OPINIÃO

Che Guevara: o revolucionário antes e depois da lenda

Nasceu na Argentina, mas foi em Cuba que fez a revolução. Não lhe chegou. Havia que levá-la a outros lugares do mundo. Por isso mataram-no, há 50 anos, na Bolívia. Retrato do revolucionário que se tornou lenda e ícone.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de Reuters e Getty Images

Era uma da tarde do dia 9 de outubro de 1967 em La Higuera, Bolívia. Um tiro rompeu o silêncio e outros se seguiram para certificar que sim, que ele morria.

Tinham-no preso numa sala de aula da pequena escola do povoado. O soldado Mario Terán, que inscreverá o seu nome na História como assassino de Che Guevara, entra e ajuda-o a levantar-se do banco onde está sentado.

Ele sabe que vai morrer, mas mantém-se sereno – vitória ou morte! –, Terán não, tremem-lhe as mãos, hesita, mas à voz de comando daquele que vai matar – «Dispara, cabrão, dispara!» – obedece.

À voz de comando daquele que vai matar – «Dispara, cabrão, dispara!» – Mario Téran obedece. Outros disparam também. «Tiveram medo dele morto», escreverá mais tarde Hilda Gadea, a sua primeira mulher.

Outros disparam também. «Tiveram medo dele morto», escreverá mais tarde Hilda Gadea, a sua primeira mulher. E assim acaba a vida. Uma vida que começou às três da manhã do dia 14 de junho de 1928, na cidade de Rosário, Argentina. Nascia Ernesto Guevara de la Serna, um mês antes do previsto, primeiro filho de Ernesto Guevara Lynch e Celia de la Serna y Llosa.

RETRATO DO REVOLUCIONÁRIO ENQUANTO JOVEM

Não foi um bebé saudável. Com poucos dias teve uma broncopneumonia e aos dois anos o primeiro ataque de asma, doença que marcou toda a sua vida. E a dos pais.

Foi em busca de um clima mais favorável à saúde do filho que deixaram Caraguatay, a quinta da família na província de Misiones, onde tinham plantações de mate – erva com a qual se faz uma bebida tipo chá muito popular na Argentina, que se bebe amarga ou doce, por uma espécie de cachimbo, e que seria companheira inseparável de Che pela vida fora –, e se mudaram para Buenos Aires, onde o pai se dedicaria à construção de barcos.

Não por muito tempo. A humidade da capital era contra-indicada ao estado do pequeno Ernestito ou Tete, como era chamado pela família, e um ano depois Ernesto Guevara Lynch vendia a sua parte no negócio e escolhia por morada Alta Gracia, uma cidade onde se respirava o ar do campo na província de Córdova.

Che Guevara, com seis anos, em 1934, em Alta Gracia, na província de Córdova, Argentina. Na altura, o seu diminutivo era Tete ou Ernestito.

Uma decisão de que nunca se arrependeria, apesar de o estaleiro que deixou para trás ter vindo a revelar-se um dos maiores e mais lucrativos do país. A saúde do filho era mais importante do que tornar-se milionário.

Aliás, dinheiro e estatuto social não figuravam nas preocupações de Ernesto e Celia. Embora pertencessem à alta burguesia, partilhavam ideais de esquerda. O pai, liberal socialista, e a mãe, simpatizante marxista, pautavam o quotidiano dos filhos – Che teve mais quatro irmãos, Celia, Roberto, Ana Maria e Juan Martin – por discussões político-ideológicas, que o revolucionário lembraria muitos anos mais tarde, numa carta bem humorada que escreveu à mãe, a 17 de junho de 1955, do México.

«Tenho uma quantidade de miuditos do sexto ano maravilhados com as minhas aventuras e interessados em saber algo mais sobre as doutrinas de São Carlos [Karl Marx]. Conto-te tudo isto para que sintas que os teus anos não foram em vão, pois, para além dessas moeditas burocráticas que pariste, também lançaste ao mundo um pequeno profeta ambulante que anuncia o advento do dia do Juízo Final com a poderosa voz do Che».

Não era apenas o espírito que se cultivava na família Guevara. O futuro revolucionário era incentivado a praticar todo o tipo de desporto: râguebi, futebol, natação, atletismo, natação, tiro, golfe.

