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O madeiro que aquece o Natal beirão

Um dia inteiro. É habitualmente o tempo que demora a arrancar um sobreiro antigo pela raiz, cortá­‑lo e prepará­‑lo para o madeiro de Natal. Carregue nas setas para ver as imagens seguintes.
Já não é um ritual de passagem para a idade adulta, mas o sobreiro ou azinheira continuam a ser arrancados pela raiz, numa operação que hoje conta com a ajuda de máquinas, mas durante anos foi feita à custa de braços e animais.
Sobro ou azinho são as madeiras habitualmente usadas no madeiro. A árvore antiga é oferecida por algum proprietário da terra.
A madeira será cortada e acondicionada para ser levada para o adro da igreja.
Noutros tempos eram os rapazes que iam à inspeção militar nesse ano que tinham a responsabilidade da tarefa, numa espécie de prova de virilidade que era ritual de passagem para a idade adulta.
Hoje todos ajudam e a missão rapidamente se transforma em convívio pela noite dentro.
Em Idanha-a-Nova o transporte do madeiro é revestido de solenidade, com o carro enfeitado a rigor.
Em Proença­‑a­‑Velha, no concelho de Idanha­‑a­‑Nova, o transporte do madeiro continua a ser motivo de festa. Por cada um destes paus, presos por uma corda, há quatro mãos que puxam a carroça que leva a madeira.
Nas décadas de 1960 e 1970 pairava naquelas horas uma sensação de temor pelo que a tropa representava: a partida para o Ultramar e o regresso incerto.
Hoje são novos e velhos, homens e mulheres, que regressam das cidades à aldeia para ajudar e manter a tradição.
Na manhã ou tarde seguinte ao dia em que foi preparado, dependendo da hora da missa, o madeiro será levado para o adro da igreja, onde ficará à espera da noite de 24 de dezembro para lhe deitarem fogo.
No trajeto de alguns quilómetros entre a tapada de onde o sobreiro foi arrancado até ao local onde será depositado, o grupo é incentivado e mais braços se juntam para ajudar.
E quem quem está na rua para ver passar o cortejo ainda recebe um copo de ginja para aquecer.
Presépio em Idanha-a-Nova.
O verão é a época que atrai mais gente às origens, seguido da Páscoa — o calendário cristão a marcar o regresso. No Natal está frio nas terras da raia, mas nem por isso estas gentes deixam de encontrar calor e conforto nestes momentos.
Na noite de Natal, a menos que do céu caia uma carga de água épica, é certo que todos se reúnem à volta dos grandes toros – já no local, à espera do momento. Esta noite, em muitos locais da Beira Baixa (como este, junto à igreja de Proença-a-Velha), haverá fogo e calor, conforto e conversas à volta do lume.

Fotografias de Valter Vinagre

O madeiro de Natal continua a marcar o espaço físico das aldeias do concelho de Idanha­‑a­‑Nova. Seja pela imponência dos grandes toros de azinho ou sobreiro amontoados nos adros das igrejas e capelas, seja pelo convívio da população ao seu redor, o madeiro permanece um momento chave da expressão coletiva nas comunidades desta região beirã.

Já não há «rapazes das sortes», mas, a cada ano pelo 8 de Dezembro, as populações congregam­‑se, como podem, para ir buscar ao campo as árvores que hão de aquecer o Menino Jesus na noite da Consoada, partilhada pelas comunidades reunidas em celebração festiva. A comer, a beber e a cantar à volta da grande fogueira, afasta­‑se o frio e a escuridão da grande noite de inverno, abençoados pelo nascimento do Salvador, luz nova a resgatar velhos costumes e anseios.

Na miríade de cenografias natalícias contemporâneas, esta tradição adapta­‑se e regenera­‑se, garantindo a sua continuidade fundamental entre um golo de vinho e uma trinca na filhós.

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