OPINIÃO

As nossas costas ficarão na história

Como é que se sai de uma crise se não há cultura para o fazermos, para inovar, para criar emprego, para inventar, para imaginar, para, em última análise, desobedecer e exigir a mais elementar dignidade? A Palestina, que vive há décadas numa situação verdadeiramente dramática, decidiu, em vez de acabar com a cultura, resistir, sobreviver e viver através dela.

Há uns dias, o ministro da Cultura palestino, Ihab Bseiso, levou-me a visitar um palácio em Ramala. Não era propriamente uma coisa que me interessasse, visitar um palácio acabado de construir, mas acabou por ser uma visita surpreendente: o ministro explicou-me que aquele edifício seria transformado num centro cultural.

Por estratégia ou simplesmente porque era a única coisa inteligente a fazer para corrigir o desperdício de dinheiro numa construção luxuosamente irrelevante, aquele edifício – construído com o propósito de servir o conforto de uma família, a do presidente, e a ostentação de uma caricatural estabilidade e grandiosidade nacionais – passará a ter o objetivo de espalhar e sustentar a cultura e identidade de um povo, desde os primórdios da sua existência até ao presente e, se tudo correr bem, alicerçar o futuro. Como disse Moravia, não adianta ter dinheiro se não temos cultura para o gastar.

Onde ficarão então hospedadas as visitas oficiais? Segundo o ministro da Cultura: em qualquer um dos hotéis de Ramala. E, de facto, não me parece que seja preciso mais conforto e luxo do que aqueles que são providenciados pela hotelaria.

O anterior governo português, para lutar contra a crise, começou por acabar com o Ministério da Cultura. O que poderá um povo esperar do seu futuro quando lhe tiram a cultura? Como é que se sai de uma crise se não há cultura para o fazermos, para inovar, para criar emprego, para inventar, para imaginar, para, em última análise, desobedecer e exigir a mais elementar dignidade? A Palestina, que vive há décadas numa situação verdadeiramente dramática, decidiu, em vez de acabar com a cultura, resistir, sobreviver
e viver através dela.

Além da transformação do sapo em príncipe, do palácio em centro cultural, paralelamente e na extensa área exterior (cerca de 30 000 m2) irá também ser construída uma biblioteca de oito andares e no heliporto já não pousarão helicópteros, mas livros: será o recinto da feira do livro. Se conseguirem fazer o que planeiam, pode ser que tudo mude.

Pode ser que através da difusão do cinema, do teatro, da literatura, da dança, da história, olhemos para a situação da Palestina. Ou que a continuemos a ignorar, mas se este centro cultural sobreviver, então carregará também a nossa indiferença, que será parte fundamental da sua história; e todos nós, de costas voltadas, apareceremos nas fotografias, nos filmes, nos livros que testemunham a agonia de um povo a afogar-se.

Porque na hipótese mais trágica – e que pode ser a mais tristemente plausível –, este espaço poderá transformar-se numa arca de Noé, numa jangada de pedra cheia de história, de histórias, em que o que resta de um povo tentará sobreviver ao dilúvio.