Foi Celia que o ensinou a ler e a escrever e a fazer contas e a falar francês, em lugar da escola oficial que só pôde frequentar a partir dos oito anos em virtude da saúde débil, ensinamentos bastantes para que daí em diante fosse sempre o melhor aluno, mesmo quando a asma o obrigava a ficar afastado dos bancos da escola por longos períodos.

Tempo que aproveitava para ler vorazmente. A coleção de livros do pai contava cerca de três mil títulos. Mas não era apenas o espírito que se cultivava na família Guevara. O futuro revolucionário era incentivado a praticar todo o tipo de desporto para fortalecer a compleição física e melhorar a respiração – râguebi, futebol, natação, atletismo, natação, tiro, golfe. E assim o frágil Ernestito tornou-se num adolescente bem constituído e autoconfiante.

O carisma e a capacidade de liderança forjaram-se nas ruas de Alta Gracia, onde era o líder incontestado do grupo de amigos, que tanto eram os miúdos pobres de rua como os filhos das famílias abastadas da cidade.

A primeira revolta política de Guevara foi aos 11 anos: durante uma greve de trabalhadores do setor energético, que a companhia de eletricidade tentou boicotar, recrutou os amigos para partirem os candeeiros da rua.

A primeira revolta política do jovem Guevara foi aos 11 anos: durante uma greve de trabalhadores do setor energético, que a companhia local de eletricidade estava a tentar boicotar com a contratação de fura-greves, recrutou os amigos e formaram uma brigada noturna que partiu todos os candeeiros de rua da cidade em solidariedade para com os grevistas.

Aos 13, de acordo com David Sandinson, autor de uma das muitas biografias do revolucionário, aproveita os três meses de férias escolares e parte para a sua primeira grande aventura, uma viagem de bicicleta (à qual acrescentou um pequeno motor) pela Argentina, com os protestos da mãe e a bênção do pai.

Outra biografia, de Adys Cupull e Froilán González, coloca-o nesse mesmo período a trabalhar nas vindimas de Alta Gracia, que lhe rendem o primeiro ordenado, enviado escrupulosamente à avó Ana, conforme o prometido.

À escolha de medicina não foi alheio o fascínio que lhe despertava a sua asma crónica nem a morte da avó Ana, de cancro, que muito o impressionou, sobretudo porque cuidou dela nos últimos dias de vida.

No Liceu Dean Funes, escola liberal e progressista em Córdova, cidade para onde a família acaba por mudar-se, faz os estudos secundários. Aí encontra novos amigos, entre os quais os irmãos Granado.

Faz parte da equipa do Rugby Club, é exímio jogador de xadrez e continua leitor ávido, Freud, Marx, Engels, Baudelaire, Verlaine, Mallarmé, Anatole France, Neruda, Garcia Lorca, Jose Martí, Gandhi. A biblioteca, como o mundo, é palco da sua sede de descoberta, exploração, aventura.

Ao liceu, terminado com distinção apesar das inúmeras atividades extracurriculares a que não resiste, segue-se a faculdade. Cogita Engenharia, chega a matricular-se, mas acaba por decidir-se por Medicina. Opção a que não é alheio o fascínio que lhe desperta a sua asma crónica nem a morte da avó Ana, de cancro, que muito o impressionou, sobretudo porque cuidou dela nos últimos dias de vida.

Quando os pais, Celia e Ernesto, se separam, o filho decide ficar a viver com a mãe, mantendo uma relação muito estreita com o pai.

Pelo caminho, é considerado não apto para o serviço militar, mais uma vez por conta da sua condição de asmático. Corre o ano de 1947 e a capital Buenos Aires é a sua nova morada. Envolve-se em atividades antifascistas e opõe-se ao regime de Perón.

Conhece a jovem Berta Gilda Infante, Tita, membro da Juventude Comunista Argentina, de quem se torna grande amigo e com quem trocará correspondência por toda a vida. Leem textos marxistas e discutem política.

Celia e Ernesto separam-se. O filho decide ficar a viver com a mãe, mas mantém uma relação muito estreita com o pai.

Para quem lê a sua biografia é um mistério como tem tempo para tudo, estuda horas a fio, é bem sucedido nos exames universitários, namora, joga râguebi, futebol, xadrez, faz atletismo e natação, lê e escreve compulsivamente. Nas férias grandes parte à aventura pelo país, sozinho, só ele e a sua moto.

