OPINIÃO

Jorge Palma: «Não penso muito a longo prazo, penso no amanhã, amanhã mesmo»

Enquanto houver estrada para andar, ele vai continuar. Jorge Palma, 67 anos de vida e 45 de carreira que serão celebrados em grande, a 5 e 7 de outubro, nos coliseus de Lisboa e do Porto. Com orquestra, como ele gosta, dirigida pelo maestro Rui Massena.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografias de Orlando Almeida/Global Imagens

Começou a tocar piano aos 4 anos e aos 40 concluiu o curso superior desse instrumento no Conservatório de Lisboa, com média de 17. Pelo meio, partiu a loiça, fez­‑se bad boy, percorreu mundo, andou na estrada, tocou na rua, teve bandas, aprendeu com os melhores, escreveu e compôs canções que todos sabemos de cor, lançou dezenas de álbuns, em nome próprio ou em parceria, fez milhares de concertos e experimentou tudo o que havia para experimentar. Jorge Palma, 67 anos de vida e 45 de carreira que serão celebrados em grande, a 5 e 7 de outubro, nos coliseus de Lisboa e do Porto. Com orquestra, como ele gosta.

Vai comemorar 45 anos de carreira agora, a 5 e 7 de outubro, nos coliseus de Lisboa e do Porto…
Incrível, 45 anos, nem acredito. A estrada começou antes, muito antes.

É homem de fazer balanços? Olha para trás?
Não, não. Como diz o outro «don’t look back». Olho para a frente, olho para os lados. Mas, sim, às vezes olho para trás, claro. Faz bem recordar o percurso, as coisas que podia ter feito melhor, as que não saíram assim tão mal, mas sobretudo apuro os sentidos em relação ao que está a acontecer. Não penso muito a longo prazo, penso no amanhã, no amanhã mesmo, amanhã, segunda­‑feira, e nos próximos dias [a entrevista aconteceu no domingo, 17 de setembro].

Sempre foi assim ou é de agora, que está mais velho?
Não, sempre fui assim. O hedonismo sempre foi uma característica da minha forma de estar. Nunca me preocupei muito, nada mesmo, com o que vai acontecer. Há uma coisa importante, que é a saúde física e mental. Existindo isso, está tudo bem.

Como tem sido, para um hedonista, envelhecer?
Não penso nisso. Às vezes sinto­‑me com 90 anos, outras com 20.

Aos 67, o corpo já não aguenta o que aguentava aos 20 ou aos 30.
Se estou uns tempos sem fazer exercício físico, que é ir ao ginásio aqui ao lado, a resistência ressente­‑se. Fumo muito. O tabaco é o meu pior inimigo, neste momento. Amigo e inimigo.

Deixou de beber. Não consegue deixar de fumar?
É mais difícil. Mas é tudo é uma questão de mentalização e eu tenho um instinto de defesa bastante apurado. Estou a considerar mesmo a hipótese de deixar. Para já é incómodo, não se pode fumar em lado nenhum. Olhas para os anos 1950, por exemplo, e toda a gente a fumar, no cinema, no teatro. Não imaginas o Humphrey Bogart sem o cigarro. Mas os tempos são diferentes e é uma coisa que me prejudica de facto, sinto isso. A cantar, por acaso, acho que não, quando estou em palco não fumo. Cantar faz bem aos pulmões e a tudo, mas quando é preciso um esforço maior, sinto. Em férias, sinto mais. E os anos passam, não é? Mas eu não me posso queixar.

Então?
Vendo bem a minha idade real, a existência aqui, os anos têm sido bem animados, bem vividos. Tenho feito muitas maldades ao meu corpo e ele é uma boa máquina.

Comecei muito cedo, com 13 ou 14 anos, porque era de homem beber um copo e fumar. Deu­‑me imenso trabalho. Mas tinha de ser, para acompanhar os mais velhos. Queria fazer parte dos bad boys.

A sua relação com o álcool está em todas as entrevistas que li para preparar esta entrevista.
Sim, e, sabes, já estou um bocado farto de falar nisso.

