OPINIÃO

Clarice Falcão: «É um show que eu nunca fiz. Vai ser só eu e corda»

Tornou-se conhecida em Portugal graças à participação nos sketches do YouTube do coletivo brasileiro Porta dos Fundos. Mas ela é muito mais do que isso. E tem uma estranha maneira de olhar o mundo. Otimista, vê sempre o copo meio cheio, mas com ironia. O humor é o seu traço mais conhecido, mas a veia crítica também é forte, por isso se situa no campo do feminismo e do protesto político. Clarice Falcão, a cantora, vem a Portugal para dois concertos em Lisboa e no Porto, baseados nos dois álbuns que editou. Depois há-de voltar ao palco enquanto atriz.

Texto de Carla Macedo | Fotografias de Paulo Spranger/Global Images

Clarice Falcão vem pela primeira vez fazer um concerto ao vivo em Portugal. Dia 29 de setembro, no Festival Famous Fest, a atriz-compositora-cantora-guionista – e o que mais houver para fazer – pisa o palco da Lx Factory, em Alcântara, num espetáculo há muito desejado.

Há um ano esteve para tocar em Lisboa e no Porto, chegou a vir a Portugal fazer a promoção da digressão, mas o contrato com a produtora acabou por não ser assinado. Agora, está mesmo confirmada a presença de Clarice e o anúncio nas redes sociais da artista originou uma onda de comentários e pedidos para que os concertos se estendessem a outros pontos do país. E uma nova data foi marcada: a 4 de outubro a Casa da Música, no Porto, recebe um segundo concerto.

Clarice assume que quer regressar à representação. Em Portugal vai, no entanto apresentar um espetáculo musical, quase um solo, apenas com um músico de apoio.

Há um ano, numa entrevista para a promoção da tournée que não chegou a existir, a artista dizia: «Neste momento eu sou mais cantora, compositora, nem compositora, que eu já compus, não é? Esse trabalho está feito, mas cantora, performer… mas aí também, nas horas vagas, atriz, roteirista e acabei de aprender a fazer tricot.» Mas a vida dá muitas voltas, aos 27 anos dá ainda mais, sobretudo quando se tem múltiplos interesses.

Na conversa rápida ao telefone, Clarice é muito clara: «Poxa, como a vida mudou, essa conversa foi há muito tempo». Agora assume que quer regressar à representação.
Em Portugal vai, no entanto, apresentar um espetáculo musical, quase um solo, apenas com um músico de apoio. «É um show que eu nunca fiz. É um formato menor – porque eu costumo tocar com baixo, bateria, guitarra e teclado e [este concerto] vai ser só eu e corda. E eu acho isso bom porque de alguma forma valoriza a letra.»

Os jogos de palavras são uma das paixões de Clarice Falcão. «Eu comecei a escrever tendo a minha mãe como mentora, ela é especialista em diálogos, escreve livros, tem essa coisa com a palavra escrita que é muito, muito bonita», diz a artista relembrando os tempos em que a mãe, a escritora e guionista Adriana Falcão, lhe passava a sequência das cenas da série cómica A Grande Família, em exibição na televisão brasileira entre 2001 e 2014.

Em Monomania, o primeiro álbum, lançado em 2013, os jogos de palavras são evidentes e levados ao extremo.

«Ela recebia a storyline cena a cena, com indicações que na cena 1 tal pessoa faz não sei quê; na cena 2 Agostinho chega para Bebel e briga com ela; Cena 3 outra coisa. Aí ela falava assim: “Faz essa cena aqui” e aí eu fazia. Escrevia, mandava para ela, aí ela me chamava assim então “Porque é que está horrível? Por causa disso, disso, disso”.»

Essa relação profissional com a mãe funcionou como uma espécie de estágio de escrita, sem nenhum tipo de condescendência. «Até que chegou um momento em que ela estava muito atolada e falou assim “Faz essas cenas para mim?”. Deu uma mexida e mandou as minhas. E essa foi minha graduação no curso.» Clarice tinha 16 anos.

