OPINIÃO

Lisboa pós-antiga

Andava eu pela Madragoa, talvez pelo belo nome, e reparei no cruzamento de povos, logo na Rua das Trinas: indígenas e forasteiros.

Em Nova Iorque acontece o mesmo e também se destrinçam por sinais contraditórios. No símbolo da América, uns passam apressados, vivem lá, e os outros olham para os arranha céus; nos becos lusitanos, uns cuidam do dia-a-dia, os outros procuram a tabuleta “Vende-se”.

Esta crónica vai dedicada aos aborígenes, da Madragoa e outros lugares lisboetas, sujeitos ao stress pós-traumático por, todos os dias, abrirem a caixa de correio e darem com tentações: “Tem casa para vender?” Desde a gripe espanhola, vai para um século, nunca Lisboa foi assolada por maior terror.

Embora, pensando melhor, talvez possa vir a ser também doloroso o dia em que ninguém quiser comprar-nos a casa… Adiante, vou falar sobre esse espécime em vias de extinção: o lisboeta dos bairros antigos. E como o tema é demasiado vasto, apesar do desaparecimento galopante do objeto em estudo, fico-me pela questão prática. Que fazer com eles?

Desde logo, tratar da psique dos vivos. Há que convencê-los de que o movimento que agora os convida a sair tem origem na marcha que ali os levou. A Rua das Trinas, por exemplo, ensina-nos. O nome vem-lhe do Convento das Trinas, de nome completo, das Trinas do Mocambo, e esta última palavra é indício. Mocambo é lugar, aldeia de negros.

E se deram esse nome antigo ao bairro, mais tarde Madragoa, que subia a colina, de Santos à Lapa, era pelo grande número de escravos que se misturaram com as varinas, pescadores e marinheiros. Bairro popular, como se vê pelo portão, nº 55 da Rua das Trinas, sede do Vendedores de Jornais Futebol Clube. E refere-se a ardinas, não a Balsemão. Amanhã, ex-bairro popular? Abandonei a rua principal para melhor medir a relação locais-aves de arribação.

Meti-me pela Travessa do Pé-de-Ferro, alcunha do Pedro Gonçalves, o carroceiro que ainda cá andava em 1580, e desci por uma calçada. Se encontrei betos de olhar erguido, povo, nem vê-lo. Tenho de memória uma gravura de Roque Gameiro, um pormenor da Calçada do Castelo Picão, com garotos descalços a comprar fruta a um vendedor de chapéu, bebés envoltos nos xailes das mães, homens à conversa e janelas abertas à espreita de vizinhas…

Agora, tirando os caçadores de imóveis, ninguém. Mas um cruzamento com a Rua do Machadinho salvou-me. Homens de camisola cavada e mulheres de chinela a gritar pelos filhos que jogavam à bola na rua. Conversas à pintas. Sobreviventes, como sérvios no Kosovo ou comerciantes brancos no centro de Joanesburgo.

Eis um microcosmo que tem de ser preservado. Gentrification!, exige a invasão de bárbaros com guita. Ok, atão paguem os direitos consuetudinários!, devem responder os pobres. Os ricos que paguem a crise da Lisboa típica. Estabeleça-se uma quota, por cada um que vende a casa, outro very typical lisboeta não precisa de a vender para receber uma mensalidade. Esta é tirada do bolo do negócio imobiliário e desobriga de trabalhar o pobre que fica na freguesia. Mas ele tem de andar pelo bairro a fazer de conta de que ainda há alfacinhas. Um imitar o passado e as tradições que não o impede de se adaptar à modernidade.

Por exemplo, o ardina pode apregoar: “Oiçam a última do Facebook do Bruno de Carvalho!” O aguadeiro pode vender shots. A varina passeia a canastra, mas não vende carapau, dá aulas de fitness para reforçar a coluna. E o moço de fretes, apesar da grossa corda enrolada ao ombro, ontem para subir móveis pelas escadas, só precisa de ficar encostado à parede a mostrar o seu belo físico. Se a coisa correr bem, acasala de vez em quando com a burguesa do condomínio vizinho e, em dois, três séculos, o nivelamento social volta a ser reposto.