OPINIÃO

Cultura

O problema de muitos governantes é que simplesmente ignoram a cultura. Não queimam livros, porque não têm medo deles, nem sequer os compreendem.

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A Carla, professora, não teria necessidade nenhuma de ir à Feira do Livro de Lisboa comprar livros para a biblioteca da sua escola. Poderia encomendá-los a uma livraria ou editora. Em vez disso, vai à feira nos seus tempos livres, pois com os descontos consegue comprar mais títulos. Poderia nomear muita gente que conheci ao longo dos anos que tem este tipo de acção supererrogatória. A Gisele Corrêa Ferreira, por exemplo, criou e mantém, com muito trabalho e dificuldades, um excelente festival literário em Poços de Caldas (Flipoços), que contribui para que esta pequena cidade de Minas Gerais tenha os maiores índices de leitura do Brasil, mais do dobro da média nacional.

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Os nazis queimavam livros, o Daesh destruiu ruínas de Palmira. A CIA usou o jazz para seduzir os jovens para lá da Cortina de Ferro. Nessa mesma linha, e também durante a Guerra Fria, abominando o expressionismo abstrato, a mesma organização sinistra usou quadros de Pollock, por exemplo, para mostrar ao Leste como a sociedade americana era criativa e arrojada intelectualmente. Apesar de detestarem a cultura, sabiam que podia ser uma arma poderosa para mudar a sociedade e reconheciam, ainda que de um modo perverso, o seu valor. O problema de muitos governantes é que nem sequer se apercebem disto. Simplesmente ignoram a cultura. Não queimam livros, porque não têm medo deles, nem sequer os compreendem.

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As feiras e os festivais, os eventos culturais em geral, aproximam os fruidores dos criadores e dos seus objectos, mudando paulatinamente toda a sociedade, graças a essa mesma proximidade. Ainda que possamos desprezar a felicidade, o hedonismo, o crescimento pessoal, social e político que resultaria de uma maior vivência cultural, e se apenas pensarmos em benefícios pecuniários, a cultura é uma das áreas mais rentáveis, sendo responsável por quase 3% da riqueza nacional e originando um valor acrescentado bruto superior à indústria têxtil e de vestuário. Mas seria igualmente interessante perceber, e acrescentar aos estudos económicos já feitos, qual o impacto indirecto de um evento cultural para uma localidade: quanto ganha com isso a restauração e hotelaria, transportes, comércio e serviços.

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Os objectos que temos à nossa volta são mais do que objectos industriais, mas tiramos-lhes, talvez inconscientemente, a autoria, esquecendo que todos os objectos que nos rodeiam são culturais na sua génese. Nasceram de uma ficção, da imaginação de alguém, da criatividade. E cada vez que um empresário tem um produto de sucesso deve-o à cultura, à sua, à da sociedade, ao trabalho mais ou menos invisível, e tantas vezes desprezado, de quem permite que tudo aconteça.