O cigarro eletrónico é menos tóxico do que o tradicional?

Para tentar saber o melhor conselho a dar aos pacientes sobre o uso dos e-cigarros, um grupo de médicos de família analisou com detalhe os estudos internacionais que comparam a toxicidade destes e do tabaco tradicional. Ficaram sem dúvidas de que um e outro são prejudiciais para a saúde, mas concluíram que tudo indica que os eletrónicos são um mal menor. Descubra porquê.

Texto de Catarina Guerreiro | Fotografia de Shutterstock

«Doutor, o cigarro eletrónico é mais seguro que o cigarro?» Foi para conseguir responder a esta pergunta que um grupo de médicos de família decidiu fazer uma análise exaustiva dos ensaios e estudos feitos pelo mundo fora nos últimos dez anos sobre a toxicidade dos dois tipos de cigarros.

No fim, garante o médico Diogo Ferreira, um dos autores do trabalho, ficaram com a certeza de que os cigarros eletrónicos têm também efeitos graves na saúde, mas com a sensação de que tudo indica que terão menos toxicidade do que o tabaco convencional – que mata seis milhões por ano, segundo a Organização Mundial de Saúde.

E em Portugal, de acordo com dados divulgados num relatório do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, o tabaco foi responsável, em 2015, pela morte de 11. 098 pessoas. O mesmo estudo indica que é entre o grupo etário dos 25-34 anos que se está a verificar mais adesão aos cigarros eletrónicos, tanto no sexo masculino, (2,5%) como no feminino (1,7%).

«Para se ter a certeza de que os eletrónicos são menos tóxicos é preciso tempo, pois são recentes. Nenhum profissional de saúde pode ainda nem consciência aconselhar o seu doente a fumar cigarros eletrónicos», diz o médico Diogo Ferreira.

«Mas, para se ter a certeza de que os eletrónicos são menos tóxicos, é preciso tempo, pois são recentes e é necessário analisar a mortalidade e as doenças a eles ligadas», explica à NM Diogo Ferreira, médico da Unidade de Saúde Familiar Novo Sentido, no Porto. Por isso, diz, nenhum profissional de saúde pode ainda «em consciência aconselhar» o seu doente a fumar cigarros eletrónicos.

«Tudo o que entra no pulmão, para além de ar puro, é certo que vai causar danos», alerta. Ao todo, ele e os colegas analisaram 53 estudos feitos por especialistas de vários países sobre os riscos tóxicos destes cigarros e que comparavam o perfil de segurança toxicológica do cigarro eletrónico versus o do cigarro convencional. E nós fomos ver o que diziam esses estudos escolhidos pelo grupo de médicos de família portugueses. Veja as respostas que os investigadores destes trabalhos conseguiram encontrar para algumas dúvidas que existem sobre os cigarros eletrónicos.

Têm riscos cancerígenos?

Nos vapores dos cigarros eletrónicos foram encontradas substâncias cancerígenas e tóxicas. Mas em menos quantidade e em níveis de toxicidade muito inferiores ao registado nos cigarros convencionais, referem os estudos internacionais.

A equipa do professor e especialista na investigação do tabagismo, Maciej Lukasz Goniewicz, do Instituto do Cancro Roswell Park, em Nova Iorque, analisou esses vapores dos cigarros eletrónicos. Para isso, usou uma máquina de fumar, que foi configurada para imitar o perfil de um utilizador deste tipo de cigarro. Depois, os investigadores analisaram 1800 puffs. E não apenas de uma, mas de 12 marcas de e-líquidos diferentes – que em regra contêm água, propilenoglicol [PG], glicerina, nicotina e aromatizantes. Registaram assim 150 puffs por cada uma das marcas, identificaram os componentes tóxicos e compararam-nos com os que existem nos cigarros tradicionais.

