OPINIÃO

Jane Goodall: «Os chimpanzés deram-me poder. Deram-me uma voz»

Quando era criança queria ser a namorada do Tarzan. Não alcançou esse sonho mas atingiu outro: estudar animais em África. Grande parte do que sabemos hoje sobre chimpanzés devemo­‑lo a Jane Goodall, possivelmente a maior referência mundial viva em conservação da natureza. Uma conversa com a investigadora de 83 anos sobre Trump, alterações climáticas, as emoções dos primatas e o peso que carrega nos ombros.

Entrevista de Paulo Farinha | Fotografia e vídeo de Fernando Marques

Veja um excerto da entrevista em vídeo:

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Sabemos, pelo seu trabalho de observação na Tanzânia nas décadas de 1960, 70 e 80, que os chimpanzés usam ferramentas, caçam, vivem em comunidade, fabricam as suas próprias ferramentas. Mas também aprendemos que os sentimentos e a personalidade interferem na forma como interagem uns com os outros. Lembra­‑se da primeira vez que reparou que os chimpanzés têm sentimentos?
Não consigo precisar a primeira vez que reparei que os chimpanzés têm sentimentos porque nunca pensei que não tivessem. Quando eu era criança tinha um cão e foi com ele que aprendi que os animais têm personalidade, que são todos diferentes, que têm emoções como tristeza ou medo e que têm um cérebro que pode resolver problemas. Nunca pensei que os chimpanzés não tivessem emoções.

As conclusões a que chegou mudaram a forma como olhávamos para esses parentes tão próximos dos humanos. Foi uma surpresa perceber que os chimpanzés também podem ser maus uns para os outros?
Perceber que eles podem ser maus uns com os outros e ter pequenos ataques não me surpreendeu. Precisamente porque toda a gente faz isso. O que me chocou foi o lado negro que eles revelavam ao interagir com comunidades vizinhas. São grupos sociais estranhos entre si e as interações são muitas vezes extremamente agressivas e hostis.

E podem ser fatais.
Sim. E essa foi a parte pior: ver a comunidade que eu seguia dividida. O grupo mais pequeno estabeleceu­‑se noutra área e a partir daí a relação entre os dois coletivos começou a ser agressiva. Até que estalou uma guerra. E vi que um ou dois indivíduos sozinhos, se encontrassem vários machos do grupo rival, seriam perseguidos e atacados. E as vítimas morreriam na sequência dos ferimentos, talvez não no momento, mas dois ou três dias depois. Foi chocante assistir a isto com chimpanzés que se conheciam e que cresceram juntos. Foi uma guerra civil.

Como observadora em ambiente selvagem, não podia interferir.
Não era suposto interferir. Mas ninguém me tinha dito isso. Não havia muitas regras para o trabalho de campo. Por isso, se eu via um animal com dores e em grande sofrimento e percebia que havia alguma coisa que eu podia fazer para ajudar, eu tratava­‑o como pessoa. Se fosse, de facto, uma pessoa tentaríamos ajudá­‑la, certo? Qual era a diferença, então?

Jane Goodall em Lisboa

«Eu desenvolvi duas Janes. Uma é a que está aqui agora, a dar esta entrevista. Outra é a que se transformou num ícone.»

Foi para a reserva de Gombe Stream, na Tanzânia, em 1960, com 26 anos e sem formação académica. Uma mulher a fazer trabalho de campo já era inédito na época. Sem um curso universitário, ainda mais. Mas isso resultou a seu favor, porque não tinha ideias preconcebidas. O tipo de preconceito que mais tarde viria a encontrar no meio académico em reação às suas descobertas.
Louis Leakey [paleoantropólogo, mentor de Goodall] enviou­‑me para África para saber mais sobre chimpanzés. E só mais tarde me disse que achava que alguém cuja mente não estivesse formatada pelo conhecimento das universidades daria um melhor observador. «Preconceito académico», foi a expressão que ele usou. Mas não me disse isso na altura, só mais tarde. Eu não tinha orientações, ninguém para me dizer como devia fazer. Até porque ninguém o tinha feito antes.

