OPINIÃO

João Magueijo: «Portugal é um país maníaco-depressivo»

Físico, cientista, escritor, professor no Imperial College em Londres, gosta de fado e de música pimba, não acredita em Deus, não tem qualquer fé nas elites portuguesas. E regressa agora com o novo livro, escrito em emigrês.

Entrevista de Sara Dias Oliveira

Depois de Bifes Mal Passados (2014) ter chamado a atenção para o nosso complexo de inferioridade em relação aos países do norte da Europa, João Magueijo regressa ao tema da emigração portuguesa com Olifaque, que fala da vida da comunidade portuguesa em Toronto, no Canadá. Acredita que ninguém emigra por prazer e chateia-o a falta de consideração das elites nacionais em relação a todos os que um dia deixaram a aldeia e partiram para outro país. Continua provocador, a dizer o que pensa sem paninhos quentes, e, nesta entrevista, afirma que esta onda de turismo em Portugal país é uma forma de prostituição. Professor no Imperial College em Londres, continua às voltas da teoria variável da luz, e não pensa voltar para trabalhar em ciência. «Portugal é um país completamente maníaco-depressivo.» E explica porquê.

Encontra o primeiro-ministro português num bar em Londres. O que lhe diria?
Teria várias coisas a dizer em relação à nossa emigração, que acho que é verdade que as pessoas nunca emigram por prazer, e há um bocado essa impressão que as pessoas são vendíveis, que são dispensáveis. «Quando há uma crise vão lá para fora e façam-se à vida» – há um bocado essa atitude. Acho que isso é terrível.
Não foi especificamente este primeiro-ministro que teve esta atitude, mas foi o anterior que teve a atitude de solução da crise – uma crise, ainda por cima, criada pelos desmandos especulativos da banca – do «façam-se à vida, emigrem». Ninguém emigra por prazer. É importante estar consciente da nossa diáspora e as pessoas não estão suficientemente conscientes disso. Há pessoas que foram atiradas para fora do país de uma maneira muito gratuita do ponto de vista das elites que realmente tomaram as decisões que levaram a isso.

Tem referido, aliás, que há um problema em Portugal em relação aos cinco milhões de emigrantes da diáspora. É um problema que tem solução?
A Austrália tem um problema de diáspora maior e as pessoas não têm tanta falta de consideração. O facto de termos mandado para fora o pior de Portugal financeiramente é um problema de Portugal, não é um problema das pessoas que foram para fora. É terrível ter havido uma situação que, durante anos e anos, foi sendo resolvida despejando estas pessoas. Se é um problema resolvível ou não, não sei. Ignorá-lo não é uma solução. Ignorá-lo não é uma atitude correta.

O que é que o chateia nessa falta de reconhecimento em relação à comunidade portuguesa que um dia fez as malas, deixou a aldeia e partiu para outro país?
A arrogância das elites que cá estão em Portugal. Uma arrogância total em relação a estas pessoas que, no fundo, são tão portuguesas como nós. É muito mau embirrarem com o bilinguismo, com a linguagem, com os gostos, com tudo isso, tendo criado uma situação que ignoraram completamente quando estavam em Portugal e quando saíram de Portugal. E isso é uma coisa que me irrita profundamente. Uma coisa que me escandaliza um bocado é não haver interesse pelo menos académico. É mais importante ter interesse prático. No fundo, a emigração é uma forma de colonialismo. Da mesma maneira que os ingleses colonizaram a Índia, mas pelo menos tiveram o cuidado de estudar as línguas todas locais. Nós estamos a explorar estas pessoas porque isto é uma forma de colonialismo direto, vamos explorar os emigrantes porque obviamente o dinheiro volta para Portugal, e por aí fora, pelo menos podíamos estudar as línguas deles, investir no interesse académico. Já para não dizer o resto, devia ser muito mais. O que aconteceu com a emigração portuguesa é escandaloso, mas também demonstra uma certa falta de ambição intelectual. E aí misturam-se duas coisas muito feias. Uma é basicamente tratar mal as pessoas, outra é não ter ambição intelectual.

