OPINIÃO

Castros: a empresa portuguesa que ilumina natais em todo o mundo

Os irmãos Castros iluminam o Natal de várias cidades do mundo com esculturas de luz. A empresa de Vila Nova de Gaia trata de tudo, da conceção à montagem e desmontagem. Pelo meio, adapta canas de pesca, espuma de colchões, redes usadas nas canalizações ou bolas de brindes para construir as decorações exclusivas. A história começou há 96 anos numa festa popular.

Texto Sara Dias Oliveira | Fotografias Maria João Gala/Global Imagens

Há vários natais dentro e fora do país para decorar e iluminar em ruas, praças, avenidas, rotundas, e todos os minutos contam. Revestem-se estruturas metálicas, há luzes que se agarram a barras de alumínio, peças que se cortam e soldam na oficina de serralharia, um Pai Natal em esqueleto de ferro dividido em partes, tiras brilhantes com luzes de várias cores, um castelo gigante e luminoso que vai partir para Viseu, um urso polar e esquimós preparados para Vila Nova de Gaia.

Há muita coisa a acontecer. E há materiais de outras indústrias que se adaptam a esculturas exclusivas de Natal como as multifacetadas braçadeiras brancas, canas de pesca, espuma de colchões, bolas de plástico usadas para brindes, festões coloridos, mangas alimentares, componentes usados nas canalizações. Peças que se ajustam a outras funções. Tudo é possível. Tudo se adapta, tudo se transforma. Haja imaginação.

«Agora todo o espaço é pouco», diz Jorge Castro, licenciado em Direito, mestre em Gestão, um dos proprietários da Castros Iluminações Festivas, S.A., quando passa pelo pavilhão de dois pisos e sete mil metros quadrados de área coberta em São Félix da Marinha, Gaia. É daqui que partem objetos que iluminam o Natal em várias partes do mundo, como Londres, Paris ou Bruxelas.

A Castros é a maior empresa do setor em Portugal. Oitenta trabalhadores, setenta por cento de presença no mercado externo, uma faturação de cinco milhões de euros no ano passado. Um negócio familiar com 96 anos de história.

O enorme pavilhão parece, na verdade, pequeno. O Natal está à porta, a azáfama é grande, há caixotes de materiais, cabos de fios, testam-se iluminações. Numa desarrumação aparente, cada trabalhador concentra-se no que tem de fazer. Antes de as luzes acenderem nos lugares programados, há muito trabalho pela frente. «Adequar os nossos projetos para a rua é um processo muito complexo, uma logística difícil», adianta o empresário que divide os destinos da companhia com o irmão António José, licenciado em Gestão, que está no Dubai.

O trabalho exige gente de vários setores. Engenheiros, mecânicos, serralheiros, eletrotécnicos, designers, funcionários que montam as estruturas no interior, mais uma equipa de logística no exterior com camiões e gruas. A montagem obriga a muita atenção.

Indicações para aqui, indicações para acolá, um metro acima, um metro abaixo, cabos, elevadores. É preciso que todas as peças encaixem, os objetos fiquem conforme planeado e o Natal se acenda sob mil formas. Estrelas, flocos de neve, bolas, diamantes, pais natais, renas, tetos de luz, anjos, guarda-chuvas, grinaldas, castelos de gelo, cavalos do circo, pavões, pinhas.

A Castros é a maior empresa do setor em Portugal, tem oitenta trabalhadores, setenta por cento de presença no mercado externo, uma faturação de cinco milhões de euros no ano passado. É um negócio familiar com 96 anos de vida, sem nunca sair da mesma família. E, neste Natal, volta a iluminar cidades portuguesas e estrangeiras como Lisboa, Londres, Paris, Cannes, Dubai, Dakar, Bruxelas, Viseu, Vila Nova de Gaia, entre outras.