Lembra­‑se dos primeiros dias em África?
Muito bem. Lembro­‑me de pensar que os meus sonhos se tinham tornado realidade. E de olhar para as encostas e pensar como iria eu encontrar os chimpanzés se eles fugissem de cada vez que me vissem.

Uma mulher, sozinha, na floresta, longe da metrópole.
Não foi fácil. Primeiro, as autoridades recusaram. Eram os últimos tempos de um império britânico decrépito. Mas Leakey nunca desistiu e acabaram por autorizar. «Está bem, pode ser, mas tem de vir acompanhada.» E a minha mãe ofereceu­‑se. Não ia comigo para as montanhas, mas estava lá, no acampamento, levantava­‑me a moral, ajudava­‑me nas notas que eu tirava sobre os chimpanzés, foi uma ajuda preciosa.

Também tinha o cozinheiro, Dominic.
Sim, o Dominic, um dos melhores cozinheiros na zona de Kigoma. Que tinha um fraquinho por cozinhar com xerez ou qualquer outra coisa alcoólica, por isso acharam que era ótimo para nós: porque não havia álcool. Claro que ao fim de alguns poucos dias ele descobriu uma bebida fermentada à base de banana, com um alto teor alcoólico. Metade do tempo a minha mãe estava com um cozinheiro bêbedo numa tenda em segunda mão que tinha sido do exército. Pobre mãe. Aranhas, centopeias, cobras…

«Os chimpanzés deram­‑me um poder extra. Fizeram­‑me alcançar um título académico e elevaram-me a voz. O que digo é ouvido.»

Fala da sua mãe como uma referência e é frequente mencioná­‑la em conferências. Ela nunca tentou demovê-la?
Não. Nunca ninguém tinha feito aquilo. E ela disse­‑me para trabalhar arduamente e aproveitar a oportunidade. Quando fui a África pela primeira vez, com 23 anos – e 23 anos na altura devem corresponder a uns 16 hoje, talvez –, eu era muito ingénua. Ainda assim, nunca tentou impedir­‑me. Muitas mães não teriam feito aquilo. Mesmo hoje.

Do que tem mais saudades naqueles anos?
Do grande poder espiritual daquela floresta, da conexão entre as formas de vida. Dos sons dos sapos e das rãs à noite, dos sons dos chimpanzés a lutar – o que é horrível. Sinto falta do som daquelas aves lindíssimas. Sinto falta de estar sozinha na natureza. Isso é do que sinto mais falta.

Qual foi a sua primeira grande surpresa ao observar o comportamento de chimpanzés em Gombe? A semelhança com seres humanos?
Os chimpanzés são muito mais inteligentes do que se pensava. Podem fazer quatrocentos a quinhentos gestos de língua gestual americana, por exemplo, e usá-los no contexto correto. Mas não podemos comparar isso com a espécie que desenhou foguetões, vai a Marte e faz robôs.

Ironicamente – e infelizmente – toda essa inteligência tem-nos levado a opções desastrosas na gestão do planeta…
Sem dúvida. Como é possível que a espécie mais inteligente que alguma vez viveu no planeta Terra possa estar a destruí-lo. Essa é a espécie que mais destrói o planeta.

A conservação ambiental é uma das suas bandeiras. Está preocupada com os passos atrás que Donald Trump tem dado neste capítulo? Quando terminar este mandato do presidente dos EUA acha que poderemos estar bem pior do que estávamos antes em termos de proteção da natureza?
Continuo à espera. Muitas das coisas que Trump disse que queria fazer ainda têm de ser aprovadas no Congresso. E há muita gente a prever que isso não vai acontecer. Embora eu esteja também receosa por causa de algumas pessoas que ele colocou em posições estratégicas, com muito poder.

Que sentido faz, hoje em dia, negar as alterações climáticas e o aquecimento global?
Nenhum. Mas, curiosamente, há uma coisa boa neste governo dos EUA: acordou as pessoas. A marcha dos cientistas [abril 2017] é um bom exemplo. Os investigadores não saíam das suas torres de marfim há muito tempo. E há centenas de milhares de pessoas pelo mundo inteiro que estavam preocupadas e não sabiam o que fazer e agora protestam e revoltam­‑se. Estão a sair da apatia. As pessoas podem não saber o que fazer, mas querem fazer alguma coisa. É um resultado positivo que sai destes tempos de Trump.