Nos cigarros eletrónicos foram detetados alguns dos produtos perigosos presentes no tabaco tradicional mas com níveis de toxicidade entre nove a 450 vezes inferiores.

Resultado: nos cigarros eletrónicos foram detetados alguns dos produtos perigosos que estão presentes no tabaco tradicional. É o caso de alguns compostos químicos cancerígenos, como as nitrosaminas, e de substâncias tóxicas, como a acroleína, que provoca irritação no trato respiratório, nos olhos e na pele.

No entanto, garantem os investigadores, estes elementos perigosos apresentam níveis de toxicidade entre nove a 450 vezes inferiores aos verificados nos cigarros convencionais. À mesma conclusão chegaram investigadores da Universidade de Perúgia, em Itália, que estudaram os poluentes contidos e libertados nos líquidos e vapor dos cigarros eletrónicos.

Através de uma técnica especial, identificaram cada uma das substâncias que estão misturadas no e-líquido e analisaram e mediram as emissões das partículas geradas no vapor. E também neste teste foram detetados, tal como acontece nos cigarros tradicionais, substâncias consideradas perigosas.

Porém, sublinham, os especialistas italianos, o ingrediente em maior quantidade (90%) era o propileno-glicol. que não é reconhecido como um elemento perigoso para a saúde humana pela Food and Drugs Administration – organismo responsável pela promoção da saúde nos EUA.

A toxicidade permanece no organismo?

Como nos cigarros tradicionais, também nos eletrónicos as substâncias perigosas, depois de serem processadas pelo organismo, continuam a ter características tóxicas. No entanto, nos cigarros eletrónicos os valores foram significativamente mais baixos do que nos outros.

Para chegar a esta conclusão, investigadores do centro de investigação do cancro da Universidade de Minnesota, nos EUA, realizaram um estudo à urina de fumadores dos dois tipos de tabaco para verificar a presença de substâncias tóxicas e carcinogénicas.

Ao verificarem que, depois de processados pelo organismo, os níveis de toxicidade na urina são muitos inferiores nos cigarros eletrónicos, os autores referem que isso pode indicar que o impacto destes nos vários órgãos, como nos pulmões, é também menos prejudicial.

Têm nicotina como os convencionais?

Testes ao sangue e à urina de fumadores de e-cigarros mostraram que sim. Mas em quantidades inferiores aos dos convencionais, indicam alguns estudos.

Um trabalho efetuado por investigadores de uma empresa privada nos EUA, feito com base na recolha de amostras sanguíneas, indica que as concentrações de nicotina no sangue, após 1,5 horas de uso do produto, são significativamente menores nos consumidores dos cigarros eletrónicos em comparação com os do outros.

Testes ao sangue e à urina de fumadores de e-cigarros mostraram que sim, estes também têm nicotina.

No entanto, a questão não é totalmente clara. Uma investigação levada a cabo pela equipa da Universidade de Minesotta, também nos EUA, teve resultados diferentes. Os especialistas analisaram 28 fumadores de cigarros eletrónicos fazendo-lhes análises à urina. Para poderem participar nos estudos, umas das condições é que os candidatos não tivessem fumado nenhum cigarro convencional nos últimos dois meses.

Depois, compararam os resultados das análises dos consumidores de e-cigarros com as análises de fumadores de cigarros tradicionais previamente feitas. E num dos estudos os níveis de nicotina e cotinina (nicotina processada) foram semelhantes nos dois grupos de fumadores.

Tem impacto nos marcadores inflamatórios dos fumadores passivos?

Um grupo de especialistas do Fame Lab, um instituto de investigação na Grécia, garante que, num teste que fizeram para avaliar o impacto destes cigarros nos marcadores inflamatórios nos fumadores passivos, este revelou-se nulo e por isso totalmente diferente do que acontece com o tabaco tradicional.

