OPINIÃO

Carminho: «Este disco nasce de um convite da família de Tom Jobim e isso é maravilhoso»

«Carminho canta Tom Jobim» é um disco único, talvez comparável àquele que Amália Rodrigues gravou na Broadway em 1965. A cantora visitou a obra do compositor brasileiro a convite da família e o resultado é imenso. Tão grande, que ganha asas de tournée internacional.

Entrevista de José Manuel Diogo | Fotografia de Leo Aversa

Carminho e Jobim embarcam numa viagem única para cantar em muitos dos mais emblemáticos palcos da Europa. Os passageiros são os músicos da Banda Nova, que sempre acompanhou um dos mais extraordinários escritores de canções de sempre, e a voz grave e única de uma das maiores intérpretes portuguesas.

A Felicidade prometida à Meditação, d’O Que Tinha De Ser uma Inútil Paisagem ao Retrato em Preto e Branco d’O Grande Amor e Don’t Ever Go Away, são as canções de Jobim que embalam a alma da viagem.

A partida aconteceu a dia 6 de novembro na emblemática Konzerthaus, em Viena, na Áustria, e a chegada será, quase um mês depois, a Portugal, com dois concertos «únicos» com convidados especiais, do lado de lá do oceano, a 30 de novembro no MEO Arena e no dia 2 de dezembro no Multiusos de Guimarães.

Esta é uma tournée que nunca mais vai repetir-se. Qual é a história, como é que nasce?
Começa no fim de uma história que por sua vez tem início com o meu segundo disco de fado e a minha ida de forma mais profissional para o Brasil. Eu já conhecia o Brasil e já tinha tido contacto com alguns artistas, mas, de repente, quando gravo o meu disco Alma, que editei no Brasil, e tive a honra e o privilégio de gravar com três dos artistas que mais admirava e admiro – Chico Buarque, Milton Nascimento e Nana Caymmi – desenvolvi uma relação que se foi aprofundando durante as minhas várias idas e vindas ao Brasil. Foi no contexto dessas gravações que comecei a fazer vários concertos dos meus discos de fado no Brasil.

Como aconteceu esse encontro?
Foi quando Milton Nascimento veio fechar as Festas de Lisboa, na Alameda. Quis convidar alguns artistas para estar com ele em palco. Convidou a Ana Moura, o António Zambujo e a mim. A relação entre nós os dois tornou-se realmente profunda e depois desse encontro ao vivo, convidei-o para gravar o meu disco e ele aceitou. Mais tarde, ele veio a Portugal e fizemos um concerto a meias. O Milton faz esse concerto, no âmbito do ano «Portugal Brasil, Brasil Portugal» cá em Lisboa, e convidou-me de novo, mas aí já era um concerto em que os dois trocámos repertórios e foi realmente muito bonito. A aventura continuou e eu fui de novo ao Brasil, onde, mais tarde, o Chico Buarque me convidou para fazer parte de alguns concertos em que ele participa – sempre no contexto da «Mangueira», a escola de samba dele. Eu fui e fui conhecendo mais pessoas. Conheci o Caetano Veloso, e na altura surge o meu terceiro disco, o Canto.

Foi gravado em Portugal ou no Brasil?
O Canto é todo feito cá [Portugal], sendo que tem um inédito do Caetano Veloso com o seu filho mais novo, Tom e com o César Mendes, e tem um original de Marisa Monte com Arnaldo Antunes que acabámos por cantar as duas que se chama Chuva no Mar. Essas relações vão crescendo e quando são verdadeiras e os encontros são realmente fruto de uma identificação, de uma parceria honesta e de uma verdade, criam-se amizades. As amizades dão fruto e dão continuidade e então isso fez com que eu voltasse lá bastantes vezes de uma forma descomprometida.

Este disco, no fundo, nasce de um convite, um desafio, da família de Tom Jobim, e isso é maravilhoso.