O ARGENTINO ERRANTE

1 de janeiro de 1950, parte de Buenos Aires numa Northon a que adapta um motorzito Cucchiolo para uma viagem pelas províncias do Norte da Argentina. Passa por Córdova, onde fica uns dias com os amigos Granado. Alberto, bioquímico feito, trabalha numa leprosaria, que Ernesto visita. A sua relação com os doentes é peculiar, sem medos, reservas ou precauções.

Continua a jornada e pelo caminho cruza-se com um vagabundo, conversam, bebem chá, ele conta-lhe a sua vida, que tinha sido barbeiro, em tempos. O jovem não encontra coragem para lhe negar a demonstração dos talentos perdidos e sai da experiência com um corte de tesouradas irregulares que lhe há-de render a alcunha de «Careca». 4500 quilómetros depois regressa a Buenos Aires. A sua foto é publicada numa revista, a pedido da empresa que comercializava o motor que utilizou.

No ano seguinte, a aventura é a bordo dos navios mercantes argentinos Florentino Ameghino e Anna G., como enfermeiro (tinha tirado a carteira profissional que lhe permitia exercer a profissão). Parte de um porto do Sul da Argentina rumo ao Brasil, Venezuela e Trindade e Tobago.

Com 22 anos, em 1950, estudante de Medicina. O aspeto bem comportado e penteado do rapaz da fotografia não deixa adivinhar que estava prestes a fazer-se à estrada numa viagem de mota pela América do Sul.

Nestas suas expedições, escreve muito, além de manter um diário de viagem, nunca esquece a família, envia cartas amiúde, um hábito que não o abandonará, nem nas suas inúmeras viagens pelo mundo como embaixador de Cuba nem nas matas do Congo-Belga, onde se juntou à guerrilha.

Em 1952 faz a viagem da sua vida, com o amigo Alberto Granado, à descoberta da América Latina. E de si próprio. De janeiro a agosto, na Northon 500 de Alberto, a Poderosa II, a pé, à boleia, percorre quase todo o Sul do continente americano.

Quando regressa escreve no seu diário: «Entendamo-nos: a personagem que escreveu estas notas morreu ao pisar de novo terra argentina, o eu que as organiza e trabalha não sou eu; pelo menos não sou o mesmo “eu” dantes. Esse vaguear sem rumo pela nossa “América em letras maiúsculas” mudou-me mais do que calculava.»

Em apenas seis meses provou que era capaz de tudo. em março de 1953 tinha concluído com sucesso os 12 exames que lhe faltavam para acabar o curso de Medicina.

Foi muito o que viu, viveu, sentiu, conheceu, não cabe nestas linhas, talvez não caiba em nenhumas, nem nas que o próprio escreveu, mas deu um livro – Viagem pela América, de sua autoria –, e um filme Diários de Che Guevara, do brasileiro Walter Salles.

Em apenas seis meses provou que era capaz de tudo, em março de 1953 tinha concluído com sucesso os 12 exames que lhe faltavam para acabar o curso. A 12 de junho a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Buenos Aires certifica que Ernesto Guevara de la Serna foi aprovado em todos os exames para graduação como doutor em Medicina.

Mas se alguém pensou que era desta que assentava e se dedicava à carreira, enganou-se. A 7 de julho parte para nova viagem pela América Latina, desta vez de comboio, com o amigo Carlos Ferrer, Calica, da estação central de caminhos-de-ferro de Buenos Aires para a Bolívia, onde assiste à subida ao poder do Movimento Nacionalista Revolucionário, que implementa medidas populares, entre as quais a Reforma Agrária.

Certa vez, ao atravessar uma plantação da United Fruit avistou um grupo de crianças subnutridas. «Che enfureceu-se, insultou todos, de Deus aos exploradores norte-americanos, e acabou com um ataque de asma que durou duas horas», descreve um amigo.

Revisita o Peru, Cuzco e as ruínas incas de Machu Picchu que tanto o haviam impressionado da primeira vez, com Alberto Granado. É preso em Lima e volta à Bolívia. Equador, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras e El Salvador são as próximas paragens.

