OPINIÃO

Deste uma chapada à tua namorada e ainda não percebeste a merda que fizeste?

«O meu namorado bateu-me e quero fazer queixa dele.» No ano passado, a PSP registou 1787 queixas de agressões entre jovens. Como vai ser no dia em que a tua namorada for à esquadra e a polícia bater à tua porta?

Há dias em que pensas nisso, não há? Vá, diz que sim. É impossível não ficares a pensar nisso. Ainda que na maior parte das vezes tu aches que não estás a fazer nada de mal e que a tua namorada ou o teu namorado digam que te desculpam, te entendem, tu és assim mesmo, é só porque gosta muito dele ou dela e não sabes o que fazer a tanto amor…Ainda que ele ou ela continuem a aguentar e a meter para dentro, não é possível que tu não fiques a pensar nisso. Na porcaria que fizeste.

Não há outra forma de dizer estas coisas. Fizeste merda da grossa. Escusas de pensar que não. Hoje foi essa chapada, ontem foi o apertão no braço. Na semana passada, quando rangeste os dentes para não soltar um soco depois de ouvires a resposta torta que ele ou ela te deu… Aquilo foi o quê? Estava a pedi-las, era? Respondeu-te mas tu conseguiste aguentar-te e não fechar a mão para espetar um murro onde calhasse. Na cara, no braço, nas costas, fosse o que fosse. Hoje foi a chapada. E amanhã, o que vais fazer?

Agora vais pedir desculpa, já se sabe. Vais inundar o telemóvel dele ou dela a lamentar o que fizeste e a jurar que nunca mais se vai repetir, que perdeste a cabeça. E depois? Depois de ele ou ela dizerem que desculpam, mais uma vez, tu vais fazer o quê? Vais subir a fasquia para onde? Quando é que vais soltar o pontapé? Quando é que lhe vais chamar puta ou cabrão? É uma questão de tempo? É que isso também é agressão. Isso também é violência. Os nomes que lhe chamas são violência. Os SMS ou mensagens que lhe mandas pelo Messenger, Whatsapp, Snapchat a perguntar que comentário foi aquele no Facebook ou a dizer que não gostas que ela use aquela saia ou que ele com aquela rapariga, isso também é violência.

Sabias que, no ano passado a PSP registou 1787 queixas de agressões entre namorados e ex-namorados? E que isso representou um aumento de 32% em relação a 2015 – que, por sua vez, já tinha tido mais 37% de queixas do que 2014? Eu não sei, ninguém sabe ao certo, se há mais casos de violência entre Jovens ou se há cada vez mais gente a perder a vergonha e a ganhar coragem. A falar com os pais e, depois, a ir a uma esquadra para dizer: «O meu namorado bateu-me e quero fazer queixa dele». Ainda bem que o fazem. Como vai ser, no dia em que isso acontecer contigo? Como vai ser, no dia em que dois agentes te baterem à porta?

O que vais dizer à tua mãe, nessa altura? E ao teu pai? Que estás só a fazer o que viste em casa a vida toda? O teu pai bate na tua mãe, a tua mãe bate no teu pai, chamam nomes um ao outro, de vez em quando partem-se coisas contra a parede, há dias em que os vizinhos chamam a polícia, outros em que baixam os olhos no elevador, e tu, às vezes, apanhas por tabela também. É isso que se passa? É essa desculpa que vais dar? É que isso não é normal. Por muito que a tua mãe apanhe, ela sabe que isso não é normal. O teu pai, que lhe bate, também sabe. E tu, que se calhar também já pensaste em chamar a polícia mais do que uma vez, para acabar com isso de vez, sabes que não é normal. Por isso, e voltando ao início, diz lá: há dias em que ficas a pensar nisso, não há?

No âmbito de um projeto de Educação Sexual da cadeira de Psicologia, um grupo de estudantes da Escola Básica e Secundária de Águas Santas, na Maia, realizou um VÍDEO sobre violência no namoro (ver em baixo). Vinte e sete rapazes e raparigas entre os 17 e os 18 anos, alunos da turma 12.ºE, declamaram, perante a câmara, de viva voz e em língua gestual, uma crónica que escrevi sobre o tema, publicada em junho de 2013 aqui na Notícias Magazine. Nestes quatro anos, esse texto, com o título O Teu Namorado de 16 Anos não é Nervoso, é uma Besta, tem sido debatido, discutido, partilhado, analisado, desmontado por escolas e grupos de trabalho com pais e adolescentes. Há muito que deixou de ser um texto só meu, a autoria pouco importa. Essa crónica ganhou vida própria, continua a circular (o vídeo dos estudantes da Maia é de meados de abril deste ano), a alertar para um flagelo e a provocar debate e reflexão. Cumpriu o seu objetivo. E isso não tem preço.

Ver o vídeo dos alunos da Escola Secundária de Águas Santas:

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Editado. A versão original foi publicada na edição de 30 de abril de 2017.