Imagino que sim.
Foi há três anos e meio que recorri a ajuda a sério. Já tinha feito tentativas, mas não muito convencido. Rehabs fazem­‑se rapidamente, mas o importante é ter consciên­cia do que acontece cientificamente e do que é inevitável do ponto de vista da saúde e isso foi­‑me muito bem explicado. Acho que se deve falar disso. Neste ano fui convidado para fazer parte de um encontro organizado pelo Ministério da Saúde em que falei da minha experiência. É importante. Acho que posso servir de… [hesita]

Exemplo?
Sim, não gosto muito da palavra, mas acho que posso transmitir a minha experiência de uma maneira positiva para quem está em pontos a que eu cheguei e em que de facto tudo começa a ser um disparate: o pequeno­‑almoço ser duas dúzias de cervejas, uma coisa completamente descontrolada. Pronto, percebi a tempo e é importante transmitir isso.

Agora bebe coca­‑cola e café, que pôs em cima da mesa antes de começarmos a conversar. O que mudou?
Sei o que queres dizer. É possível, sobretudo quando uma pessoa não está num ponto de no return, quando ainda está mais ou menos virgem em relação a estimulantes como o álcool ou outras drogas, que [o consumo] abra janelas, mas rapidamente deixa de funcionar, porque se perde faculdades. Se estiveres num estado de embriaguez permanente deixa de ser interessante: a pessoa e o que transmite. Não vale a pena. Hoje, posso ser um bocado mais cerebral, menos louco, mas sinto­‑me melhor assim.

Houve um momento em que senti que havia pes­soas que já iam aos concertos para ver que broncas iam acontecer. Quando assumi uma atitude inteligente, de pôr um travão nisso, acabaram as bocas foleiras. Acho que as pessoas me respeitam.

O Zé Pedro dos Xutos & Pontapés dizia que o Palma era o músico mais perdoado deste país. O que havia para perdoar?
[Ri] Pois, sou da geração desses malucos todos, dos anos dos ácidos e das drogas – experimentei­‑as todas – e muito álcool, hábito que criei em Portugal, muito cedo, com 13 ou 14 anos, porque era de homem beber um copo e fumar. Deu­‑me imenso trabalho conseguir fumar e beber. Mas tinha de ser, para acompanhar os mais velhos. Para ser um bom macho latino.

A opinião dos outros é importante?
Importante para mim era fazer parte dos bad boys [ri], dos malandros. Tenho plena consciência de que houve concertos que foram um bocado para o caótico, desde brancas, esquecer­‑me de letras, a tudo e mais alguma coisa. Depois, houve um momento em que senti que aquilo estava a ficar um bocado apalhaçado, que havia pes­soas que já iam aos concertos para ver que broncas iam acontecer. Mas é engraçado que, quando assumi uma atitude inteligente, de pôr um travão nisso, acabaram logo as bocas foleiras. Acho que as pessoas me respeitam.

Começou a tocar piano aos 4 anos. Ser músico foi o que sempre quis?
A minha mãe foi muito importante nesse aspeto – e em muitos outros. Foi ela que me pôs a estudar música e levava­‑me a concertos e à ópera e havia música em casa, os mozarts, os chopins, até ao século XX. O gosto dela ia até aí. Não foi por ela que cheguei ao Schoenberg e ao Luciano Berio e esse pessoal todo, o Stockhausen. Isso são evoluções, coisas que a gente tem curiosidade, vai ouvindo, umas coisas gosta­‑se, outras não, mas tem­‑se a capacidade de analisar o que está ali e de aprender com isso e de experimentar, às vezes copiar ou tentar copiar, a ver como resulta.

Mas o seu percurso divergiu dessa formação clássica.
Há a fase, até aos 14 anos, que é a música clássica, a professora de piano, o conservatório, mas depois, para um miúdo de 13 ou 14 anos, que começa a ouvir Beatles e Rolling Stones, aquele ambiente começa a cheirar um bocadinho a mofo e fartei­‑me um bocado dos chopins, dos beethovens e dessa gente.

A minha mãe é que foi o meu pilar. Trabalhou muito para que não me faltasse nada. Deu­‑me o máximo de ferramentas que podia para eu crescer e viver o melhor possível.

Como foi crescer, menino bem, filho de pais separados, no Portugal conservador dos anos 1950.
Conservador é eufemismo. Era chato. Cinzento. O meu pai tinha o seu estilo de vida e foi muito importante em muitos aspetos, mas a minha mãe é que foi o meu pilar. Trabalhou muito para que não me faltasse nada. Deu­‑me o máximo de ferramentas que podia para eu crescer e viver o melhor possível.

Como é que ela viu o seu percurso?
Foi sempre fã, apesar de estar sempre a criticar a roupa e o cabelo e o estilo de música.