Um amigo com quem se cruzou pelo caminho contará mais tarde que Guevara parecia sentir nas suas costas o peso da responsabilidade por todas as injustiças que ia testemunhando no seu percurso.

Certa vez, ao atravessarem uma plantação da United Fruit, companhia norte-americana, avistaram um grupo de crianças gravemente subnutridas. «Che enfureceu-se, insultou todos, desde Deus aos exploradores norte-americanos, e acabou com um sério ataque de asma que durou duas horas», descreve o tal amigo.

Na Guatemala, em 1953, faz diligências para trabalhar num hospital em El Petén, em plena selva, mas fazem depender o lugar da sua filiação no Partido Guatemalteco do Trabalho. Recusa.

Em dezembro chega à Guatemala, onde está em curso um processo revolucionário conduzido por Jacobo Arbenz. Conhece a peruana Hilda Gadea, exilada e membro do Partido Aprista, que virá a ser sua mulher e lhe dará a primeira filha, Hilda Beatriz (Hildita). «Tu és saudável, os teus pais são saudáveis, não há nada que nos impeça de casar», foi a primeira abordagem que teve como resposta um divertido não. Levaria ainda algum tempo a arrancar-lhe o sim.

À mãe escreve que esta será a sua última paragem, pretende ficar dois anos e dedicar-se à Medicina. Faz diligências para trabalhar num hospital em El Petén, em plena selva, mas fazem depender o lugar da sua filiação no Partido Guatemalteco do Trabalho. Recusa. O que não impede que a cada dia os ideais comunistas façam cada vez mais sentido na sua cabeça e influenciem as suas leituras, relações pessoais, preocupações, o destino que dá à vida.

«Na Guatemala poderia enriquecer, mas através desse mesquinho processo de revalidar o título, abrir um consultório e dedicar-me às alergias. Mas fazer isso seria a maior traição aos dois eus que lutam cá dentro, o social e o viajante», escreve à mãe pouco antes do ataque norte-americano que derrubou Arbenz e levou Ernesto a partir mais uma vez. Agora para o México. Escreve à amiga peruana Zoraida Baluarte: «Como vê, ainda estou vivo e juntei um novo país à minha coleção, com o que fica completa a série de países do continente latino-americano, faltando-me apenas as ilhas…»

«Penso que acabarei por entrar para o partido [comunista]. O que me impede agora é uma enorme vontade de viajar pela Europa. não poderia fazê-lo sujeito a uma disciplina rígida.», carta de Che à mãe.

À mãe descreve a nova vida: «Tenho todas as manhãs ocupadas no hospital; durante as tardes e aos domingos, dedico-me à fotografia e, à noite, estudo um pouco. Creio que já te contei que estou num bom apartamento e que faço comida e tudo o mais, e que posso tomar banho todos os dias pois há água quente à discrição. Como vês, neste aspeto estou mudado, de resto continuo na mesma, porque a roupa lavo pouco e mal e ainda não tenho que chegue para a lavandaria…»

E transmite as impressões sobre os novos amigos que fez: «Os comunistas não têm o mesmo sentido que o vosso de amizade, mas entre eles têm-no igual ou melhor. Constatei-o de forma bem clara, na hecatombe da Guatemala depois da queda, onde se assistiu a um salve-se quem puder – os comunistas mantiveram intacta a sua fé e o seu companheirismo e é o único grupo que lá continua a trabalhar. Penso que são dignos de respeito e que, mais tarde ou mais cedo, acabarei por entrar para o partido, e o que, mais do que tudo, me impede de o fazer agora é que tenho uma enorme vontade de viajar pela Europa e não poderia fazê-lo sujeito a uma disciplina rígida.»

A Europa só a conhecerá mais tarde, depois da vitória em Cuba, enquanto diplomata deste país. Não foi preciso cumprir a promessa que fez à mãe ao revelar-lhe que a sua «grande meta (irrenunciável)» continuava «a ser Paris e lá chegarei, ainda que seja preciso atravessar o Atlântico a nado».

Fidel Castro e Che Guevara, por volta de 1956, três anos antes da entrada vitoriosa em Havana.

Por enquanto, ainda está para conhecer Raúl e Fidel Castro. O que acontece em 1955 por intermédio de uma amiga cubana. Sobre esse encontro escreve: «Conheci-o numa dessas noites frias do México e lembro-me que a nossa primeira discussão foi sobre política internacional. Poucas horas depois, na madrugada dessa mesma noite, eu já era um dos futuros expedicionários.»