Quando dizemos Brasil, dizemos Rio de Janeiro?
Podemos dizer Rio de Janeiro nessas amizades e nesses encontros, mas depois, em termos de concertos, um bocadinho por todo país: São Paulo, Norte, Sul, Minas Gerais… As relações com estes artistas foram crescendo de uma forma natural, em que isso pode ou não fazer surgir novos projetos, e por acaso surgiram. Quando a Marisa Monte veio fazer os concertos dela em Portugal, convidou-me para fazer parte deles. Fizemos muitos repertórios juntas e começámos a compor juntas também e nessa vinda da Marisa fiz-lhe o convite para participar no disco que então estava a fazer. Nessas idas e vindas, tivemos muitos encontros para cantar de forma descomprometida, sem que resultasse necessariamente num objeto artístico, só um encontro de amigos.

E como é que surge a ideia de cantar Jobim?
Num desses encontros, onde se canta sempre muito, eu estava a cantar várias canções de Tom Jobim – de que gosto muito e que sempre ouvi a minha vida inteira, desde pequena, desde das novelas – e estavam lá a Ana Jobim (que foi casada com Tom Jobim) e a Cátia do Biscoito Fino (editora que edita a maior parte destes artistas) e de repente, falando de uma forma descontraída, elas disseram:
— Porque é que você não grava um disco com o repertório de Tom Jobim? Vamos falar com o Paulinho [Braga].
Entretanto, conheci o Paulinho e ele disse:
— Você tem de gravar um repertório de Tom Jobim.
Foi um convite, um desafio, da família de Tom Jobim.

Como se sentiu quando é a própria família de Tom Jobim a pedir para fixar a obra dele?
No início, achei que fosse algum entusiasmo do momento, que foi ótimo e gratificante, mas que é ali, num encontro de amigos, sem interesses e expetativas. E eles são muito entusiasmados. Nós conhecemos os brasileiros e sabemos que eles gostam de uma festa, de um desafio e de um sonho; e isso é maravilhoso, mas nem sempre quer dizer que vá concretizar-se. Na minha cabeça, fiquei entusiasmada, mas preciso de dar passos seguros, como sempre dou nas minhas decisões mais importantes. E isso, de facto, seria uma decisão importante que teria de ser melhor pensada por mim. Teria que ser mais do que fruto do entusiasmo. Pensei bastante e depois conheci o Paulinho Jobim que me entregou o repertório do Tom Jobim para eu escolher. Foi esse o momento em que realizei que não só eles estavam a falar a sério, como eu estava efetivamente consciente que aquilo iria acontecer e que eu teria de trabalhar de uma forma muito concentrada e direcionada para um resultado.

São quantas canções?
14 canções.

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Do repertório de onde saíram estas canções, foi possível ouvi-las todas até chegar à escolha final?
O repertório todo tinha quase 400 canções. Não foi possível ouvi-las todas porque algumas coisas são bandas sonoras para filmes ou publicidades. Outras são de facto universais, que sabemos que queremos gravar ou que não queremos cantar, por alguma razão.
O critério foi a minha sensibilidade, perceber o que podia interpretar de uma forma genuína e honesta, com aquela que é a minha linguagem e a minha identidade, no sentido de tornar aqueles temas também um bocadinho meus. Para poder incluir também um bocadinho que fosse da minha energia e da minha verdade no repertório que já é conhecido por toda a gente e já foi gravado por tantas pessoas pelo mundo inteiro.

Um desafio.
Sim, é um desafio. E decidir fazê-lo foi fruto de muito pensamento, mas a partir do momento em que tomei a decisão e recebi o repertório, comecei a trabalhar intensamente nele e nas escolhas a fazer. O Vinícius França, o Paulinho Jobim e o Chico Buarque ajudaram-me bastante, foram-me dando alguns conselhos. Decidi que havia um critério importante: eu escolheria os temas escritos num português que me fosse mais familiar, num sotaque e num tempo verbal e pessoal a que o meu sotaque se adaptasse mais naturalmente. E isso foi decisivo para escolher algumas canções e excluir outras.

Para mim Tom Jobim é dos cinco melhores compositores do século XX, do mundo inteiro.

