OPINIÃO

Mais uma eleição de conter a respiração

Podemos continuar a acreditar num mundo humanista e livre, esse que a própria França nos convenceu ser possível? Veremos a partir desta noite.

Hoje há eleições em França. Mais uma e estamos todos a conter a respiração. Agora já sabemos o que é assistir, boca aberta de espanto e cabeça a abanar, a uma vitória que não esperávamos, ah, não, isso não! É certo que o risco de mais uma vitória do populismo barato parece, para já, afastado. As sondagens dão vitória ao candidato Emmanuel Macron contra Marine Le Pen. E, até agora, em França as sondagens têm estado certas, ao contrário do que aconteceu na Grã Bretanha quando se votou o Brexit ou nos EUA de Trump. Mas com esses desaires na memória, não podemos manter uma respiração normal por estes dias.

Até porque, em França, a questão não é dicotómica. Não é apenas a vitória ou derrota que importam. Há também na equação a dimensão da vitória que Emmanuel Macron terá de obter contra Marine Le Pen. Pode ser a diferença do tempo que temos para acreditar no mundo como o conhecemos. Um mundo que a própria França nos mostrou ser possível, com o seu slogan identitário de liberdade, igualdade e fraternidade, ultrapassando as suas fronteiras e tornando-se o benchmark de todo o mundo ocidental e humanista.

Não é só a questão da continuação da União Europeia. Ou o que pode acontecer ao euro, havendo uma má decisão dos franceses, hoje. Marine Le Pen é mais que isso – por muito que agora tente adoçar a mensagem para parecer razoável e confiável. Por muito que se tenha distanciado do pai, foi ele que lhe ensinou a ser o que é hoje, e é maçã que não caiu longe da árvore. Sendo mais louco e polémico, Jean Marie sempre era mais honesto – pagou-o permanecendo minoritário, mesmo quando passou à segunda volta das eleições presidenciais de 2002. Marine terá talvez a sede de poder que ele, mais ideológico, não tinha. Porque radical, racista, populista e pouco consequente é ela – mas, ao disfarçar, mete menos medo a quem nela pensar votar.

Em 1997, lembro-me bem do escândalo e tristeza que havia na cidadezinha de Vitrolles a segunda conquistada pela FN, onde fiz uma reportagem. A cidade viveu anos de terror, com o casal Mégret, nessa altura barões da FN. Mudaram nomes de ruas – a Praça Nelson Mandela transformou-se em Praça da Provença, a Av. François Mitterrand ficou Av. de Marselha, a Av. Salvador Allende, passou a Madre Térésa. Passaram a dar subsídios nas escolas apenas a crianças francesas – isto antes de o tribunal o impedir. E desbarataram os dinheiros públicos nas campanhas seguintes – o que os fez sair, até hoje.

Mas a verdade é que passaram 20 anos e os problemas sentidos em Vitrolles são os mesmos, mas mais fortes. Ali e no resto do país. O desemprego, a insegurança, o contacto permanente com culturas e religiões com diferentes, e ás vezes radicais e agressivas, maneiras de ver o mundo. Tudo isso partiu França e desagregou os franceses. Os que votam FN e Le Pen não são todos malucos – alguns, haverá, altamente ideologizados, mas os outros são fundamentalmente gente com medo e poucos recursos – cultura, inteligência, mundivisão – para lidar com ele. A maneira como o próximo presidente da França lidar com isso nos cinco anos deste mandato pode ser determinante para o futuro. Do seu país, da Europa e do mundo. Esse é o tamanho do desafio de hoje.