OPINIÃO

Meia hora à noite com os filhos para compensar as horas em falta durante o dia?

Muitas vezes, o meu pai não percebe que precisamos de ser conquistadas. Ao nosso ritmo, não ao dele. E, para compensar o tempo que esteve longe de nós durante o dia, quer concentrar em meia hora ao fim da tarde o que demora umas três ou quatro horas a conseguir.

Chegou outra vez com ar cansado. É a terceira vez esta semana. Ou a quarta? Já perdi a conta. Na semana passada aconteceu várias vezes. Chega quando estamos a jantar ou a acabar de jantar. Por vezes chega já depois da refeição, quando estamos quase a ir para a cama. É engraçado, porque ele pensa que nós não reparamos, somos pequenas, somos crianças, não ligamos a essas coisas. Como se fosse possível o nosso pai chegar a casa tarde, vir cansado, às vezes chateado, muitas vezes com pouca paciência, e nós não darmos conta. Não só damos conta, como não disfarçamos o nosso mal-estar com isso. Se é para disfarçar, disfarce ele, que tem uma data de anos, já é crescido. Eu e a minha irmã temos só 4 e 3 anos. Somos as crianças, aqui. Se há alguém que pode ter as atitudes desculpadas, somos nós, não é o adulto que vem irritado porque anda a trabalhar demais e não passa o tempo que gostaria com as filhas. Pois não, não passa. Azar o dele. E das filhas. E da minha mãe. Mas, por favor, que não descarregue a frustração em nós.

Muitas vezes, o meu pai não percebe que precisamos de ser conquistadas. Ao nosso ritmo, não ao dele. Muitas vezes, como estratégia subliminar de quem nem ele se apercebe, para compensar o tempo que esteve longe de nós durante o dia, o meu pai quer concentrar em meia hora ao fim da tarde o que demora umas três ou quatro horas a conseguir. E que a mãe, que nos foi buscar porque tem um trabalho diferente e outra disponibilidade, já conseguiu. Nós não ficamos chateadas com isso, já vamos compreendendo. Eles têm trabalhos diferentes e gostam do que fazem e à medida que crescermos vamos compreender ainda melhor. Mas precisamos de acalmar, de relaxar, de sentir que é bom estar em casa. Para depois, sem pressão, quando dermos conta que chegou a nossa vez, quando finalmente temos vontade, sermos então capazes de procurar a mãe e o pai. Ou a mãe, porque o pai não está.

O meu pai e a minha mãe educaram-me a mim e à minha irmã para sermos capazes de verbalizar o que nos vai na alma, para conseguirmos deitar para fora o que nos vai lá dentro, para conseguirmos extravasar, de alguma forma, o que nos preocupa ou chateia. E nós fazemos isso mesmo, de cada vez que o nosso pai chega a casa tarde. Amuamos, amarramos o burro, não queremos dar-lhe um beijinho, não tiramos os olhos da televisão, não largamos o livro ou a boneca. E ele às vezes percebe, outras tem a distinta lata de ficar aborrecido ou triste porque ai, ai, coitadinho, vem tão cansado e ainda tem de levar com o mau humor das filhas.

Claro que isto não acontece todos os dias. Ainda bem para ele, coitado. E para nós. Temos de dar tréguas ao desgraçado do pai. Nos outros dias agarramos-lhe as pernas, vamos a correr contar-lhe novidades, puxamo-lo para o nosso quarto para lhe mostrarmos alguma coisa. E sabemos que, com isso, estamos a dar-lhe anos de vida. É incrível como é fácil entreter e derreter um adulto. Sobretudo se for nosso pai. Bastar dar-lhe uns beijinhos, dizer-lhe coisas fofinhas ao ouvido, um abraço para cá, um adormece-me e conta-me uma história para lá, e conseguimos fazer relaxar quem quer que seja.

Quando formos mais crescidas do que somos agora e conseguirmos finalmente expressar o que nos vai cá dentro, com todas as palavras, quando conseguirmos dizer ao nosso pai que gostávamos que ele estivesse em casa cedo para brincar connosco, para nos dar banho, para estar cá… nessa altura ele vai entender as coisas de outra maneira. Por enquanto, essa tem de ser uma conclusão a que ele vai ter de chegar sozinho. Com a ajuda de alguns amuos nossos à mistura, para o ir lembrando.