O ritmo, as letras? Tudo junto? O que é que a Carminho pensou que podia acrescentar a uma determinada música para ela ser mais próxima daquilo que costuma fazer?
A verdade é que tinha que me identificar com os temas. A primeira seleção deu 40 temas, a segunda deu 20 e depois tivemos de excluir alguns (mas de facto excluir canções de Tom Jobim não é nada fácil). Posso dizer que o primeiro critério foi não ser o repertório mais ouvido de Tom Jobim, assim o imediatamente mais conhecido – a Garota do Ipanema ou o Desafinado. Chegámos então às 14 canções, que passou não só por essa questão do meu sotaque, do meu português e da minha identificação com o português que os poetas escreviam como por escolher as parcerias que Tom Jobim teve com vários poetas como Vinícius de Moraes, Chico Buarque… O próprio Tom Jobim escreveu poesia e musicou a sua poesia.

O Jobim é acima de tudo compositor…
Também escreveu algumas coisas, escrevia muitíssimo bem, mas recorria a parcerias com outros poetas. Cantava, mas ele basicamente, sentia-se um compositor. Para mim é dos cinco melhores compositores do século XX, do mundo inteiro. Não é propriamente dúbia a posição dele no mundo. Mas, portanto, a ideia foi não me resumir a um poeta só, ficar com três ou quatro coisas dele com Vinícios de Moraes, temas maravilhosos que fizeram juntos, mas poder fazer uma seleção também mais heterogénea dessa lírica. Portanto, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque, Dolores Duran… poetas que fizeram lírica e poesia para as músicas de Tom Jobim ou vice-versa.

Mas também houve critérios de época.
Sim, coisas mais antigas, que ele compôs nos primeiros tempos, e outras mais recentes. E por fim uma de Dolores Duran que foi traduzida para inglês, da altura em que Sinatra gravou Jobim, e algumas das canções dele foram traduzidas para inglês. O Por Causa de Você é a minha canção preferida de Jobim, mas achei que a forma como estava escrita não se encaixaria tanto na minha maneira de dizer o português e não me sentiria tão confortável e, por isso, escolhi a versão em inglês Don’t Ever Go Away, que é como se chama o tema da Dolores Duran.

Senti que fazia sentido convidar algumas pessoas que me deram Tom Jobim, de várias formas: Chico Buarque, Maria Bethânia e Marisa Monte.

Carminho Canta Tom Jobim tem três convidados especiais.
Senti que fazia sentido convidar algumas pessoas que me deram Tom Jobim, de várias formas. Fui tentando construir na minha cabeça uma personagem que não conheci pessoalmente, infelizmente, mas de quem tenho uma ideia e sobre quem tenho uma forma de pensar. Somando às canções e às coisas que sinto sobre ele, as histórias que me foram contando. Essas pessoas foram Chico Buarque (que me contou muitas histórias e deu-me tantas coisas boas sobre Tom Jobim, sem o Chico saber, conheci muito de Jobim através dos discos dele); a Maria Bethânia, por ser uma intérprete do outro mundo, por, na minha opinião, ter muito que ver com o fado, porque tem uma forma muito intensa de encarar a palavra e a lírica, e porque acho que interpreta Tom Jobim de uma forma muito particular; e a Marisa Monte, por ser uma pessoa muito próxima de mim, que tem também origem na raiz do seu país musical, que é o samba, mas que, de uma forma contemporânea, fresca e nova, vai-se transformando e vai trazendo coisas novas à sua música.

Um pouco como acontece com o fado em Portugal, com a Carminho?
Não com o fado, mas com as minhas escolhas musicais. Eu canto fado, mas este disco é de bossa nova. Eu não estou a cantar fado, estou a interpretar um compositor brasileiro inacreditável. Um dos melhores compositores do mundo, na minha opinião. Tenho essa honra, mas sempre com a minha origem, com a minha genética, a minha génese, que está no fado.

Sente que está a acrescentar alguma coisa às músicas de Tom Jobim?
Não posso dizer isso, não me compete a mim dizer isso. Sinto que sou honesta quando o faço, pensei bem que no que queria fazer e tive uma ajuda fundamental e indispensável, sem a qual talvez não me tivesse atrevido a gravar este disco. Este disco é todo gravado pela banda que acompanhou Tom Jobim nos últimos 10 anos da sua vida, chamada Banda Nova, que nasceu em 1984, o ano em que eu nasci. Uma coincidência engraçada. É composta pelo seu filho – Paulo Jobim, pelo Jaques Morelenbaum (toca violoncelo e fez muitos dos arranjos de Tom Jobim), pelo Paulinho Braga (baterista) e Daniel Jobim (neto de Jobim), que apesar de não ter feito parte dessa banda ao vivo na época, estava em todos os ensaios, acompanhou… Não fez parte do palco de Tom Jobim, mas fez da vida do avô. E se calhar bebeu mais do que muitos deles, porque esteve intensamente a aprender com ele. Estes músicos são talvez aqueles que melhor conhecem a obra de Tom Jobim, aquilo que já foi feito e aquilo que ainda não terá sido feito.