Como era em criança?
Filho único, um bocado solitário. Fui para a pré­‑primária logo aos 4 anos, onde tive rudimentos de francês e de música. Foi só no liceu que comecei a partir a loiça toda. Até aí fui bom aluno e bem-comportado.

E o seu pai?
O meu pai era a festa, quando vinha buscar-me e íamos passear ou de férias. Sempre a cantar, cantava bem, foi com ele que aprendi os tangos e os boleros.

Aos 17 anos, vai para o Algarve, tocar em bares, com uma banda, até o seu pai o ir buscar e trazer de volta aos estudos. Ainda frequentou Engenharia. Decidiu quando que queria mesmo ser músico?
Não decidi, comuniquei aos meus pais que esquecessem a Engenharia. Era um dado adquirido, mesmo que tivesse feito o curso.

Quando fui para a estrada, para tocar nos metros e não sei quê, encontrei gente de todo o mundo. Fiz parte de uma banda de bluegrass e percorremos a Europa Ocidental a tocar em bares, na rua, em esplanadas, nos metros. Foi uma grande escola.

E partiu para a estrada.
Isso foi depois. Tive bandas, fiz parte de bandas e procurei sempre os mais velhos e os melhores, para aprender com eles. Na guitarra sou autodidata, tenho aprendido com os amigos. Estou a lembrar­‑me do Rui Cardoso, do Rão Kyao. O pessoal que vem do Hot, bebi muito do Hot Club e encontrei malta para tocar e gravar comigo muito boa no Hot.

Foi com eles que teve a banda Sindicato [Rão Kyao, Vítor Mamede, Edmundo Falé, Júlio Gomes, João Maló, Rui Cardoso e Ricardo Levi].
O Sindicato começa como um quinteto de heavy metal, hard rock, tocávamos Led Zep­pelin. Depois, começámos a ouvir outras cenas e a certa altura o baterista, o Vítor Mamede, achou que aquilo ficava giro com um naipe de sopros, para fazermos um repertório diferente, e é aí que entram o Rui Cardoso e o Rão, que vinham do Hot, e um trompetista e um trombonista, um da banda da marinha e outro da banda da aviação, que tinham menos swing, mas fizeram um bom trabalho.

E quando foi para a estrada?
Quando fui para a estrada, para tocar nos metros e não sei quê, encontrei gente de todo o mundo e houve um intercâmbio muito importante e enriquecedor, gente de África, da Ásia, da América do Sul. O bluegrass, por exemplo, fiz parte de uma banda de bluegrass e percorremos a Europa Ocidental a tocar em bares, na rua, em esplanadas, nos metros. Foi uma grande escola.

Paris era a minha casa. Acordava teso e sabia que daí a uma hora já tinha dinheiro para pagar o hotel, para comer ostras, se quisesse, jantar num bom restaurante, ir ver concertos. Numa viagem de meia­‑hora, três ou quatro carruagens, fazia 150, 200 francos.

O que é que a rua lhe deu na relação com o público?
Deu­‑me uma ganda lata. Deu­‑me o à-vontade para chegar a uma esplanada e começar a cantar Cohen – isso tinha de ser uma esplanada em Portofino [Itália] – ou Eagles, Jackson Browne, Stones, sei lá, Dylan, muito Dylan, Paul Simon, James Taylor. Por exemplo, uma coisa que eu fazia em Paris era não ficar nos corredores à espera. Apanhei uma altura muito boa, havia um espírito mais aberto. Hoje, as pessoas estão mais fechadas, há mais medo, as dificuldades económicas, o planeta, que, embora existam uns idiotas que não querem reconhecer, está mesmo em perigo. Ainda há tempo de reverter, mas não sei, a mim já não vai afetar muito, mas aos meus filhos e aos meus netos… acho que é de uma inconsciência e de uma irresponsabilidade não se tomar medidas em relação a isso, mas de qualquer maneira… agora perdi­‑me.

