OPINIÃO

Livros de ajuda para mães: porque nos fazem sentir tão mal?

Existe uma relação inversamente proporcional entre a saúde mental das mães e a quantidade de guias de maternidade que leram, garante um estudo do Reino Unido. Há quem os considere úteis, mas para a maioria é só uma resma de nervos.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Antes de ter finalmente o seu bebé nos braços, Laura Costa leu tudo o que apanhou a jeito sobre alimentação, sonos, birras, choros, etapas de desenvolvimento, amamentação. Era nova nestas andanças, insegura. Tantos livros de ajuda para mães só poderiam fazê-la cuidar melhor de Martim. Mas então porque se sentia miserável? Porque lhe parecia estar a enjeitar os seus instintos ao dar mais ouvidos aos especialistas do que ao próprio coração?

Existe uma relação inversamente proporcional entre a saúde mental das mães e a quantidade de guias de maternidade que leram.

A resposta é que existe, de facto, uma relação inversamente proporcional entre a saúde mental das mães e a quantidade de guias de maternidade que leram, revela um estudo liderado pela psicóloga e investigadora Amy Brown, perita em saúde materna e infantil na Universidade Swansea, Reino Unido.

Por surpreendente que possa parecer, quanto maior o número de livros de autoajuda parental consumidos – entre os quais se contam manuais sobre como dormir, comer e relacionar-se com os filhos em rotinas rígidas –, mais provável é as mães virem a apresentar sintomas de stress, depressão pós-parto, sentimentos de ineficácia e falta de confiança em si mesmas como cuidadoras.

«Talvez as mães que procuram estes livros sejam, por si só, mais exigentes e ansiosas», diz a psicóloga Teresa Andrade.

«Talvez as mães que procuram este género de livros sejam, por si só, mais exigentes e ansiosas», explica a psicóloga clínica Teresa Andrade, investigadora em pedagogia. «Talvez pelas suas características de personalidade, não descritas pela autora do estudo, já fossem mais propensas a deprimir diante das dificuldades e falta de ritmos iniciais que pressupõe ajustar a vida a um bebé.»

Certo é que quase todas as mães se aferram à ideia de que elas são aquelas pessoas incondicionais que não podem falhar, porque disso depende o futuro dos filhos. O facto de serem inundadas de conselhos e críticas de quem as rodeia não ajuda. «Existe o medo de não estarem a fazer o que os manuais dizem ser suposto. Medo de que os seus bebés não se estejam a desenvolver conforme o descrito», confirma Teresa Andrade, salientando que cada criança é única.

Os livros de ajuda para mães podem ajudar, mas não sabem tudo.

E assim sendo terão de ajustar as respostas a essa individualidade para não correrem o risco de lhes dar pouco colo, ou forçarem uma amamentação dolorosa, ou sentirem que são péssimas mães. «Os livros podem ajudar, mas não sabem tudo», diz a psicóloga clínica, que deixa uma série de conselhos práticos na nossa fotogaleria. Se por acaso um bebé come mal ou não dorme, os pais irão quase sempre encontrar soluções melhores porque o conhecem como ninguém. «Acima de tudo, devem escutar a sua inteligência emocional e afetiva.»

De sublinhar que as conclusões de Brown não estabelecem uma relação de causa e efeito entre a literatura de autoajuda para mães e as neuroses que as desesperam: em última análise (como sugere também Teresa Andrade), pode argumentar-se que foram as inseguranças maternais que primeiro as fizeram mergulhar nos livros, não o contrário. Ainda assim, a correlação de ambos os fatores está provada. E na dúvida é melhor não arriscar.

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