A generosidade deles foi deixar-me ser quem sou e interpretar as canções de uma forma natural e genuína, mas sempre com aquela segurança de que estariam lá para me guiar.

Eles davam palpites? Faz mais assim…
O disco foi produzido pelo Paulinho e por mim. Ele obviamente na parte musical, com os arranjos, para que fossemos fiéis às composições de Tom Jobim e à própria energia que depositou nas suas composições. De repente, eles davam-me a liberdade de trazer as ideias mais estapafúrdias e a sensibilidade que me levava a sugerir a mudança de alguns arranjos de algumas canções que pudessem também trazer algo meu e algo mais parecido com a minha linguagem a um disco de música popular brasileira.

E há uma portuguesa que grava um disco de música popular brasileira…
Exatamente. Para que isso não se tornasse algo impessoal e eu não fosse envolvida por completo por aquela canção, descaracterizando-me a mim… a generosidade deles foi também deixar-me ser quem eu sou e interpretar as canções de uma forma natural e genuína, mas sempre com aquela segurança de que estariam lá para me guiar e aconselhar. Se calhar, até para dizer: «Carminho vai em frente, não tenhas pudor, sugere e vamos fazer coisas novas porque o Tom era também muito livre. Não vamos ficar presos ao que já foi feito. Sugere e faz. Vamos juntos fazer algo novo».

A tournée «Carminho canta Tom Jobim» terá oito concertos no resto da Europa e termina da melhor maneira, com dois concertos em Portugal.

Isso é fantástico.
Não sei se algo foi feito de novo, mas estou muito feliz com este disco e estou muito orgulhosa de os ter comigo. Foi muito difícil reuni-los todos numa tournée, porque implica conjugar a disponibilidade de todos os artistas e das pessoas que fazem parte dessa estrutura, mas também os timings, as salas, os lugares onde vamos. É uma coisa natural de estrada que os músicos fazem, mas estes em particular vivem do outro lado do mundo e virmos todos para a Europa e fazermos este disco, que é um momento, mais ou menos um breve suspiro, no meio de uma carreira de fado e de música portuguesa. É um bocadinho um desvio à minha linguagem, mas nunca saí daquilo que é a minha genética e isso foi importante. Agora fazer esta tournée, escolher estas dez salas… Queríamos fazer algo realmente especial e único para dar às pessoas e que provavelmente não vai repetir-se, porque os caminhos de cada um também continuam, eles não são os meus músicos. Mas escolhemos dez salas inacreditáveis salas na Europa e é uma honra poder atuar nelas. São as minhas 10 salas europeias preferidas. Em três delas já tive oportunidade de canta: Colónia, Viena de Áustria e Paris. São salas icónicas como Barbican, em Londres, Konzerthaus, em Viena, Philarmonic de Colónia…

É um disco que é feito para os amantes de música, com as músicas de Jobim, nas melhores salas da Europa…
O meu percurso internacional, não só com este projeto, passa por essa a lógica das salas e da sua programação, não só na Europa como no mundo. Esse é o trabalho que tenho desenvolvido nos últimos dez anos. A tournée «Carminho canta Tom Jobim» terá oito concertos no resto da Europa e termina da melhor maneira, com dois concertos em Portugal. No dia 30 de novembro no MEO Arena, em Lisboa, e no dia 2 de dezembro, no Multiusos de Guimarães. Esses concertos fecham a tournée, são para os portugueses. É significativo fechar em Portugal, o meu país. Quis trazer qualquer coisa ainda mais especial a estes dois concertos e, por isso, lancei o desafio à Marisa Monte e ela aceitou, o que muito me honra. Não percam.

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