O resultado desse estágio na música que Clarice faz é um inegável pendor narrativo. Em Monomania, o primeiro álbum, lançado em 2013, os jogos de palavras são evidentes e levados ao extremo. Na canção Eu me lembro, o monólogo da mulher apaixonada, que forma quase todo disco, passa a ser um diálogo entre duas personagens que relatam a forma como se conheceram. Nada coincide na descrição que ambas fazem – conheceram-se numa terça-feira ou uma quinta-feira, em setembro ou em dezembro? Felizmente, para a história, coincidem no amor que despertam um no outro.

Problema Meu é o segundo disco de Clarice Falcão. Lançado em 2016, vem trazer temáticas distintas. «Acho que é o oposto ao primeiro. Eu, intencionalmente, queria que fosse assim, que o disco tivesse várias vozes. O primeiro tinha um eu lírico só. Era sempre a mesma voz falando e sempre o mesmo assunto.»

E a ideia subjacente a cada álbum também condiciona o desenvolvimento musical dos temas: «Era quase uma história em historinha e isso se refletia também na sonoridade. Era mais acústica, minimalista. E as músicas entre si são parecidas. Varia pouco, não é? Cordas, violão, acústico, quase nada de bateria, às vezes nem isso, bem valorizando a letra.» O segundo disco faz também as pazes com a mulher insubmissa que é Clarice.

«Essa personagem [de Monomania], ela vê pouco em volta, foi bem construída, é um exagero do exagero de todos nós apaixonados, mas num extremo. Aquela personagem é pequenininha e está olhando para esse cara, esses tamanhos estão muito estabelecidos, ele é o grande, ela é o pequeno e ela está olhando uma coisa só.» Problema Meu traz também pequenos tiques machistas.

Feminista convicta, Clarice Falcão reconhece que é difícil contrariar os hábitos mesmo quando se tem consciência dos problemas, «seja o sexismo, o racismo ou a homofobia».

«A terceira música do álbum, Deve ter sido eu fala de uma moça que diz “Eu já não amo mais você, mas eu ainda odeio essa menina”. Fiquei pensando, se eu botava ou se eu não botava a música no disco, porque é um pensamento anti-sororidade. Mas eu resolvi botar por dois motivos: o primeiro é que eu acho que fragilidade não se esconde – e essa música é uma fragilidade, um sentimento que é feio. Segundo, porque mais para o final do CD tem Vagabunda que equilibra.»

Feminista convicta, Clarice Falcão reconhece que é difícil contrariar os hábitos mesmo quando se tem consciência dos problemas, «seja o sexismo, o racismo, ou a homofobia». E que é difícil olhar para trás e perceber que apesar de se ser a favor da igualdade de género «continuava reproduzindo, eu reproduzi muito, muitas das atitudes machistas durante a minha vida e acho que muitas mulheres sentem isso, olhando agora. Olhar para trás e falar assim: “Meu Deus, que é que eu fazia?”, e até hoje, é muito difícil você se livrar de algum desses hábitos…»

Que hoje é este? É o tempo em que «se começou a chamar os bois pelos nomes», em que o feminismo ganhou um novo volume nos ouvidos brasileiros. É por isso que em Problema Meu também aparecem «os personagens empoderados» e os amores passageiros: «Eu gosto de você como quem gosta de um vídeo do YouTube de alguém cantando mal», ouve-se no single de lançamento É irónico.

Na verdade este segundo álbum, de que a artista apresentará vários temas nos concertos em Portugal, traz o momento social e político que o Brasil vive em 2016, o ano do impeachment à Presidente da República Dilma Rousseff, o ano das manifestações na rua. Clarice vê-se contagiada pelo momento. «Eu acho que a coisa social e a coisa política, de certa forma, aparecem juntas.»

Apesar de ter estado ao lado do Dilma Rousseff na iniciativa Mulheres pela Democracia – um concerto que juntou diversas apoiantes da ex-Presidente, Clarice não tem uma posição acrítica sobre o período do PT na presidência.