Fidel, por seu lado, recordava-o como «um estudioso do marxismo-leninismo, autodidata, cheio de convicções. Foi aprendendo com a vida, de tal forma que, quando nos encontrámos com o Che, já era um verdadeiro revolucionário; e, além do mais, um grande talento, uma grande inteligência, uma grande capacidade teórica…».

Em agosto do mesmo ano, Hilda revela-lhe que vai ser pai e casam, apadrinhados por Raúl Castro. A 25 de fevereiro de 1956 nasce a filha. «Avozinha: a cria é bastante feia, mas basta olhá-la para ver como é diferente de todas as criaturas da mesma idade, chora quando tem fome, mija com frequência, incomoda-a a luz e dorme quase o tempo todo; entretanto há algo que a diferencia imediatamente de qualquer outra criatura: o seu papá chama-se Ernesto Guevara», escreve à mãe.

Não corre o risco de se tornar um «aborrecido pai de família», como deixa claro à sua amiga Tita Infante. A maior aventura da sua vida está para breve.

RUMO À VITÓRIA

Missão: derrubar a ditadura de Fulgêncio Baptista. O movimento revolucionário iniciado a 26 de julho de 1953 com o falhado ataque ao quartel de Moncada não baixou os braços. Em 1956, no México, os futuros expedicionários do Granma, o navio que os levará a Cuba, um grupo de menos de cem homens, treina e prepara a campanha.

Che Guevara explica os seus planos aos pais. À preocupação da mãe reage com uma longa e dura missiva em que recusa o seu apelo à moderação e ao egoísmo e termina dizendo: «É certo que depois de tentar endireitar o que está torto em Cuba irei para outro lugar qualquer e é também mais que certo que, encerrado num qualquer escritório burocrático ou numa clínica para doenças alérgicas estaria lixado. Seja como for, penso que essa dor, a dor de uma mãe que entra na velhice e quer o seu filho vivo, é respeitável, que tenho obrigação de a ter em conta e, mais ainda, quereria muito poder atendê-la, e gostaria de estar contigo, não apenas para te consolar, mas também para me consolar das minhas esporádicas e inconfessáveis saudades. Beijos, velha, e prometo ir ver-te, se não houver novidade. Teu filho, Che».

Na Sierra Maestra, nem os constantes ataques de asma enfraqueceram a sua determinação, foi médico dos homens que comandava e das gentes de Cuba que foi encontrando ao longo da campanha, à traição reagia implacável.

A 25 de novembro o Granma parte para Cuba. A viagem é atribulada, desembarcam num mangal e caminham pela mata rumo à Sierra Maestra, todo o equipamento pesado perdido. Foram dois anos de luta de guerrilha duríssima, contra um exército muito mais forte, em homens e em armas. Lutou com coragem, sem medo da morte que tantas vezes se lhe cruzou no caminho, e nem os constantes ataques de asma enfraqueceram a sua determinação, foi médico dos homens que comandava e das gentes de Cuba que foi encontrando ao longo da campanha, à traição reagia implacável.

No terreno, Che Guevara revelou-se um grande estratega, o que lhe valeu a patente de comandante, em 1958. Uma «elite» de que faziam parte apenas Fidel e Raúl Castro, Juan Almeida e mais tarde Delio Gómez Almeida e Camilo Cienfuegos. E o improvável aconteceu. Na madrugada de 1 de janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Baptista Zaldívar fugia do país. A guerra estava ganha. O povo saiu à rua.

Entre 60 e 65 viaja por todo o mundo. Dá entrevistas, fascina multidões, é um orador brilhante, discursa em Nova Iorque, numa reunião das Nações Unidas, em defesa de Cuba e contra os ataques imperialistas a movimentos de libertação em vários pontos do mundo.

A 9 de janeiro chegam à ilha os seus pais e irmão, que não via há seis anos. Separa-se de Hilda Gadea, com quem mantém uma relação de amizade, e casa com a cubana Aleida March de la Torre, que lhe dará quatro filhos: Aleida (Aleidita), Camilo, Celia (Celita) e Ernesto (Ernestito).