Estava a falar dos tempos em que andou a tocar no metro de Paris.
Ah, exato. Comecei, à semelhança de outros colegas, a fazer as carruagens. O metro tinha quatro ou cinco carruagens. Também fiz os trams em Zurique ou Genebra, mas Paris era a minha casa, onde eu sabia que acordava teso e daí a uma hora já tinha dinheiro para pagar o hotel e o pequeno-almoço, para comer ostras, se quisesse, jantar num bom restaurante, ir ver concertos – vi concertos muito bons em Paris, desde Frank Zappa a Wheather Report até Rod Stewart e Bruce Springsteen (esse foi em Zurique), e arranjava­‑se dinheiro para isso, era uma questão de cantar duas ou três canções numa carruagem, passar o chapéu e saltar para a carruagem seguinte. Na linha que apanha o Quartier Latin, com mais turistas e pessoal com dinheiro, numa viagem de meia­‑hora, três ou quatro carruagens, fazia 150, 200 francos.

Isso foi no início dos anos 1970?
Não, nessa altura ainda não tinha coragem para isso. Em 1973, fui para a Dinamarca, por causa da guerra. Fui para Copenhaga e deram­‑me asilo político.

«[Escapar à tropa] Foi uma atitude individualista. Levar com os sargentos, levar com a disciplina e com as fardas, não era para mim. Noutro tipo de circunstâncias teria pegado em armas e lutado. Estou a pensar na Guerra Civil de Espanha.

A decisão de não ir à tropa foi uma atitude política ou pessoal?
Foi uma atitude individualista. Gosto muito de filmes de guerra, sobretudo da Segunda Guerra Mundial, mas levar com os sargentos, levar com a disciplina, levar com aquelas fardas, não era para mim.

Nunca se imaginou a receber ordens?
Não, não. Mas noutro tipo de circunstâncias teria pegado em armas e lutado. Estou a pensar na Guerra Civil de Espanha, por exemplo.

Antes do 25 de Abril, tinha consciência política?
Do ambiente familiar, não. Mas do meu contacto, sobretudo no Liceu Camões, com alguns colegas meus, alguns africanos, sim. Estou a lembrar­‑me de um que me chamou a atenção para a injustiça da guerra colonial e que muitos anos mais tarde encontrei e era embaixador de Angola não sei onde. Todo bem vestido [ri]. Fomos colegas quando tínhamos 14 anos. Mas foi sobretudo, ainda antes do 25 de Abril, a minha convivência com um núcleo de pes­soas, entre as quais estava o José Carlos Ary dos Santos, que me despertou a consciência política.

Nunca fui um cantor panfletário, não. Porque não gostava. Tinha aprendido com o Ary a transmitir o sentido nas entrelinhas, apesar de os gajos da censura serem burros.

A Natália Correia, o Sttau Monteiro, o Zeca Afonso. Que memória tem deles?
Anos de grande folia, de grande excitação. Aprendi imenso. Na escrita de canções, o Ary foi crucial.

Ele tinha paciência para ensinar?
Ele não ensinava. Eu via­‑o trabalhar. Via como é que ele manipulava as palavras. Eu era o puto. Na altura, ele denominava­‑se artesão de palavras. Era brilhante, genial. As pessoas mostravam­‑lhe a melodia, ele ouvia, tinha excelente ouvido – para cantar não, era péssimo –, apanhava logo a métrica, a prosódia, escrevia qualquer coisa sem sentido, mas que soava bem, e ao fim de um bocado já tínhamos ali um poema. Comecei a perceber que era possível escrever música em português e comecei a tentar, imitando. Houve um EP – A Última Canção (1973), com duas letras do Ary e duas minhas, o Aryzinho.

Mas o Aryzinho fez um caminho próprio, não foi?
Entretanto, oiço os primeiros discos do Sérgio Godinho e do José Mário Branco e achei que tinha muito mais a ver com o que queria fazer. Aprendi muito com eles, ainda antes de os conhecer, só de ouvir e analisar os processos que cada um utilizava. Estou a falar de 1972, antes de ir para a Dinamarca. Depois de voltar – voltou toda a gente ou quase toda a gente –, encontrámo­‑nos, conhecemo­‑nos e criaram­‑se amizades que perduram. Mais tarde trabalhei com os dois. Portanto, sempre a absorver de toda a gente. Tem sido assim.

O primeiro álbum – Viagem na Palma da Mão – nasceu na Dinamarca.
Sim, mas os 45 anos de carreira contam a partir do primeiro single, em inglês, The Nine Billion Names of God, de 1972. Na altura, era mais fácil para mim escrever em inglês. No fim do verão bazo para a Dinamarca, com um projeto de primeiro LP em português, com muitas letras do Ary e muitas influências do rock sinfónico, muito rico em termos musicais, canções muito longas. Na mesma canção passava por andamentos diferentes, pequenas sinfonias ou sonatas em canção. Portanto, vou para a Dinamarca com um LP meio alinhavado.

