Deus nos livre das pessoas saudáveis

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Caro vizinho,

Pensei em enviar-lhe um e-mail, porque queria ter a certeza de que estas palavras iam parar ao destino. Era só pedir um recibo de entrega eletrónico e ficava a saber se a mensagem tinha chegado e se tinha sido aberta. Só não conseguiria saber se tinha sido lida e imediatamente reencaminhada para a sua mulher – é o que eu faria, se recebesse um destes. Mas depois achei que era melhor fazer à moda antiga. Só não escrevi à mão, que não é preciso exagerar, mas aqui vai, em papel dobrado e enfiado debaixo da sua porta. Acredito mesmo que a coisa assim é menos fria, mais franca, um maior sinal de sã convivência entre pessoas que vivem no mesmo prédio e se cumprimentam no elevador. Mesmo que uma não coma carne.

Eu sou o seu vizinho do 1.º B. Aquele do carro verde com o farolim partido, que às vezes estaciona à frente do Smart da sua mulher, que é pequenino e maneirinho e por isso cabe lá outro ao lado, dois a ocupar o lugar de um – desculpe lá isso, amigo, prometo que não volto a fazer. Ora, escrevo-lhe para falar dos nossos filhos. Não sei se sabe, mas os nossos filhos são amigos. Os meus rapazes e os seus rapazes costumam brincar juntos, ora em nossa casa, ora na sua, ora na rua, ora na escada. Os meus não são miúdos muito sossegados, são coisas da idade, sabe como é, já fomos todos assim. Não são, não. Não eram. É que de há uns tempos para cá – e era isso que queria dizer-lhe – começaram a acalmar. Melhor (ou pior, já lá vamos), começaram a entrar em casa e descalçar-se e a ir logo lavar as mãos, diretos à casa de banho, antes de irem para a mesa. Dizem que aprenderam com os seus, que aí em casa é assim.

Ao princípio, eu e a minha mulher achámos piada àquilo. Olha-m’esta, os miúdos bem educados. Mas depois achei estranho no dia em que o meu mais novo pediu licença para sair da mesa. «Em casa dos vizinhos é assim que fazem», respondeu ele quando lhe perguntei do que estava a falar. Não gosto cá muito que os meus filhos tenham maneiras que não aprendem com o pai ou com a mãe, mas achei que estava armado em esquisito. Coisa má não era, mal não fazia. Mas depois veio tudo o resto. E é esse resto que me preocupa.

Então não é que eles agora não querem comer carne? Dizem que lhes faz impressão e que não é saudável e mais não sei o quê. E porquê? «Em casa dos vizinhos também não comem.» Isto já aconteceu três vezes. Numa delas tinha feito umas costeletas que eram um mimo, e o raio dos miúdos não tocaram naquilo. Nem costeletas, nem carne picada, nem uns bifes de peru de que gostavam tanto. A minha mulher até ficou desconsolada. Eu já lhes perguntei se não querem trazer antes os amigos cá para casa, e em vez de os meus deixarem de comer carne, os seus saiam daqui de água na boca com o cheiro a lombo, mas depois pensei que ainda ficavam maldispostos e eu não me ficava a sentir bem. Além disso, eu vi há dias um dos seus rapazes a perguntar ao irmão o que é que eu estava a comer e o outro a dizer que «são batatas fritas de pacote, mas aquilo é um veneno». O pequeno ficou assustado. Percebe? Os seus filhos dizem que nós comemos veneno. E disseram o mesmo aos meus quando os viram a comer um chocolate. O meu filho veio perguntar-me o que é um conservante, se podíamos cortar com o glúten e onde é que podemos ir comprar maçãs biológicas. E depois disse que não queria mais bolachas porque tinham óleo de palma.

Vizinho, respeito as suas decisões e espero que faça uma vida muito saudável. Mas ontem os meus rapazes chegaram a casa com pauzinhos de incenso para aromatizar e limpar o quarto de más energias. E disseram que já não querem brincar com as bisnagas nem as espadas que lhes comprei no Carnaval passado porque isso incita à violência. E eu, que nunca comi tofu, dei dois berros e resolvi escrever esta carta. Antes que seja tarde e os meus rapazes embarquem numa viagem sem retorno.

[Publicado originalmente na edição de 26 de fevereiro de 2017]