OPINIÃO

Lógica da batata: a vida em puré

Tentar explicar o cosmos com um tubérculo não é a melhor opção. Mas é tentador. Na vida, deparamo-nos com muitas batatas com a ambição de ilustrar tudo. Algumas dessas batatas são apenas argumentos, outras são pessoas.

Ilustração de Afonso Cruz

As batatas foram trazidas do Novo Mundo e usadas, inicialmente, como plantas decorativas nos jardins da nobreza. Um dia, alguém percebeu que se poderiam comer os tubérculos. E isso mudou radicalmente a nossa alimentação.

Van Gogh pintou um quadro chamado Os Comedores de Batata. A ideia era representar o povo, o povo que não aparece em quadros, que não era objeto artístico, o povo com terra nas unhas. Já não era a arte por encomenda, retratos de nobres e burgueses, mas a arte que sobe – porque é um movimento de ascensão – quando desce até ao povo.

Quincas Borba, de Machado de Assis, com a famosa frase, ao vencedor, as batatas, fecha uma parábola cuja filosofia assegura que a vida é luta. Mas o povo representado por Van Gogh não é o vencedor. Aqui as batatas não são a consequência da vitória, mas a consequência da pobreza.

Enfim, como disse Douglas Adams na abertura do capítulo vinte e quatro de A Vida, o Universo e tudo Mais: «É um erro acreditar que é possível resolver qualquer problema importante usando apenas batatas.»

De facto, a vida explicada por uma pequena fórmula, sejam batatas ou uma equação matemática ou um verso ou um cachalote albino, ficará sempre muito aquém da sua dimensão. Ou melhor, das suas várias dimensões.

Colin Blakemore, em Os Mecanismos da Mente, diz que «Um coelho consegue ver um movimento tão lento como o do Sol a atravessar o céu. Alguns animais podem detetar o plano de polarização da luz e a direção de um campo magnético. Enganamo-nos se pensarmos que o mundo das nossas sensações é completo. É apenas aquilo que os nossos neurónios são capazes de dizer-nos». Seria pouco inteligente acreditar que tudo se resume a batatas, e que não há mais complexidade para além das nossas certezas, nem nada para além do nosso faneron, ou para lá do limiar da nossa compreensão a dado momento.

Tentar explicar o cosmos com um tubérculo não é a melhor opção. Mas é tentador. Na vida, deparamo-nos com muitas batatas com a ambição de ilustrar tudo. Algumas dessas batatas são apenas argumentos, outras são pessoas.

Curiosamente, e apesar de não ser possível sobreviver só de batatas, é possível fazê-lo com puré. Ao juntar às batatas esmagadas o leite ou as natas ou a manteiga adicionam-se as vitaminas que faltam a estes tubérculos, a A e a D.

Mas, ainda que exista essa possibilidade, seria uma pena e um terrível fastio viver só de puré.