Quando saiu de Gombe, em 1986, fê­‑lo porque achou que a sua voz era mais necessária fora dali, a alertar para as amea­ças ambientais e para a defesa do habitat dos chimpanzés.
Eu tinha ido a uma conferência em Chicago, como cientista, e percebi depois disso que fazia mais falta a espalhar uma mensagem. Era tempo de pagar. De devolver. Tinha de fazer alguma coisa pelos chimpanzés e defendê­‑los das ameaças a que estavam sujeitos pela ação humana. Mas não sabia bem o quê. Achei que era mais útil a correr o mundo e a alertar do que na floresta, a recolher informações.

«Há uma coisa boa neste governo dos EUA: acordou as pessoas. Podem não saber o que fazer, mas querem fazer alguma coisa.»

Foi uma decisão difícil?
Foi uma decisão ponderada. Não a tomei de um dia para o outro, demorei algum tempo a pensar. Eu estava a viver os melhores tempos da minha vida: podia passar tempo na floresta, onde tinha uma estação de pesquisa, tinha um filho pequeno, tinha tempo para escrever livros. Era uma vida estupenda. Até que fui a essa conferência. E depois de estar numa sessão sobre conservação e noutra sobre condições de cativeiro, quando fui para casa eu era uma pessoa diferente.

Nessa altura já tinha fundado o Jane Goodall Institute. Sonhava que viria a tornar-se uma instituição tão grande, espalhada por mais de trinta países e envolvendo tanta gente [ver caixa]?
Não. De todo. Cresceu muito mais do que eu podia supor. Fundei o instituto em 1977 porque uns estudantes meus tinham sido raptados dois anos antes, na Tanzânia e porque o dinheiro para investigação estava a acabar. Uns amigos insistiram na criação de uma organização não governamental para podermos angariar financiamento e mantermos o projeto e a pesquisa em andamento.

Como era, nos primeiros anos, quando começou a fazer conferências? Graças à National Geographic o seu trabalho era conhecido, mas tinha salas cheias? Que diferença encontra em relação às audiências para quem fala hoje?
Sempre falei para muita gente. Mesmo no princípio, as pessoas vinham, curiosas, atraídas por esta «senhora dos chimpanzés» que contava histórias sobre a floresta. Mas não se compara ao que se passa hoje, em que está toda a gente muito mais sensibilizada. Onde quer que eu vá, os eventos esgotam-se rapidamente. Por vezes até a falar para milhares de pessoas, em estádios. E com muitas crianças.

Tem três netos. O que lhes ensina é diferente do que ensinou ao seu filho Hugo, que cresceu consigo em Gombe?
Não. Ensino­‑os a amar e respeitar a natureza, a serem gentis para os animais e a tentar fazer as coisas melhor e a ajudar as pessoas.

Sente que esta grande responsabilidade que tem por vezes é um fardo? Preferia não ter tanto peso nos seus ombros.
[Pausa] Sim, é um fardo. Mas não me imagino a não o ter. Eu tenho esta posição e o ícone foi criado. Não por mim. Eu era tímida. Da primeira vez que tive de fazer uma palestra, pensei que ia morrer. Mas agora tenho esta posição e tenho de a manter.

Gostava de não a ter?
Eu tenho dois dons. Um deles é um corpo forte, que herdei do meu pai. O outro é a comunicação, escrita ou oral. E eu acredito que tenho de os usar.

Tem 83 anos. Chegará o dia em que dirá que não vai poder continuar a fazer o que faz, a este ritmo. Costuma pensar nisso?
Nesse dia, o meu corpo vai falar. Quando chegar a altura. Não vou poder continuar a viajar trezentos dias por ano por muito mais tempo. Se as minhas cordas vocais ficarem danificadas também não poderei continuar a fazer isto.

«Não como carne nem peixe. Sou vegetariana. Bebo um whisky todas as noites. Gosto de bom chocolate.»