«A emigração é uma forma de colonialismo. Vamos explorar os emigrantes porque obviamente o dinheiro volta para Portugal.»

É um otimista ingénuo que gosta de abanar consciências nos livros que escreve?
Otimista ingénuo? Sou otimista, se sou ou não ingénuo, não sei. Obviamente que quem tenta abanar as coisas é porque pensa que pode mudar alguma coisa. Não tenho sentimentos épicos de mudar o mundo, mas pode-se contribuir com alguma coisa.
Nunca hei de voltar para Portugal para fazer ciência, porque é o tipo de coisa que sei que é uma batalha perdida. Não sou otimista nesse sentido, não sou tão ingénuo nesse sentido. Sei que se voltasse para Portugal era simplesmente absorvido pelo sistema e não dava coisa nenhuma. A ingenuidade não chega a este ponto. Agora acho que é importante achincalhar um bocado o sistema porque, às vezes, as coisas, de facto, mudam. Não sei se tenho tanta esperança como isso, mas pelo menos, é melhor do que não fazer nada.

As personagens do seu novo livro, Olifaque, são racistas, sexistas, xenófobas. São os ingredientes certos para falar do que pretende?
É um livro o mais realista possível. Haverá uma solução para os problemas de um certo tipo de pessoas, em Portugal, ignorar que elas têm certas atitudes? Isso não é solução nenhuma. Expor a situação tal como ela é, é expor a realidade. Há ali problemas de violência doméstica e isto não é novidade nenhuma. Não é por acaso que nas escandaleiras de tirar crianças, por razões sociais, às famílias, os portugueses aparecem logo à baila. Isto não é novidade. Aconteceu em Inglaterra, aconteceu em vários lugares. Isto é obviamente estar a lavar roupa suja publicamente, mas isso não é ser racista, não é ser xenófobo, não é ser sexista. Isso é basicamente ver as coisas como elas são. Temos ali um problema grave e a gravidade, no fundo, é um sintoma. O que é grave, para começar, são as razões pelas quais as pessoas emigraram.

E usa estereótipos no livro para falar de coisas sérias?
Não lhe chamaria estereótipos, acho que são arquétipos. As pessoas que ali aparecem são, de certa forma, escolhidas, pessoas que conheci, são, no fundo, um concentrado, digamos assim, de pessoas que realmente existem. Dizem que já há portugueses que estão a subir na hierarquia no Canadá. Sim, mas é uma minoria. A verdade é que há muita gente que é analfabeta. Isto é um estereótipo? Não, é a verdade. E é fácil indagar as razões disto. Lembro-me que quando saí de Portugal, tinha havido um escândalo enorme porque a BBC tinha feito um documentário sobre trabalho infantil no Minho. Isto é um estereótipo? Não, isto é uma coisa horrível que Portugal fez a muita gente. Não é um estereótipo. Infelizmente, até é um mito porque ninguém quer tomar a responsabilidade. E quando a BBC fez isso foi uma grande escandaleira no sentido que as pessoas acham que esconder a realidade é uma solução. E é, nesse sentido, que acho que é bom abordar as coisas com personagens típicas, personagens com percursos que não são exatamente aqueles mas são todos variantes daqueles. Isso é importante saber.

«Portugal é um país completamente maníaco-depressivo: quando estamos deprimidos é o fim do mundo, quando as coisas correm bem, está tudo bem».