E, mais uma vez, volta a tratar de tudo: conceção, montagem, desmontagem. Serviço chave na mão, aluguer de estruturas natalícias que voltam à base quando as luzes se apagam.

Quase tudo se transforma como peças de lego que encaixam e desencaixam e que se reaproveitam para novas composições. Ou então, produzem-se elementos novos, conforme cada desenho, cada projeto. A réplica do castelo de Neuschwanstein na Baviera foi um dos pedidos mais inusitados e uma árvore de Natal com 130 metros de altura no Brasil, a maior estrutura feita até hoje.

«O design é o que tem feito a diferença. A tecnologia está banalizada, disponível a toda a gente. A grande aposta foi no design, na qualidade do serviço», diz Jorge Castro.

A empresa diferencia-se pelas iluminações exclusivas que desenha e constrói. Não há catálogo para escolher o que já foi feito, apenas um portefólio para mostrar exemplos e capacidades na arte de iluminações festivas e que não se restringem ao Natal. «É isso que nos diferencia, é tudo desenhado à medida do cliente, tudo personalizado e exclusivo», sublinha Jorge Castro.

Há ideias que se lançam, temas que se estudam, propostas que se fazem, candidaturas que se apresentam. A Castros tem um departamento criativo com nove designers de várias áreas num open space no primeiro andar do pavilhão. Numa parede há imagens de instalações luminosas de várias partes do mundo que podem funcionar como gatilhos para a inspiração. No meio da sala, pufes coloridos, um espaço para criar, para puxar pela imaginação.

«O design é o que tem feito a diferença. A tecnologia está banalizada, disponível a toda a gente. A grande aposta foi no design, na qualidade do serviço», diz Jorge Castro. «É muito suor, muito esforço, é trabalhar, trabalhar, trabalhar.» Neste momento, as tendências viram-se para o retro e a inspiração da Castros anda por esse universo. «Há também uma parte emocional e nostálgica do Natal, e aí o espólio é muito grande», acrescenta.

Quando as luzes se acendem, mais nada importa. «É isso que nos alimenta o ego, aquele momento mágico em que se liga a luz e se ouve as pessoas a bater palmas. Em alguns momentos, criamos magia», diz Jorge Castro.

Ângela Barroso, diretora criativa da Castros, respeita a identidade de cada designer da sua equipa, estimula exercícios criativos, vai para a rua recolher opiniões das pessoas sobre as iluminações de Natal. Porque a criatividade pode vir de todos os lados, da roupa, do mobiliário, dos brinquedos das crianças, de uma conversa. «Há uma parte técnica muito associada à parte criativa», diz. Uma não vive sem a outra.

E quando as luzes se acendem, mais nada importa. «É isso que nos alimenta o ego, aquele momento mágico em que se liga a luz e se ouve as pessoas a bater palmas, e aí esquecemos tudo. Em alguns momentos, criamos magia», afirma Jorge Castro.

Há dias que não se esquecem. Foi o que aconteceu em Abidjan, na Costa do Marfim, poucos dias antes do Natal de 2011. Jorge Castro estava lá com alguns funcionários da empresa para inaugurar as iluminações da época festiva de final do ano. «No momento em que ligámos a luz, as pessoas saíram à rua, pegaram nos nossos empregados e atiraram-nos ao ar com uma felicidade e uma alegria que pareciam impossíveis para aquele povo que tinha acabado de sair de uma guerra. Arrepiei-me nesse dia», recorda.

Vista aérea da Regent Street, em Londres, iluminada pela empresa portuguesa dirigida pelos irmãos Castro.

A Castros sondou vários mercados. A primeira experiência de uma estrutura física fora de Portugal aconteceu em 1996 com um pequeno escritório em Barcelona. Foi uma entrada em grande. O projeto para iluminar o Natal da cidade catalã venceu os outros concorrentes que se tinham apresentado a concurso na câmara.