Que só veria a luz do dia já em Portugal, em 1975.
Sim, mas quando estava na Dinamarca não sabia que ia acontecer o 25 de Abril e sonhava com um percurso musical, discográfico, lá ou em Inglaterra, e por isso comecei a escrever as canções em inglês. Na casa onde fui acolhido, de um encenador que tinha cá estado a trabalhar e me disse que tinha lá uma casa à disposição (e tive), havia um piano parecido com este [aponta para o seu piano de cauda], em que construí musicalmente o que viria a ser esse álbum.

Estava na Dinamarca quando aconteceu o 25 de Abril, mas não voltou logo.
Não, e quando saí tentei ir para Inglaterra. Mas percebi que ia ser difícil entrar, passaporte português, teso… Só me deixaram entrar em Londres porque o último argumento que usei, e que era verdade, foi que era primo do Adelino da Palma Carlos [primeiro ministro do I Governo Provisório], primo direito do meu pai. Mas eles continuavam a perguntar: «Como é que a gente sabe que vai ficar só 15 dias?»

E ainda havia a história das frigideiras que trazia na bagagem…
Pois. Não era credível, mas lá me deixaram ficar uns dias, até que percebi que não dava. Estava desejoso de vir cá ver a festa, pá.

Cheguei cá para aí no fim de agosto. Até tive a GNR a oferecer­‑me gasolina. Pensei: eh pá, isto mudooou. Até 1976, foi um delírio, foi uma grande festa, entre os cantos livres e a Voz do Operário.

Houve quem tivesse vindo no dia a seguir à revolução. Porque demorou tanto?
Gastei um dinheirão em telefone ao governo dinamarquês, porque estava sempre a ligar para saber como estavam as coisas por cá. Ia tendo notícias. Não voltei logo. Ainda dei umas voltas por Inglaterra, França, Sul de Espanha. Um amigo meu, o João Maló, que também é músico, desafiou­‑me a ir tocar em Marbella, era verão e havia trabalho e eu fui ter com ele. Cheguei cá para aí no fim de agosto.

Era um país pequeno de mais para um dylan­‑rollingstone­‑paulsimon­‑beatle em potência?
[Ri] Não, tinha mudado tudo. Até tive a GNR a oferecer­‑me gasolina. Pensei: eh pá, isto mudooou. Até 1976, foi um delírio, foi uma grande festa, entre os cantos livres e a Voz do Operário.

É de esquerda, mas nunca foi um cantor de intervenção, nem nessa altura.
Não, panfletário não. Porque não gostava. Tinha aprendido com o Ary a transmitir o sentido nas entrelinhas, apesar de os gajos da censura serem burros. Passou muita coisa que eles não detetavam. Preferia uma maneira menos óbvia, mais elegante, de transmitir o que queríamos: a liberdade, a paz, a justiça, a igualdade, a fraternidade, que raramente são praticados, pelo menos de uma forma duradoura.

Os anos 1980 foram os mais produtivos em termos de escrita sua, de criação de originais. Qual era o combustível?
Curiosamente. Se considerarmos o álbum duplo, em 1982, o Acto Contínuo, até ao Bairro do Amor, em 1989, são seis discos. E alguns concertos. Mas tive de fazer traduções técnicas para ganhar dinheiro. E a partir de 1984 foi quando comecei a levar a sério os estudos de música no conservatório. É engraçado. Em compensação, nos anos 1990 não gravei um único original. Escrevi para outras pessoas, trabalhei em peças de teatro, fiz muita coisa.

A minha maneira de trabalhar é bastante anárquica. Por exemplo, em janeiro deste ano gravei cinco canções – acho que vão constar as cinco do próximo álbum –, mas depois interrompi porque, de vez em quando, preciso de fazer uma viagem.

A meio desse percurso, quis tirar o curso de Sociologia. O que é que lhe deu?
Isso foi depois daqueles anos de viagens e de encontros e de leituras e de reunião de conhecimentos. Senti que era necessário algum método, uma espinha dorsal à volta da qual eu organizasse o pensamento e os conhecimentos entretanto adquiridos. Pensei em Sociologia, ainda fiz umas cadeiras que me faltavam para entrar, mas depois caí em mim e percebi que tinha era de retomar os estudos musicais no conservatório. E isso forneceu­‑me a tal espinha dorsal. Deu­‑me muito prazer. Acabei o curso aos 40 anos.