O ensaio passou por analisar a ação que os diferentes cigarros tinham nas células de 15 fumadores e de 15 não fumadores. Em três ocasiões distintas, ao longo de uma semana, os não fumadores foram expostos ao fumo do tabaco convencional, noutra ao e-cigarro e noutra não tiveram qualquer exposição. Foram depois recolhidas amostras sanguíneas aos participantes antes das sessões, imediatamente depois e uma hora após as sessões.

No fim, as análises mostraram que o cigarro convencional levou a um aumento dos leucócitos, linfócitos, granulócitos (glóbulos brancos) nos não fumadores. Já nos indivíduos expostos ao fumo do cigarro eletrónico não se verificaram alterações na contagem de células sanguíneas, dizem os investigadores.

Tem efeitos na tensão arterial?

Sim, alertam os especialistas norte-americanos que realizaram um ensaio clínico sobre o tema. Segundo a equipa que analisou o impacto dos cigarros nos parâmetros hemodinâmicos, verificou-se tanto em relação aos convencionais como aos eletrónicos um aumento «estatisticamente significativo» quer para a frequência cardíaca quer para a pressão arterial.

Já a favor do cigarro eletrónico descobriram que não teve impacto nos níveis de monóxido de carbono exalado, ao contrário do convencional. O monóxido de carbono é uma substância que fica presente no sangue quando alguém está, por exemplo, sujeito ao fumo de um incêndio.

Tanto em relação aos convencionais como aos eletrónicos um aumento «estatisticamente significativo» quer para a frequência cardíaca quer para a pressão arterial.

Para chegarem a esta conclusão, os investigadores realizaram um estudo clínico com 23 pessoas (entre os 21 e os 65 anos) e usaram cinco diferentes marcas de líquidos dos cigarros eletrónicos e dos convencionais de uma marca líder de mercado. Depois foram expostos ao fumo de duas maneiras: primeiro fumaram de forma controlada: ou 50 puffs do eletrónico ou um cigarro tradicional inteiro. Noutras ocasiões consumiram durante uma hora um cigarro eletrónico como entenderam.

Ao longo dos dias em que decorreram os testes, e em vários momentos durante o consumo, foram retirando-lhes amostras ao sangue para verificar os parâmetros, como a pressão arterial, frequência cardíaca e medições de monóxido de carbono exalado.

No entanto, também há estudos que referem existir um impacto menor na tensão arterial e na frequência cardíaca em relação aos dois tipos de cigarros.

Provocam rigidez arterial?

Dados de um estudo feito por investigadores polacos indicam que os cigarros eletrónicos não levam a que as artérias fiquem mais apertadas. Isto é, não causam rigidez arterial, como sucede com os convencionais, garantem os especialistas do Departamento de Química Geral e Inorgânica da Escola de Farmácia da Universidade de Medicina de Silesia, na Polónia.

Avaliaram 15 mulheres saudáveis entre os 19 e os 25 anos, que consumiam pelo menos cinco cigarros por dia há pelo menos dois anos. Cada participante visitou o laboratório durante duas sessões experimentais, pelo menos com um dia de intervalo. Na primeira sessão fumaram um cigarro convencional e na segunda um cigarro eletrónico.

Em ambas as sessões, antes e depois do consumo, mediram-se os vários parâmetros. E se antes e depois de fumarem tabaco tradicional revelaram diferenças estatisticamente significativas nos valores do índice de rigidez e índice de reflexão; quando o consumo do cigarro eletrónico não lhes causou alterações significativas nos parâmetros de rigidez arterial.

A informação dos rótulos é correta?

Nem sempre. Investigadores do Instituto de Pesquisa e Centro de Cancro H. Lee Moffitt, na Flórida, EUA analisaram vários estudos sobre o assunto e concluíram que existe uma grande variedade nos compostos presentes nas diversas marcas de cigarros eletrónicos sendo que, em alguns casos, alertam, foi notório que a informação contida nos rótulos era inconsistente com a análise dos e-líquido dos cigarros eletrónicos.

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