OPINIÃO

Eu, o Luís Figo e o feminismo, a palavra do ano

A foto que o ex‑jogador pôs no Instagram é tanto uma prova de amor como um sinal dos tempos que ainda não são exatamente como os queremos. No ano do feminismo, há que pensar diferente.

Nesta semana Luís Figo postou uma fotografia da filha no Instagram. «My beautiful», era a legenda, com um emoji coração. E foi assim que começou mais um episódio da minha história de feminista‑tardia‑e‑ainda‑recalcitrante. Li o post porque me foi chamada a atenção pelos jornais que referiam o orgulho do pai Figo na beleza da filha. Isto já é, de si, um pouco estranho: uma espécie de narcisismo biológico. Biológico, sendo a beleza algo perfeitamente aleatório, entranhado no mais profundo mistério do ADN. Narcisista porque, apesar de tudo, é obra do ADN de Figo – e da sua mulher Helen Svedin.

Pronto, lá estás tu, disse‑me a voz do meu grilo falante, que ainda não se converteu ao feminismo, quando o meu nariz se torceu com a notícia. Qual é o mal de um pai orgulhar‑se da beleza da filha e mostra‑lo nas redes sociais? Nenhum. Haverá, aliás, muitos pais que chamam lindas às suas filhas sem que isso corresponda à realidade. Como haverá casos em que até corresponde. Mas isso não conta para a equação. Nas relações entre pais e filhos, há coisas muito mais importantes do que a verdade. Há o coração, que, como sabemos, tem muitas outras razões.

Então? Pois, no feminismo é fácil passar da fase de não questionar nada para questionar tudo. Neste caso, basta fazer a pergunta de ouro: e se fosse um rapaz? Se fosse o filho, Figo escreveria: «Tão lindo?» com um coração à frente? Duvido. Provavelmente diria qualquer coisa mais vigorosa como «My boy!», o meu rapaz, e o coração substituído, talvez, por um emoji de luva de boxe.

São estes hábitos que fazem que seja tão difícil erradicar a desigualdade, mesmo em sociedades desenvolvidas. A beleza não é fundamental à vida, ao trabalho, à felicidade. E, no entanto, as mulheres carregam este fardo desde que nascem, passando pela fase dos lacinhos cor de rosa até à idade em que têm de «envelhecer graciosamente». Como dizia Arianna Huffington num texto sobre roupa de trabalho, a desigualdade começa quando uma mulher tem de passar mais horas por semana a preocupar‑se com coisas que não têm nada que ver com a sua produtividade: saias, calças, unhas, cabelo, maquilhagem.

A esta pressão, nem a versão chique e moderna do feminismo escapa. Pelo contrário, acentua‑o: ah e tal, para ser feminista não é preciso deixar de depilar‑se ou queimar sutiãs. E este é um dos últimos redutos da misoginia, até entre homens que não se acham machistas. Enquanto as mulheres forem avaliadas pela aparência, num juízo que precede qualquer outro, partirão sempre em desvantagem. E isto é válido para bonitas e para feias, giras e desinteressantes, inteligentes e burras.

E uma vez que esta crónica sai no final do ano que foi designado como o do feminismo em todo o mundo, proponho então refazer as notícias que saíram nesta semana: Luís Figo emocionado com inteligência da filha. Luís Figo orgulhoso da bravura da filha. Luís Figo feliz com a capacidade de trabalho da filha. Luís Figo de rastos com a rapidez da filha. Luís Figo não tem palavras para o raciocínio matemático da filha. Luís Figo espantado com o discurso da filha. Luís Figo contente com QI da filha. Luís Figo basófias com a imaginação da filha… Um dia, senhores, um dia…