E com boas notas.
Sim, tive média de 17, a nota que tive a piano. Foi bom para o que eu estudei. Dezanoves é mais para o Mário Laginha. A propósito, tenho aí três partituras do Mário que lhe pedi para estudar. Mas apanhei professores muito bons. Desde a Olga Pratts ao Miguel Henriques, que me encostou à parede e disse: «Meu menino, ou fazes este ano ou vais à vida que eu não tenho tempo a perder.» E eu lá estudei as cinco horas por dia, oito não, que não é para mim, deixo de render, mas estudei bastante. Até houve cadeiras a que tive 19.

Os anos 1980 foram o auge?
Não sei. O Acto Contínuo, que é o duplo, eram canções que já tinha escrito na estrada e depois apanhei um certo ritmo de trabalho, que é uma coisa que em mim não é regular. A minha maneira de trabalhar é bastante anárquica. Por exemplo, em janeiro deste ano gravei cinco canções – estão gravadas em esquema de pré­‑produção e acho que vão constar as cinco do próximo álbum, com as modificações que eu entretanto tenciono fazer –, mas depois interrompi porque, de vez em quando, preciso de fazer uma viagem, para comunicar com outras culturas, um mês, um mês e meio.

Viaja todos os anos?
Sim, e ultimamente mais porque me tem passado mais dinheiro pelas mãos.

Repete lugares ou vai pondo pioneses nos sítios que já conhece?
Apetece­‑me repetir alguns lugares como o México e a Argentina. No fundo, apetece­‑me repetir todos. Do Camboja gostei imenso. Neste ano foi Brasil. Desfilei eu e a Rita [Rita Tomé, atriz e mulher de Jorge Palma] pela Mangueira, no sambódromo, custou­‑me muito mais do que 50 concertos seguidos, com aquelas fatiotas e aquele calor. Mas depois foi um mês de Bahia. Fez­‑me bem.

E depois consegue apanhar o fio à meada?
Interrompi o trabalho com a viagem, mas lá fui gravando impressões para o dictafone e tenho aí papéis com apontamentos, ideias que vão surgindo para depois desenvolver. O que acontece é que, desde que voltei, comecei logo concertos e desde então não tenho parado. Não tem dado para estar aqui num processo de parir.

Quando tenho 30 anos e estou ali a cantar Like a Rolling Stone e a olhar as pessoas nos olhos como quem diz «quero comer» é uma dinâmica diferente do gajo que já veste Armani e tem uma boa guitarra [ri].

Ganha mais agora do que nos anos 1980, quando produziu mais originais?
Não há comparação, porque tudo isto mudou, eu fui acumulando canções, repertório, coisas que entraram no imaginário das pessoas, e vejo uma recetividade muito grande da parte do público. Acho que o público gosta de mim.

Muito tempo depois, voltou a tocar nas ruas de Paris. Foi a mesma coisa?
Paris, Berlim… Não, não foi. Devo ter perdido o viço. Não. As pessoas sentem. Quando eu tenho 30 anos e estou ali a cantar Like a Rolling Stone e a olhar as pessoas nos olhos como quem diz «eu quero comer» é uma dinâmica diferente do gajo que já veste Armani e tem uma boa guitarra [ri].

E fazer isso cá, não seria uma boa maneira de celebrar os 45 anos de carreira?
Já fiz cá, mas pago. Não, as pessoas encarariam como um golpe publicitário. Toda a gente me conhece e sabe que não preciso de ir tocar para a rua. Neste momento. O futuro não se sabe.

Podemos contar com um disco novo para breve? É com o que tem andado a escrever?
Sim e que vou retomar. Vou entrar agora em modo de compor outra vez.

Arrepende­‑se de quê?
[Ri] Não sou de me arrepender. Non, je ne regrette rien. Claro que há coisas que podia ter feito melhor, outras que podia ter evitado, mas foi como foi. Aprender com os erros, sim, e não repetir. Há uma certa maturidade e responsabilidade que se vai ganhando.

Os meus filhos são pessoas muito bem formadas. Isso deve­‑se bastante à mãe. Tenho muito orgulho neles. O mais velho, o Vicente, faz parte da banda. O mais novo, o Francisco, também tem jeito para a música. Acho que toca melhor guitarra do que eu.