Que cuidados especiais tem? Faz exercício? Tem algum regime alimentar específico?
Não como carne nem peixe. Sou vegetariana. Gostaria de ser vegan, mas viajo demasiado para conseguir fazê­‑lo. Bebo um whisky todas as noites. Gosto de bom chocolate. E não como demasiado. Quanto ao exercício, ando muito em aeroportos. Isso conta?

Anda há tantos anos a fazer isto. O que a aborrece mais nesta vida? O que a cansa mais? Dar entrevistas? Ir a eventos?
Não me importo de dar entrevistas. É uma maneira de espalhar a mensagem que eu defendo. Do que eu não gosto, por exemplo, é de aeroportos. E de controlos de segurança. E de fazer malas. Também não gosto de jantares formais. E ter de comer.

Não gosta de comer?
Não gosto de perder tempo a comer.

Mas não tem momentos em que quer abrandar? Em que pensa «não quero fazer isto agora, não tenho energia, estou cansada»? Como faz, nessas alturas? Cancela conferências? Pede à sua equipa para não marcar nada para os dias seguintes?
Não. Nunca fiz isso. Não posso. As conferências são agendadas com um ano de antecedência, não me posso dar a esse luxo [risos]. Mas eu sou boa a desligar coisas da minha mente e a deixá­‑la livre para o que me leva a uma palestra, a uma audiência de pessoas que vêm ouvir­‑me. Embora, claro, haja momentos em que estou demasiado cansada para pensar, sequer. Mas as palavras saem, fluem. É um processo natural. É uma espécie de meditação que dou por mim a fazer, enquanto falo sobre estas coisas. Eu sempre fui boa a fazer isso. Mesmo em miúda, gostava de passar tempo sozinha e desligar do mundo. Onde quer que eu vá, arranjo maneira de o fazer. Seja a olhar para uma árvore, para uma ave, ou até alguns insetos. Ou então a ler.

O que está a ler agora?
Um romance sobre os primeiros anos da colonização americana no Nebraska. Estou a lê­‑lo no meu Kindle. Sempre disse que nunca teria uma coisa dessas, mas a viajar como eu viajo, não podia andar com dezenas de livros, que são muito pesados. Mas no Kindle posso ter mil.

A tecnologia veio mudar o nosso mundo. Quando fazia trabalho de campo na Tanzânia, ia para a floresta com um bloco, uma caneta e uns binóculos. Agora temos pen drives, smartphones, tablets, GPS. O que é que um investigador leva para a selva, hoje em dia?
Depende do que estiver a estudar. Por vezes precisa de equipamento para registar informações específicas e detalhadas. Mas a maior parte deles ainda leva um bloco e um lápis.

Há alguma grande lição – ou várias – que tenha aprendido com os chimpanzés de Gombe?
Os chimpanzés levaram­‑me para um nível diferente, superior. Fizeram­‑me conquistar um título académico e elevaram a minha voz. Nesse sentido, mudaram­‑me. Agora tenho uma voz, uma autêntica voz. E posso dizer coisas que são ouvidas. E em que as pessoas acreditam. Os chimpanzés deram­‑me um poder extra. Observar e estudar chimpanzés não mudou quem sou. Mas ajudou­‑me a ter uma voz mais respeitada.

É considerada um exemplo – talvez até o maior de todos – de defensora da natureza. Muita gente olha para si como uma heroína. E uma inspiração. Sente­‑se uma heroína?
Não. Eu lido com isso de forma diferente. Eu desenvolvi duas Janes. Uma é a que está aqui agora, a dar esta entrevista. Depois há a outra. Que é um ícone. E eu tive de me habituar à outra. E a estar à altura dela.

Jane Goodall no National Geographic Summit

O LEGADO DE JANE GOODALL

Graças ao Jane Goodall Institute e ao Roots & Shoots, o programa que ajuda crianças a desenvolver projetos de conservação ambiental, a investigadora britânica leva a sua voz a todo o mundo. Jane continua a ter a sua base na Tanzânia, mas trezentos dias por ano são passados a viajar. Em maio, quando a entrevista foi feita, esteve em Lisboa para uma conferência da National Geographic.

 

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