OPINIÃO

Luz dos meus olhos

Há um olhar que se cruza e que apagará a memória de todos os outros olhares antes dele. Fica-se preso, amarrado, passamos a procurá-lo sempre e para sempre. O lugar onde ele mora, esse amor tão puro e infinito, tem um rosto e um corpo físicos.

Primeiro, intuímo-lo, não o conseguimos ver. Ele vai crescendo dentro de nós, fazendo cócegas, lembrando a sua omnipresença. Nada será como dantes. É o mistério mais delicioso que nos cutuca por dentro.

Depois, um dia, ele anuncia-se. Como tudo o que vale a pena, conhecer esse amor é uma conquista dolorosa. Um trabalho demorado, feito passo a passo entre os dois seres que se vão olhar pela primeira vez.

É o primeiro trabalho de muitos trabalhos que iremos realizar vida fora a partir daí. Dá trabalho, o amor incondicional. Queremos que se crie e se desenvolva a todo o vapor, para que possa usar todos os trunfos com que veio ao mundo. Não queremos estragar. Sobretudo, não estragar. Ser fiel àquele olhar, onde tudo o que estava antes e tudo o que virá depois se concentrou.

E perder-nos nesse olhar, horas a fio, assim, só, a olhar. Nem é preciso falar, os olhos também sorriem. Ou choram. E lá vamos nós a correr, estancar aquelas lágrimas, dar colo e abraço. Embalar as dores, ver os olhos a fechar, lentamente, ao som dos nossos passos, de um lado para o outro no corredor da casa e da nossa voz, a cantar baixinho: «Estou de volta prò meu aconchego»…

Mesmo quando não nos olhamos, vemo-nos. Posso estar a dormir, que eu olho por ti na mesma. Contas comigo, foi esse o pacto que estabelecemos com aquele primeiro olhar. Tu, poisada na minha barriga, eu, vesga de amor por ti.

Luz dos meus olhos, menina apressada, que me quis ver antes do tempo. Aqui estou eu, agarrada a ti. Pode estar escuro como breu, mas nunca deixarei de te ver, porque és a minha Luz.