A imagem dos emigrantes portugueses parolos, que são uns coitadinhos, já passou ou ainda está muito presente?
Acho que isso é um juízo de valor. Parolos porquê? Aquela é uma forma de cultura como qualquer outra. No fundo, isso é um juízo de valor feito das pessoas que ficaram no retângulo. Eu também podia dizer que as pessoas que ficaram no retângulo são cobardes, nunca foram capazes de sair daqui, e de se atirarem ao mundo. Tem coisas boas e tem coisas más. São parolos em Portugal? Eles também podem dizer que aqueles gajos não têm tomates nenhuns para coisa nenhuma, nunca foram capazes de sair do país, têm medo, e ficam a chorar na sua terrinha, a dizer mal do país, e não fazem pela vida. Sei lá se isso é uma imagem correta. Acho que há uma minoria de pessoas que não corresponde a isso, mas continua a ser a maioria. Acho que a última crise dentro Europa fez muito para mudar a demografia. De repente, começamos a exportar enfermeiros e médicos. A última vez que fui ao hospital, em Londres, a maior parte dos enfermeiros eram portugueses. Mas isso é dentro da Europa, em que as pessoas podem emigrar legalmente – e, por enquanto, isso ainda inclui Inglaterra. No Canadá, não, a emigração é ilegal tipicamente, a pessoa vai para lá ilegalmente, depende da situação. Com a crise financeira mais recente realmente mudou a demografia da emigração dentro da Europa, mas não fora da Europa.

Portugal está melhor? Tivemos a Web Summit,o turismo em níveis nunca vistos, personalidades famosas que procuram o nosso país para viver, a economia a crescer. Temos razões para estarmos satisfeitos?
Portugal é um país completamente maníaco-depressivo: quando estamos deprimidos é o fim do mundo, quando as coisas correm bem, está tudo bem, é a fase maníaca, digamos assim. Estamos um bocado a passar por essa fase sem perceber que isso são coisas muito temporárias, nomeadamente o turismo. O turismo é uma coisa horrorosa, isto que está a acontecer em Portugal. Não está necessariamente a beneficiar toda a gente, é uma coisa ilusória para passar de um dia para o outro. De repente, Portugal ficou na moda e o turismo são rebanhos, o que tem acontecido são «rebanhismos». E é uma coisa que pode passar de um dia para o outro e, no fundo, é uma forma de prostituição económica, é como chamaria a isso, é mesmo estar a vender o país, a coisa mais física e que exige menos trabalho. Acho um disparate total sentarmo-nos em cima disso porque obviamente depois vai haver uma crise, e depois passamos à fase depressiva. Somos totalmente bipolares neste sentido.
Portugal está melhor, mas está melhor por razões circunstanciais e que podem mudar muito rapidamente. Há problemas graves em termos de investigação, de desenvolvimento, de tecnologia, de agricultura, que não estão a ser resolvidos. É capaz de estar um bocado melhor, há uma certa onda de esperança que pode ser positiva. Mas fico um bocado cético em relação a isso, espero estar errado, mas acho que é uma coisa um bocado temporária.

«O problema, como tudo, é que o Brexit está a ser completamente controlado por políticos para promover carreiras. Nota-se claramente. Não há ali uma razão pragmática ou ideológica para fazer isto ou aquilo».

Vive e trabalha em Londres, o Brexit já tem data marcada: 29 de março de 2019. Está preocupado?
Eu não estou preocupado, quem está preocupado são os hospitais, as universidades, muita gente que emprega esses três milhões de europeus que vivem em Inglaterra e que não sabem como se vão virar se, de repente, esta gente sair de lá. No fundo, um dos mitos do Brexit é que são estrangeiros que vêm cá roubar o nosso trabalho, são trabalhos que eles não vão fazer. Basicamente vai haver um problema enorme. O Imperial College está completamente em pânico a tentar resolver os nossos problemas de legalidade, de ficarmos no país depois do Brexit. Para eles, é uma tragédia. Eu não estou preocupado, eles estão preocupados e têm razão para isso.

Acredita que poderá haver recuo no Brexit?
Espero bem que sim, é possível que aconteça. Isto está a tornar-se uma coisa tão complicada e com implicações tão graves que é possível que o Brexit não aconteça. No fundo, isto foi um erro estatístico, uma flutuação estatística, que também teve a ver com a demografia. O problema, como tudo, é que o Brexit está a ser completamente controlado por políticos para promover carreiras. Nota-se claramente. Não há ali uma razão pragmática ou ideológica para fazer isto ou aquilo. Estão a tentar promover uma carreira com uma situação que vai ser perigosa para o país. Não estou a ver alguém a ter coragem e ser capaz de saltar à frente e dizer que é melhor reverter a situação. É possível, espero que seja.

