OPINIÃO

A memória, essa esquecida

Como eram as almofadas no Estádio do Lima, no Porto? Quantos elétricos passavam sob o arco do Marquês de Alegrete, no Martim Moniz?

Um colunista do jornal The New York Times acaba de fazer um dos maiores elogios que já li sobre o sucesso de uma política portuguesa. E sobre questão maior: travar os malefícios da droga. O texto de Nicholas Kristof intitula‑se «Como ganhar a guerra às drogas» e compara dois países, EUA e Portugal. E ganhamos nós. Somos o país da Europa Ocidental com a menor taxa de mortalidade devida ao consumo de droga (a de Inglaterra é dez vezes maior e a americana, cinquenta vezes!). E com uma progressão de sucesso: os casos de VIH associados ao consumo de drogas passaram de 50 para 5 por cento, entre 2000 e 2015.

Este extraordinário elogio, e publicado no NYT, foi por cá ignorado ou assinalado com fastio. Portugal às vezes não se dá conta da sua excelência porque a maior das suas coisas mesquinhas – a ignorância – manda e oculta demasiado. Por isso é importante a memória. Andar na minha cidade (e esta não é necessariamente uma só) e dar‑me conta dela. Nas década de 1980 e 90, a droga entrava‑me pelos olhos, pesada e pungente, entre os jovens arrasados pelo vício. Via‑a nas ruas e nas famílias, era uma pandemia.

Algures, num momento, houve uma viragem, que é tão boa de saber e aquele artigo de Kristof confirma no NYT. A redenção foi acontecendo ao longo de anos, não surgiu em aparição. Mas, hoje, quem conheceu as ruas de Lisboa e do Porto há um quarto de século vê como uma política sábia e generosa valeu muito mais do que uma política de repressão.

Mas teremos a memória sempre tão presente? Por estes dias dei por mim a invejar um tipo de género humano que eu considerava já estar no topo de sujeito invejado por mim, mais era impossível: o carioca. Ele tinha o chorinho e Vila Isabel, as crónicas de Ruben Braga e o bairro da Urca, o acaso nos pés e um jeito manso que é só seu. Ora recentemente fui convidado a apresentar um livro de Ruy Castro, o biógrafo. Eu leio‑o desde sempre, já tinha estado com ele há poucos anos, em Cascais, num debate como dois cronistas que somos, conheço-lhe todas biografia sobre pessoas, o livro (O Anjo Pornográfico, sobre Nelson Rodrigues) que apresentei agora, em edição portuguesa, há muito o comprara no Rio de Janeiro e fizera questão de o ler lá… Agora, com o reencontro e o voltar a ler dei‑me conta do que é essencialmente ele: é o biógrafo do reino do Rio

Nem só os seus biografados (Nelson Rodrigues, Garrincha, Carmen Miranda…) são cariocas, nenhum de nascimento, todos de vocação funda, como os livros de Ruy Castro (outro carioca, nascido mineiro) são sobre o Rio de Janeiro: sobre a saudade do Rio, sobre Ipanema, a bossa‑nova, o samba‑cancao, o Carnaval, o Fluminense… Há dias disse‑me que está a escrever sobre o Rio na década de 1920, demasiado ofuscado pelo modernismo em São Paulo. Se há sinal de buraco negro, Ruy Castro está lá para iluminar a sua cidade.

Nas suas grandes biografias, como esta de Nelson Rodrigues, o biógrafo é o repórter enviado ao passado para desempoeirar a memória. O biografado passa a ser o homem na cidade e esta fica contada sobre como se acompanhavam lá os funerais e quando The Bangu Athletic Club passou a escrever‑se «o Bangu» nos jornais. E se o biografado deixou escrito que na sua infância havia escarradeiras de loiça, o biógrafo vai descobrir‑lhe a marca. A cidade começa a ser‑nos recapitulada, dos cantos das salas à glória dos estádios…

Não temos, por tradição e gosto, biografias em geral nem, por arrasto, das nossas cidades. Esta crónica sai em dia de autárquicas e é sobre memória. Ou melhor, da falta dela: nenhuma campanha se lembrou de a pôr como prioridade. Como eram as almofadas no velho estádio do Lima, do FC Porto? Quantos elétricos passavam por dia sob o arco do Marquês do Alegrete, no Martim Moniz?