OPINIÃO

Uma flor ou uma moca, os homens têm de escolher o seu lugar no mundo

É preciso perceber o que leva do assédio à violência física e porque é que houve, durante tanto tempo, tantas mulheres a ficarem caladas.

Dizia a Catarina Pires na sua crónica na semana passada: «É urgente que as mulheres deixem de ser vítimas.» Ela escrevia a propósito do caso do produtor de Hollywood Harvey Weinstein – e da profusão de amigas e conhecidas nossas que, nas redes sociais, usaram a hashtag #metoo ou #eu tambem, revelando que sim, também tinham sido assediadas durante a sua vida. Algumas contavam como.

É curioso que as notícias sobre este caso americano – que foi investigado pelo The New York Times e seguido por dezenas de denúncias públicas noutros órgãos de comunicação social – tenham vindo a público na mesma semana em que o nosso Jornal de Notícias revelava o inenarrável acórdão do Tribunal da Relação do Porto que culpa uma mulher de dupla violência doméstica , pelo marido e pelo amante, numa macabra combinação que terminou com a mulher a ser, lá está, dupla vítima.

É uma história triste em que a mulher, além de ter sido vítima de violência física brutal – apanhou com uma moca com pregos (sic) –, tinha sido antes vítima de assédio por parte do amante e do marido. Ex, ambos, já que ela tinha deixado os dois depois de uma conturbada relação a três que durou dois meses.

Não quero pensar no que esta mulher de Felgueiras sentiu ao ver sair em liberdade os dois homens que a tinham atacado. Seria preciso muito amor próprio para sacudir com rapidez a lama que aquele acórdão do tribunal lhe atirou para cima. Seria precisa muita confiança para sair deste papel de vítima do Estado e da justiça – sim, vítima, apesar de, contraditoriamente, a terem tentado colocar no lugar de agressora, vítima foi o que ela foi.

Seria precisa até alguma presunção para, depois do insulto que se seguiu à injúria, não acreditar, pelo menos um bocadinho, que alguma coisa se há de ter feito de mal neste mundo para merecer tal sorte. É o tal «estava a pedi-las», mas virado ao contrário.

Como mulher a escrever esta crónica tenho de seguir o pensamento da Catarina Pires, que inventou a hashtag «felizmente #eunão», e parar para pensar dois minutos sobre o que é que acontece e não acontece para que esta situação esteja de tal forma disseminada. Porque entre o que se passa nos gabinetes, nos corredores das empresas, nos carros, nos estacionamentos, nas ruas, nas casas e as pancadarias de moca com pregos pode ir um caminho muito curto. Durante todo esse caminho, a mulher é a tal vítima de uma situação que não lhe agrada.

Pontos prévios: escapa-me por completo o interesse que um homem de bom gosto tem em subjugar alguém contra a sua vontade – pelo poder que tem sobre essa pessoa, nem que seja o da força física – e que sabe nunca teria de outra forma. Escapa-me que alguém se contente com essa falsa força. Na fragilidade que representa. Não consigo começar a compreender o que assediar alguém nestas circunstâncias fará ao orgulho do «macho», ibérico ou não. Mas, já sei, os caminhos do poder são insondáveis, os da má educação também, e os das paranoias sexuais então nem se fala, há vasta bibliografia sobre isso.

Não falo de sentimentos porque quando esses estão envolvidos não se trata de assédio, trata-se de sedução ou relação consentida. E na sedução não se fala de igualdade porque estão ambos em fragilidade perante o que os dois sentem (ou querem que o outro sinta). Esta é a ténue fronteira que espero que todos estes processos americanos estejam a ter em conta – porque já vimos muitos em que não estavam. Parte da questão é perceber porque tantas mulheres se calam ou se calaram perante o assédio. Porque é que permitem que haja um primeiro impulso sem deixar bem claro que não pode mesmo ser. Porque não dizem não e pronto. Isto não é culpar a vítima – é estudar o assunto para que não haja mais. Nem é desculpar o agressor – porque sobre esses nojentos, sim, nojentos, já falei acima.

É preciso perceber o que está envolvido nessa resposta que não é dada. O que se passa para que haja permissividade. Como, durante tantos anos, se permite que o silêncio se mantenha. Que as denúncias não sejam sérias e a alto e bom som.

Há aqui uma combinação complexa: o lugar da mulher na sociedade ainda é muito determinado por atributos que, dependendo da forma como sejam usados, podem ser mal interpretados. Isso coloca-a numa fragilidade imensa – e falta de confiança, já falei disso. Há também ideias feitas, lugares-comuns e preconceitos – que passam gerações sem que quase nos apercebamos disso. É preciso perceber tudo isto. E dizer não. Coisa a que acórdãos como o do Porto não ajudam nada.