Como cientista, qual seria a grande invenção que, neste momento, acalmaria a humanidade?
Há muitas. Obviamente temos um problema climático gravíssimo. Se conseguirmos arranjar uma maneira de inverter esta situação, isso era uma grande invenção. Não gostamos do que se passa com o aquecimento global mas, ao mesmo tempo, temos um tipo e nível de vida que vão nessa direção. Portanto, consigo perceber o Trump quando diz que não há aquecimento global, não convém. A verdade é que é um bocado difícil ser consistente ao dizer que é preciso corrigir e, ao mesmo tempo, cuidar da economia. Consigo perceber o ponto de vista dele. Seria ótimo, por exemplo, conseguirmos fixar o dióxido de carbono. A coisa ideal seria arranjar uma forma de energia limpa, renovável, e que funcionasse para sempre. É o grande sonho da fusão nuclear controlada. Há basicamente três áreas muito importantes: uma tem a ver com as modificações genéticas, outra com energias, e outra com alterações climáticas. Qualquer invenção nessas três áreas seria uma coisa que mudava dramaticamente o nosso futuro imediato, dos próximos anos.

E uma fórmula para resolver as finanças públicas?
Isso é que eu não sei. Não me pergunte que não sei nada disso.

É cientista, físico, escritor, gosta de fado e de música pimba, não acredita em Deus, não tem qualquer fé nas elites do nosso país. Seria uma possível descrição sua?
Sim, acho muito bem, muito obrigado pela descrição. Acho que foi muito sucinta.

Não vai voltar a Portugal para trabalhar, como disse. Mas do que sente mais saudades?
Dos pratos de bacalhau, é a coisa mais óbvia, é aquela parolice total da pessoa que sente o que é a comida portuguesa. Parece um bocado estranho estar a dar tanta importância à comida, mas não é. É preciso estar lá fora. É aquela nostalgia do caldinho verde. Obviamente o clima, as pessoas. Adoro estar em Portugal, adoro viver em Portugal, mas não é para trabalhar. E é mesmo nesse sentido que eu gosto de replicar a opinião dos emigrantes. Ninguém emigra por prazer. As pessoas emigram por necessidade.

E agora encontra a Madonna num bar em Lisboa. O que lhe diria?
Era capaz de pôr os dois em contacto, a Madonna e o primeiro-ministro. Eram capazes de ter coisas interessantes a dizer um ao outro.

Excertos do livro:
«Uma vez o Doutor apareceu aí com uma jornalista, diziam que andava a montá-la, eu num sei nada, e esteve a amostrar-lhe os bares da gente, ela a intervistar-nos com migro e gravador, e mais um gaijo de arreboque a tirar-nos o retrato».

«E bater-lhe nem pensar. Lá sairá uma palmada real naquele cu dos céus assim num momento de mais ardor, mas isso ela até gosta, ficam-lhe os cinco dedos marcados nas nalgas, que bela carta de amor, minha querida. Mas mais do quisso, nunca!»

«A nossa casa é um mimo. Até a casota do cão tem ar condicionado. Aqui no Canadá um home pode uarcar que nem um mouro, mas chega a casa e bibe num palácio. A gente num temos razões de queixa. A gente num nos podemos lamentar».

«Mas o pior estava para vir, nos quartos-de-final. Calhou-nos na rifa a treta dos bifes outra vez, e veijam lá que fomos òs penaltes, já da última vez tinha sido assim. Ainda se lembrava tudo do São Ricardo no Europeu descalçar as luvas pra defender um penalte em carne viva, e logo a seguir marcar ele o penalte da vitória, foi aí cu home foi santorrizado».

Olifaque
Clube do Autor
280 páginas
15 euros

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