«O nosso projeto foi logo o vencedor do ponto de vista do design e da tecnologia. Apresentámos a tecnologia da mangueira e das luzinhas pequenas quando ainda usavam bombilhas de 25 watts.» A empresa portuguesa ficou responsável por iluminar as Ramblas. «Essa nossa intervenção levou à elaboração de um normativo para regulamentar as iluminações festivas em Barcelona», revela.

A tecnologia usada pela Castros foi o motor desse novo regulamento. Mas o escritório tinha os dias contados. Muita projeção, muitos telefonemas, a pergunta mas «porque é que vocês estão aqui?». E o clique aconteceu. «Não tínhamos capacidade de resposta e saímos de Barcelona.»

Tudo começou com fogo-de-artifício e uma grande desgraça. O carpinteiro António Araújo e Castro geria um pequeno negócio de pirotecnia, em Espinho, no início do século XX. Um acidente destruiu-lhe a empresa e o seu irmão morreu. O empresário decidiu acabar com a pirotecnia e lançar-se nas ornamentações festivas.

Neste momento, fora do país, a Castros tem uma empresa no Dubai com cinco pessoas. António José Castro, o outro dono da empresa, gere essa unidade e trata da logística para iluminar o Dia da Independência, ontem celebrado, e vários festivais de compras e de gastronomia desse país.

Tudo começou com fogo-de-artifício e uma grande desgraça. O carpinteiro António Araújo e Castro geria um pequeno negócio de pirotecnia na Rua 22, em Espinho, no início do século XX. Um grave acidente pirotécnico destruiu-lhe a empresa e o seu irmão morreu. O empresário decidiu acabar com a pirotecnia e lançar-se nas ornamentações festivas com arcos de madeira, estreando-se na festa da Nossa Senhora da Saúde nos Carvalhos, em Gaia, em 1921. Era o pontapé de saída dos Castros, numa altura em que as decorações ainda eram iluminadas por velas.

Nos anos 1950, a filha Maria Aurora de Castro tomou as rédeas do negócio depois de comprar a quota a um irmão. Uma mulher empresária, com faro apurado, inteligente, a trabalhar num ambiente predominantemente masculino. Continuou o legado do pai e a decorar e iluminar festas e romarias pelo país em novas instalações, ainda em Espinho. A iluminação elétrica começava já a ser usada nas festividades locais. E Maria Aurora aguentou-se no mundo empresarial.

Jorge Castro é um dos atuais proprietários da Castros Liluminações Festivas, S.A.. A quarta geração de um negócio de família que já leva 96 anos de história.

No início da década de 1970, a terceira geração entrou na empresa. António Jorge de Castro, filho de Maria Aurora, e neto do fundador, é o homem que se segue com uma imensa vontade de inovar. «O meu pai foi um visionário. É uma pessoa curiosa por natureza e esse ímpeto de curiosidade leva-o à ação», garante o filho Jorge.

Depois do Natal, fazia as malas e viajava pelo mundo durante duas semanas para ver o que estava a acontecer noutros lugares, em Londres, na Suíça, na Alemanha – e, por vezes, levava os filhos consigo. «Inspirava-se no que via e acabou por fazer a diferença.» E logo no início da sua gestão, alargou a atividade da empresa às iluminações de Natal, que, na altura, se restringiam a Lisboa e ao Porto, contratou arquitetos para desenhar projetos, conseguiu iluminar a Feira Popular de Lisboa.

Numa das suas viagens, numa feira em Hong Kong, deparou-se com uma tecnologia arrojada. «O meu pai foi a primeira pessoa a trazer a mangueira de luz para Portugal. Nos motivos decorativos, podíamos substituir as lâmpadas pela mangueira, e foi um sucesso.»
Em 1987, introduziu as microlâmpadas de baixo consumo, poupando energia e construindo esculturas de luz mais bonitas e arrojadas. Já havia computadores na empresa para tratar projetos e, na década de 1990, surgiam as peças de volume e a fibra ótica nas decorações luminosas.

