O dia em que Raul Solnado «fechou» o Jornal de Notícias

A 25 de novembro de 1965, Raul Solnado visitou o Jornal de Notícias e foi um precioso braço direito na redação. «Trabalhou que se fartou», lia-se na edição que foi para as bancas no dia seguinte com o toque bem-humorado do ator.

Texto Ana Pago Fotografia Arquivo DN

Ator, humorista, apresentador de programas televisivos icónicos como Zip Zip ou A Visita da Cornélia, Raul Solnado dizia que continuaria nos palcos até o empurrarem de vez para fora deles, de tanto que gostava do calor do público. Por isso não hesitou quando o convidaram a visitar a redação do Jornal de Notícias, no Porto (então na Avenida dos Aliados). Um palco é o que um homem quiser, num jornal ou noutro sítio qualquer.

A dada altura, fingiu ligar para o hospital e anunciou aos colegas: «Imaginem, um senhor que é alfaiate foi ao dentista e o doutor deixou-lhe ficar uma agulha dentro! Onde pomos a notícia, chefe?»

«Bem-disposto, Solnado atravessou a redação e foi direitinho às mesas do centro (a secção do Dia a Dia). Cumprimentou a rapaziada e sentou-se», lê-se no JN do dia seguinte, preparando os leitores para o pagode que foi a visita do ator – tão boa como vê-lo atuar ao vivo em qualquer teatro do país.

A dada altura, fingiu ligar para o hospital e anunciou aos colegas: «Imaginem, um senhor que é alfaiate foi ao dentista e o doutor deixou-lhe ficar uma agulha dentro! Onde pomos a notícia, chefe?» Responde-lhe o chefe de redação: «Onde havia de ser, Raul?» E este, muito despachado: «Ah sim, tem razão. Na secção de alfaiataria.»

O ator fez cara de mister e roeu as unhas. Telefonou para saber de ocorrências. Brincou com a gíria jornalística e pôs toda a gente em pé-de-vento no edifício: fotografia, anúncios, tipografia, gravura, distribuição e demais secções por onde passava, a dar um ar da sua graça. Curiosamente, era a ler jornais em voz alta que refreava a gaguez que o apanhou em menino, pelo que, de certo modo, ali no JN entre pilhas de papel, Raul Solnado esteve sempre em casa.

GALHOFA
«Qualquer dia estou na direção. Mas o objetivo é mais alto: a administração da tesouraria», disse Solnado na galhofa. Ao que alguém galhofou ainda mais: «O senhor sonha alto, Raul. Ainda o põem na rua.»

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