Recebe a nacionalidade cubana e pela frente tem a construção de Cuba socialista. Muitas transformações a realizar e os acontecimentos a sucederem-se vertiginosamente. Che está no centro das operações. É nomeado ministro das Indústrias e responsável pelo Banco Nacional de Cuba. Trabalha incessantemente, mal para para comer: «Os almoços de trabalho demoram muito tempo, além disso não se pode falar de boca cheia», ironiza.

Entre 60 e 65 viaja por todo o mundo, em representação da revolução cubana. Dá entrevistas, fascina multidões, é um orador brilhante, discursa em Nova Iorque, numa reunião das Nações Unidas, em defesa de Cuba e contra os ataques imperialistas, sob a égide desta organização, a movimentos de libertação em vários pontos do mundo, como o Congo.

O FIM DA AVENTURA

Mas tudo isto não era o bastante. Já tinha dado o seu contributo para libertar um país do mundo. E os outros? As lutas que se travavam em todo o globo, precisavam dele. Ou ele precisava delas. Faz sua a missão de libertar o Congo.

«Sinto que cumpri a minha parte com a Revolução cubana, no seu território, e despeço-me de ti, dos companheiros, do teu povo que já é o meu. Apresento formalmente a renúncia aos meus cargos na Direção do Partido, ao meu cargo de ministro, ao meu grau de comandante, à minha condição de cubano. Nada de legal me liga a Cuba, só laços de outro tipo, que não podem romper-se como as nomeações. Outras terras do mundo reclamam o contributo dos meus modestos esforços. Eu posso fazer o que a ti está vedado pela tua responsabilidade à frente de Cuba, e chegou a hora de nos separarmos. Hasta la victoria. Patria o Muerte! Abraça-te com todo o fervor revolucionário. Che», é a carta de despedida que a 31 de março de 1965 escreve a Fidel. Também se despede dos seus pais e dos seus filhos.

«Creio na luta armada como única solução para os povos que lutam para se libertar e sou consequente com as minhas crenças. Muitos me dirão aventureiro, e sou-o, só que de um dos que arriscam a pele», em carta aos pais.

Aos pais diz: «Queridos Velhos: Creio na luta armada como única solução para os povos que lutam para se libertar e sou consequente com as minhas crenças. Muitos me dirão aventureiro, e sou-o, só que de um tipo diferente e dos que arriscam a pele para provar as suas verdades. Quero-vos muito, só que não soube expressar o meu carinho; sou extremamente rígido nas minhas posições e creio que por vezes não me entenderam. Não era fácil entenderem-me, mas acreditem em mim».

Aos filhos escreve: «Queridos Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto: Se alguma vez tiverem que ler esta carta, será porque já não estarei entre vocês. Quase não se recordarão de mim. O vosso pai foi um homem que agiu de acordo com o que pensava. Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito para poder dominar a técnica que permite dominar a natureza. Até sempre filhitos, espero todavia voltar a ver-vos. Um beijo grande e um abraço do papá».

O disfarce que usa na viagem para o Congo torna-o irreconhecível. Para o mundo Che desapareceu. Rapidamente a CIA põe a correr a notícia de que foi fuzilado em Cuba por se opor a Fidel Castro.

O disfarce que usa na viagem para o Congo torna-o irreconhecível. Para o mundo Che desapareceu. Rapidamente a CIA põe a correr a notícia de que Che foi fuzilado em Cuba por se opor a Fidel Castro. Este desmente, mas o boato persiste, ganhando cada vez mais força à medida que o tempo passa sem notícias. Castro resiste a tornar pública a carta de despedida do companheiro, mas acaba por fazê-lo.

Do Congo, chegam relatórios periódicos para o Comandante e cartas para a filha Hilda. Passados sete difíceis meses a missão foi abortada. Falhou. Mas Che não desistiu.

Regressa a Havana, visita os filhos, sem revelar a sua identidade, e parte de novo para outra aventura. A última. Na Bolívia.

Fontes: Che Guevara, David Sandinson, St. Martin’s Griffin; Che Guevara Cidadão do Mundo, Adys Cupull e Froilán González, Campo das Letras; Os meus anos com o Che – Da Guatemala ao México, Hilda Gadea, Dinossauro Edições; Viagem pela América, Che Guevara.

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