OPINIÃO

Autarquias e condomínios, a mesma luta

A democracia começa e acaba à nossa porta. E por isso mesmo devíamos prestar mais atenção às eleições locais.

As eleições autárquicas, em Portugal, são assim como uma espécie de reunião de condomínio em ponto grande. Discute-se muito, perde-se muito tempo, as pessoas gostam muito de falar e ser ouvidas, mas gostam pouco de ouvir, e de dizer coisas ainda menos. Toda a gente que já participou numa reunião de condomínio e perdeu nelas longas horas da sua vida, deve perceber imediatamente a analogia.

No caso das reuniões de condomínio quem trama o debate são egos inflados, normalmente com pouco palco para se mostrarem a não ser aquele, entre o 5º frente e o 3º esquerdo, conforme a administração vai mudando.

No caso das campanhas eleitorais para as eleições autárquicas, normalmente quem trama o debate são os partidos políticos, pouco interessados no debate das verdadeiras questões que afetam as populações localmente, e mais no macro xadrez político que se há-de redesenhar depois destas eleições – e ter as suas consequências.

No que isto dá, já sabemos. As atas das reuniões de condomínio acabam por ser relatos mais ou menos ocos do que se passou, com palavras caras e pouco sumo.

Há exceções, mas a maior parte do debate que passa das eleições autárquicas para os meios de comunicação social é também bastante superficial, causa e efeito desse megafone da política nacional que ecoa sobretudo em grandes centros urbanos como Lisboa e Porto.

E mesmo quando a política local se acentua, seja por haver personalidades que se evidenciam seja porque há uma contenda demasiado renhida, mais uma vez o que se discute são essas personalidades, uma ou outra polémica.

Querem uns exemplos? Nas reuniões de condomínios normalmente fala-se de obras de fachada, ou até de formatos de janelas, mas pouco se discute, por exemplo, do que fazer para reforçar os prédios contra a eventualidade (mais do que provável) de um grande sismo em Lisboa.

Nas campanhas para as autárquicas as propostas estão todas lá, nos programas, escondidas, mas raramente se discutem as coisas que eventualmente vão acontecer e que podem mudar as nossas vidas – é até giro ver, mais tarde, a reação dos munícipes a coisas que estavam claras e previstas nesses programas e que eles ignoravam, naquele estilo de ignorância que pouco aproveita.

E, no entanto, podia ser tudo tão diferente, das reuniões de condomínio às eleições autárquicas. O poder local é o que mais influência direta tem na vida das pessoas – pela simples razão que está próximo. Isto não é um pleonasmo, ou uma tautologia. É mesmo assim.

Um buraco à nossa porta incomoda-nos bem mais e mais rapidamente do que benefícios pessoais nos traz a redução do défice – e estou a usar um exemplo extremo porque o défice até tem bastante importância para nós.

O enorme poder das redes e plataformas sociais que hoje dominam as nossas vidas e a comunicação reside no facto de serem plataformas mundiais, sim, mas viverem na «hiperlocalidade». Criam comunidades locais que se autoalimentam, de amigos que se conhecem, a pessoas que passam a ser amigas através delas – sempre partindo do princípio da proximidade.

É aqui, na nossa casa, no nosso prédio, na nossa rua, na nossa freguesia e na nossa cidade que começa e acaba a política e onde a democracia se vive na verdadeira tradução moderna da palavra. Ou devia ser.