Um ano mais tarde, a permanência de Temer no Governo acaba por ser vista como um feito, mesmo pela oposição. «Acho que as coisas não estão bem. Mesmo quem foi a favor do impeachement, do golpe, começa a ganhar consciência. Estamos neste momento a viver um levantamento geral contra o fim da proteção da Amazónia. Estão a tentar vender uma zona de reserva natural enorme. O que tenho visto muito são artistas que eram a favor de Temer e que agora estão revoltados.»

Mas Clarice, que é auto-irónica e otimista por natureza, não tem dúvidas: «Pelo menos o governo Temer uniu os dois lados, no sentido em que nesse momento tem 95% de rejeição. Conseguiu unir o povo.» Apesar de ter estado ao lado do Dilma Rousseff na iniciativa Mulheres pela Democracia – um concerto que juntou diversas apoiantes da ex-Presidente, Clarice não tem uma posição acrítica sobre o período do PT na presidência. «O Governo da Dilma já era lento e já tinha vários pontos que eu discordava. O incentivo excessivo ao consumo, as questões da subsistência do Índio, sabe? Apesar de eu admirar a Dilma, era um Governo que estava caminhando a passos lentos. Agora a gente está a caminhar em passos rápidos, mas na direção contrária. [O governo de Temer] é uma eficiência de retroceder absurda.»

Entre os concertos em Portugal – em Lisboa a 29 de setembro, no Porto a 4 de outubro –, Clarice vai «dar uma passeada». Quer muito conhecer o Porto e visitar Sintra. Ficará pelo menos dez dias, nesta segunda vez em Portugal. Quando chegar a casa voltará a concentrar-se na escrita de um novo álbum e a dispersar-se. Não cria canções com prazos de entrega, nem objetivos definidos.

A julgar pelos álbuns anteriores a composição é um processo de contar uma história. Não há letra primeiro e melodia depois. «Eu faço tudo junto. Eu penso no que vai ser mais ou menos a ideia e aí eu vou pensando qual o melhor jeito de contar essa história melodicamente.» Quando tem um corpo coeso de músicas boas «que não pareça nada que eu tenha escutado antes», a autora constrói o álbum.

Mas há uma ideia a germinar dentro de Clarice: voltar à representação. «Tenho muitas saudades de atuar, eu queria muito focar-me nisso. É dessa coisa de atriz que tenho tido saudades. Tenho projetos mas estão em fase embrionária.»

No trânsito entre uma arte e outra, vai ganhando mais qualidade na sua competência de intérprete. «É muito gostoso fazer coisas ao serviço de outras pessoas. É também um crescimento muito grande. Cantar tem muita coisa de interpretação. E quando você está mais acostumada a trabalhar com as palavras, a interpretação do texto enquanto atriz também melhora.»

DNA

Tem 27 anos e é filha da escritora e guionista Adriana Falcão e do dramaturgo José Falcão. Teria sido difícil ser outra coisa que não artista. «Foram muitos anos de coxia no teatro.» A primeira música que escreveu foi para uma curta-metragem. Tinha 16 anos, a mãe concorria com um pequeno filme numa competição no Youtube e a banda sonora tinha de ser original. A filha escreveu Australia. Só mais tarde descobriu o português.

Toca violão, cavaquinho, gaita de beiços «Todos mal, né?» Estudou bateria aos 11 anos. Tornou-se conhecida do grande público com a participação nos vídeos de comédia do coletivo Porta dos Fundos. A primeira aparição foi ao lado de Gregorio Duvivier, com quem esteve casada, a cantar uma música de sua autoria sobre um relacionamento surdo, «Meu amor eu não amo mais você».

No programa descobriu a veia cómica. Fez uma novela e não gostou, «era um personagem muito pesado, uma menina novinha que engravidava do pai». Fez cinema, também com Duvivier, na comédia Desculpe o Tanstorno, em que interpretava uma das duas namoradas do protagonista.

Há um ano iniciou uma relação com o músico e apresentador Guilherme Guedes, que conheceu na internet. «Quem me dera que fosse no Tinder, seria um história muito mais legal. Foi no Twitter. Eu seguia-o a ele e ele a mim. Começámos a falar pelo Twitter e começámos a sair. Não tem nada demais. É a história de amor mais sem graça da história.»

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