OPINIÃO

O ataque do pombo guna

Tenho esta sensação de que os pombos perderam o medo. Já não voam para fugir, simplesmente desviam‑se. As associações de direitos dos animais lutaram por eles, garantiram‑lhes poder, mas eles parecem geri‑lo tão mal quanto a ex‑presidente da Raríssimas.

Ele ali, a olhar para mim, e cada vez mais perto. Aquilo estava francamente a incomodar‑me. Eu tenho a sorte de ser um daqueles lisboetas que passam muito tempo no Porto, mas a verdade é que nas mais das vezes o faço à pressa.

Naquele dia, no entanto, tinha tempo para desfrutar. Então, peguei em mim e fui a um dos melhores lugares que uma pessoa pode ir na cidade entre as cinco e as seis da tarde. A Padaria Ribeiro, na Praça Guilherme Gomes Fernandes, não só tem uma esplanada larga como alguns dos melhores exemplares da pastelaria portuense. Era lá que estava quando o guna investiu sobre mim.

No catálogo da diversidade pasteleira, o Porto para mim ganha por dois a zero a Lisboa. Primeiro por causa dos croissants, que aqui são feitos com massa de brioche, e depois por causa dos rissóis, que a norte são normalmente de carne, quando no sul são quase sempre de camarão. Naquela tarde eu tinha apontado o estômago a essa ração de combate.

Primeiro dei cabo do salgado. Depois pedi um croissant torrado com manteiga. E, assim que a minha consolação chegou, um pombo voou para a minha mesa e ficou ali, a olhar para mim, cada vez mais perto. Era insolente e atrevido e nem quando o enxotei se demoveu. Aquele pombo era um guna.

As esplanadas tardaram a generalizar‑se nas cidades portuguesas, mas hoje estão por toda a parte e isso é bom. Porém, agora tentem lá comer o croissant torrado com manteiga com que andavam a sonhar há semanas numa delas. É impossível faze‑lo sem um grupo de pombos à volta, a cobiçar‑vos o tesouro e às vezes a investir sobre ele.

O guna da Padaria Ribeiro fez‑me precisamente isso, atacou o meu prato e roubou‑me o lanche. E eu, que sempre detestei bullying, senti‑me ali o caixa-de-óculos da escola – para todos os efeitos, fui vítima de uma crueldade infame.

Tenho esta sensação de que os pombos perderam o medo. Já não voam para fugir, simplesmente desviam‑se. As associações de direitos dos animais lutaram por eles, garantiram‑lhes poder, mas eles parecem geri‑lo tão mal quanto a ex‑presidente da Raríssimas.

Há semanas, um bloco operatório do Hospital de São João, no Porto, teve de ser encerrado por infestação com piolhos de pombo. Mas isso não impediu que, em Lisboa, a câmara viesse declarar que a espécie deixava de ser considerada uma praga. O seu estatuto, desde maio, ascende ao dos cães e gatos. E o município prometeu pôr termo ao abate das aves.

Em Lisboa há agora a ideia de criar pombais contracetivos, em que os ovos sejam retirados e substituídos por falsos. Há já um projeto-piloto na mata de Benfica e a ideia é expandi‑lo a toda a cidade – e ao resto do país.

Em vez da crueldade do abate, as autoridades vão enganar os bichos. Tudo certo, não fosse este desvio comportamental dos pombos nas últimas décadas. Se estiverem de facto mais atrevidos e agressivos, se deixaram de facto de ter medo dos humanos, não deverão ser considerados uma praga?

Ainda não voltei à Padaria Ribeiro, mas sei que da próxima vez vou pensar duas vezes antes de me sentar na esplanada. Mesmo que esteja sol. Ou então resisto, armado com uma fisga e provocando a fúria dos ativistas dos direitos dos animais. Seja como for, recuso‑me a ser vítima de bullying. Nenhum guna tem direito de roubar o meu croissant. Nem que seja pombo.