OPINIÃO

Histórias de família: entre a ficção e a realidade

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Sexo. Relações. A aventura de ir viver com outra pessoa pela primeira vez. A aventura de outra pessoa vir viver connosco (para nossa casa) pela primeira vez. Conhecer alguém pela internet. Presentes para homem e presentes para mulher. Flirts. Engates. Conquistas. Traições. O esforço que ele faz a comprar tampões para ela. O esforço que ela faz a comprar lâminas de barbear para ele.

Em junho de 2010, a convite da diretora Catarina Carvalho, a quem tinha proposto escrever regularmente sobre relações para a Notícias Magazine, comecei a assinar nesta revista as crónicas Isto Não é o Que Parece. Versavam sobre os temas do parágrafo de cima e todos os outros que cabem no aconchego de um abraço entre duas pessoas – seja um abraço real ou desejado. Não diria que eram crónicas de afectos, deixo a palavra para o Presidente Marcelo, perito em abraços também, mas tinham muito de intimidade. De cumplicidade. De partilha. E de todo o lastro que soltamos ou bagagem que apanhamos à medida que crescemos e vamos burilando relações.

Em novembro de 2011 passei a integrar, de pleno direito, os quadros desta família. E em agosto de 2012 a minha própria família cresceu, com o nascimento da primeira filha. Aos assuntos do primeiro parágrafo passei a juntar fraldas, mamas, berços, paternidade, maternidade, parentalidade, biberões, noites de sono perdidas, birras, negociações à mesa, hormonas em circulação, o encanto de ver uma obra de que somos co-autores ganhar vida própria, cumplicidade em casa, crescimento, educação, Legos, bonecas. Um ano e meio depois veio a segunda filha. Noites mais fatiadas em sonos curtos, cama de casal onde cabe mais gente (mas sem forrobodó), carro mais apertado, coração maior. A minha mulher passou a entrar mais nas crónicas mas passou a ter menos tempo para as ler antecipadamente – muito por culpa minha, por ter passado a escrevê-las com fôlego mais curto e menor distância. São os efeitos da bipaternidade. Experimentem ter duas filhas com um intervalo de 17 meses e venham falar-me de gestão de tempo. Menos tempo para os pais. Mais tempo para as filhas. Sem tempo para beber copos com amigos nos primeiros tempos. Algum tempo para beber copos com os amigos (e um com o outro) agora. Continuei a escrever sobre relações mas, sobretudo, passei a escrever sobre família – e as crónicas passaram entretanto a chamar-se Vida em Comum.

É disso que se trata nestas páginas. As do papel e as virtuais. Da vida em comum que criamos. Da vida em comum que desejamos. Ao todo, já foram mais de 350 textos sobre a fronteira da intimidade que levantamos e baixamos. Umas mais bem conseguidas, outras menos boas, umas quantas más, algumas virais. Todas aqui, na Notícias Magazine, a revista por excelência da família, da saúde, do comportamento, da educação, que se revelou a montra perfeita para exibir as histórias em que pretendo que as famílias se revejam. Às vezes consigo, outras não, apesar de tentar com muito afinco.

A Notícias Magazine está a fazer 25 anos, eu só estou nesta família há seis, mas todas as semanas sinto a mesma responsabilidade e aperto de escrever para irmãos mais velhos. E primos direitos e afastados. A avós e tios. E pais e filhos. Todas as semanas escrevo sobre famílias para outras famílias, sabendo que faço parte de uma família maior onde os leitores estão – e alguns estiveram connosco na semana passada, na primeira de várias conferências que organizámos – sobre família, pois então – e que foi o sucesso que se pode ver nos sucessivos vídeos que disponibilizamos no site.

Às vezes baseio-me na minha própria história e vivências, outras vou buscar ideias ao que leio, umas quantas recebo sugestões de quem me lê. Por vezes sinto necessidade de explicar que não deixei as minhas filhas com a minha mãe nas férias do verão com uma extensa lista de exigências (como já escrevi), ou que o cansaço que levo da semana não me tiram a vontade de ver as miúdas (como já escrevi) ou que a relação com o outro adulto lá em casa inclui negociação e cumplicidade e amor mas não necessariamente acordos assinados sobre quem pode ficar a dormir até mais tarde ao sábado (como já escrevi).

A Notícias Magazine está a fazer 25 anos, a família continua a crescer – o nosso site chega cada vez a mais gente – e estas páginas vão continuar a contar histórias em que o leitor se vai rever. Obrigado por estar aí. É bom estar aqui. Nos almoços de domingo, no papel, e todos os dias, a qualquer hora, aqui.