
A minha pergunta é: queremos ou não concretizar a CPLP? Queremos ou não concretizar uma comunidade que pela língua se constitui? Não convidei o Mia Couto ou o José Agualusa ou o Afonso Cruz por vaidade minha. Por mim, trazia nóbeis da literatura. Não conseguimos este ano, mas vamos conseguir para os próximos anos. As salas estão cheias porque há figuras internacionais que vêm complementar a parte nacional. Repare que quem vem aos lançamentos dos livros durante o ano, é meia dúzia. A sala nunca está cheia. A nossa intenção foi chamar o público jovem, formar uma nova geração. Este festival é a concretização da CPLP.

Falou na sua intervenção de forma crítica sobre o espaço da lusofonia, por causa das burocracias, dos papéis. Do ponto de vista literário há também um impedimento: enquanto as mercadorias não circularem livremente a expansão do mercado livreiro é difícil de concretizar.
A feira do livro custou-nos horrores. 99,999999% dos autores que estão cá são editados em Portugal ou no Brasil. Para nós fazermos uma Feira do Livro a preços acessíveis significa que tivemos de pagar impostos lá na saída dos livros, impostos cá à entrada dos livros, pagar transportes. Os preços não conseguem ser competitivos e os cabo-verdianos não conseguem adquiri-los. A música passa na rádio e não há impostos. Mas um país da CPLP quer fazer uma grande feira do livro e, se eu vou buscar livros de Angola, Angola tem que ter uma política fiscal que os incentive a sair do seu país sem pagar imposto. A mesma coisa com Moçambique, com Portugal, com Cabo Verde. A minha ideia é que é preciso planificar os setores e os processos para que os autores não tenham a má experiência de não se sentirem em casa num país onde se fala português, mas onde são confrontados com a burocracia.

É possível eliminar essa burocracia se falarmos de um mercado muito grande e da quantidade de pessoas que nele habitam?
Eu nem avançaria para a livre circulação de pessoas, porque é uma questão muito complexa. Temos realidades muito diversas. Portugal no espaço Schengen, Brasil com política muito própria de circulação de pessoas, Angola também tem uma política muito restritiva. Para nós, que somos meio milhão, seria fantástico ganhar esse território todo.

É possível imaginar que se vai conseguir fazer uma espécie de Mercosul – um espaço de comércio livre?
Eu prefiro pensar que a cultura pode ser o primeiro espaço de livre circulação dentro da CPLP. A criação de um mercado comum para a criação e as indústrias criativas significaria que os produtos poderiam circular sem impostos ou com uma taxa adequada às características dos quadros, das pinturas, dos cds, e que os artistas e criadores reconhecidos pelos países como tal podem ter acesso a vistos de cortesia para participarem nos eventos e nas residências artísticas quando convidados pelas instituições idóneas.

Esse conceito já está a ser desenvolvido na CPLP?
Não está.

«As relações têm que deixar de ser apenas entre instituições para passarem a ser entre cidadãos [dos vários países da CPLP]. A cultura pode ser a alavanca para que nós nos conheçamos melhor»

E Cabo Verde vai fazer essa proposta na próxima presidência da comunidade?
No próximo ano vamos ter a presidência da CPLP, sob o lema da cultura. A cultura vai ser o nosso chapéu porque acreditamos que a partir de um exemplo as coisas podem alargar a outros setores. Não se pode começar logo com a abertura das fronteiras. O que acredito é que temos de visualizar a potencialidade económica por detrás dessa questão. Esta não é só uma questão afetiva. Economicamente é bom para os países termos esse espaço de circulação. Vai ser bom para os cidadãos, podermos ter esses espaços de criação de emprego. É preciso termos afinco, metodologia, planificação e desapegarmo-nos desse espírito do politicamente correto. Não há um debate sério sobre essa questão.

Viveu em Portugal durante seis anos. Há uma comunidade cabo-verdiana que vive lá há gerações. Como explica que a cultura cabo-verdiana seja tão desconhecida da maioria dos portugueses?
Porque ainda continuamos a analisar as nossas relações do ponto de vista afetivo. O facto de Cesária ter-se tornado um ícone ou a Sara Tavares ser de origem cabo-verdiana ou em tempos um terço da seleção portuguesa [de futebol] ser composta de cabo-verdianos não torna Cabo Verde um país conhecido. Não temos estado a fazer o suficiente. As relações têm que deixar de ser apenas entre as instituições das repúblicas para passarem a ser entre os cidadãos. A cultura pode ser a alavanca para que nós nos conheçamos melhor. Temos de deixar o mito de que nos conhecemos.