O pai dos irmãos Castro, António Jorge, tinha estabelecido como objetivos iluminar Londres, Dubai, Mónaco e Nova Iorque. As primeiras duas já estão. «Faltam-nos duas. Ainda não tentámos, ainda não é o tempo», comenta Jorge Castro.

A quarta geração dos irmãos Jorge e António José, filhos de António Jorge, chegou à empresa em 1995. Todos Castros, todos com a mesma vontade de inovar. Em 2000, mudaram de instalações de um edifício junto ao Parque de Campismo de Espinho para modernas instalações em São Félix da Marinha, em Gaia.

Em 2004, os irmãos introduziram a tecnologia LED nas iluminações festivais, mais um passo na poupança de energia. E, em 2005, chegou a primeira distinção internacional no concurso Thionville Lumières, em França, distinção que voltariam a receber no ano seguinte, por inovarem com iluminações ao nível do chão, junto das pessoas, quando em França as decorações do género estavam todas no ar. Em 2010, o reconhecimento no LED – Light Exhibition Design, em Milão. Um prémio de design com o motivo Nuvem, usando um polímero com decoração e presença diurna e iluminação LED no interior durante a noite.

O pai dos irmãos Castro, António Jorge, tinha estabelecido como objetivos iluminar Londres, Dubai, Mónaco e Nova Iorque. As primeiras duas já estão, já fazem parte da carteira de clientes da empresa. «Faltam-nos duas. Ainda não tentámos, ainda não é o tempo para isso», comenta Jorge Castro. Mas a vontade de sobrevoar o Atlântico e surpreender o mercado norte-americano anda por ali.

Natais e outras festas e festivais

Neste ano, a Castros ilumina os natais de Lisboa em 38 ruas, praças e avenidas da capital e com uma árvore de Natal na Praça do Comércio, e ainda Vila Nova de Gaia, Maia, Viseu e Aveiro. No estrangeiro, está em Londres na Oxford Street e Bond Street, em Paris no Quartier de La Défense, em Nice na zona central da cidade, em Cannes junto ao palácio, e em várias ruas de Bruxelas, Luxemburgo, Dubai, Dakar e ainda em Damako, capital do Mali.

O Natal é um ramo da Castros que se dedica também a iluminações para festas e romarias populares, casamentos, empresas, dias nacionais e da independência, feiras de várias áreas, exposições, festivais de verão, escolas, hotéis, hospitais. Em qualquer lugar onde se queira um toque de luz. Ilumina a Feira de São Mateus em Viseu, a festa da Nossa Senhora dos Remédios em Lamego, o Nos Primavera Sound, entre outros eventos.

A empresa sofreu com a crise de 2010. Com restrições orçamentais, várias câmaras deixaram de investir nos ornamentos natalícios. «Passámos do 80 para o zero». De 16 cidades portuguesas iluminadas em 2009 passou para 10 no ano passado, este ano são cinco. Antes dos apertos financeiros, Porto, Maia, Matosinhos, Figueira da Foz, Coimbra, Cascais, Sintra, Évora, Albufeira, eram alguns dos seus clientes. No Porto, já não apresentam propostas.

«Existem estudos feitos por universidades e outras entidades acerca do impacto económico positivo para a economia local com a iluminação das ruas das cidades, quer em Portugal quer no estrangeiro. Na Bélgica, existe um estudo que revela que as ruas iluminadas têm um volume de negócios superior às outras não iluminadas em cerca de 60%. Para além desta vertente, tem um impacto muito positivo no espírito das pessoas, numa dimensão mais humana», refere Jorge Castro.

Entre 2007 e 2009, a Castros chegou a ter 120 trabalhadores, agora tem 80. E, com menos clientes no país, olhou para outras direções. «Procurámos novos mercados geográficos, outro tipo de eventos». E novas oportunidades surgiram.

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