Os seus filhos olham para si como pai ou como amigalhaço?
Acho que as duas coisas, pai e companheiro. O mais velho, o Vicente, faz parte da banda. Pu­‑lo a tocar aos 18 anos e estou em vias de fazer o mesmo com o mais novo, o Francisco. Estão bons. Acompanhei muito mais o Vicente, porque o Francisco tinha 5 anos quando me divorciei da mãe deles. Mas há uma grande camaradagem entre nós. Não há cá aquela cena do respeitinho é muito bonito. São pessoas muito bem formadas. Isso deve­‑se bastante à mãe. Tenho muito orgulho neles. O mais novo também tem jeito para a música. Acho que toca melhor guitarra do que eu.

As mulheres foram importantes na sua vida? Puseram­‑no na linha?
Isso também não, mas cuidado com elas [ri]. Lidar com as mulheres é uma coisa que nunca se aprende (isto é generalizar de uma maneira um bocado bimba, porque cada mulher, e a relação que se tem com ela, é diferente). Agora a sério, houve uma grande evolução dentro de mim nessa matéria. Nasci num país machista e foram­‑me impingidos valores que não interessam ao menino jesus. Foi importante ter vivido na Dinamarca. Fui descobrindo e emendando e deitando fora muito lixo que tinha adquirido.

É fácil viver consigo?
Acho que não, tenho os meus caprichos, sempre fui muito individualista, mas no amor há uma troca, tem de haver cedências. Vai­‑se lidando com isso.

O meu maior medo é isto aqui [aponta para a cabeça] deixar de funcionar bem. Mas se isso acontecer, c’est la vie. Medo de morrer não tenho.

Tem medo de alguma coisa?
Tenho os meus medos. Acho que o meu maior medo é isto aqui [aponta para a cabeça] deixar de funcionar bem. Mas se isso acontecer, c’est la vie. Medo de morrer não tenho. Sofrer já é outra coisa.

Nestes 45 anos de carreira, alguma vez receou perder a mão?
Ah, esses medinhos acontecem de vez em quando, sim, mas com o passar do tempo uma pessoa aprende a domesticá­‑los. Para já, não tenho obrigação de escrever. Não quero fazê­-lo por obrigação, quero fazê­‑lo por gozo, por descoberta, perceber as deambulações do cérebro e dos sentimentos, misturar isso é engraçado. Há momentos em que se pensa: se calhar já não consigo fazer nada de jeito, já falei de tudo e os outros já falaram de tudo, melhor do que eu… há um certo espírito crítico que convém manter.

É perfecionista?
Depende da definição. Eu gosto de fazer o melhor que consigo. Agora, se tenho o cuidado de me preparar para determinadas situações com toda a precisão? Não, sou mais de improviso, gosto sempre de um espaço de incógnita.

[Os concertos nos coliseus de Lisboa e Porto] Serão grandes festas com orquestra. Não é todos os dias que tenho isso. Já estive no Porto a trabalhar com o Rui Massena e foi ótimo. Trinta e não sei quantos músicos vai ser muito bom.

E a pontualidade é um problema?
Não é um problema, é um hábito fazer mal as contas. As pessoas que me conhecem e trabalham comigo já dão um certo desconto [Olha para o André Sebastião, que trabalha com ele]. Nunca chegámos a um concerto atrasados, pois não? Nós não, estou a falar dos últimos quatro anos. Eu já cheguei. No fundo, está tudo controlado e o que mais interessa é que, quando é para fazer, é para fazer em condições.

Claro que não vai chegar atrasado aos concertos nos coliseus. O que podemos esperar destes dois espetáculos?
No fundo, serão grandes festas com orquestra. Não é todos os dias que tenho isso. É uma situação que vou aproveitar ao máximo. Já estive no Porto a trabalhar com o Rui Massena, que conheço há uns anitos e com quem já trabalhei e foi ótimo. Ao longo dos tempos, temo­‑nos encontrado e há cumplicidade e coordenação dos nossos gostos musicais. Tenho ouvido o que ele tem escrito para estes espetáculos, limámos arestas, trabalhámos e amanhã [18 de setembro] temos o primeiro de quatro ensaios com a orquestra real e eu estou desejoso de ouvir (ouvir em computador não é a mesma coisa do que ouvir ao vivo). Trinta e não sei quantos músicos vai ser muito bom.

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