As neurociências descobriram como o cérebro aprende melhor (e têm umas lições a dar à escola)

O modelo pedagógico baseado no aluno como recetor passivo não funciona. Ponto final. A neurodidática surge para abalar métodos e sugerir outras abordagens nas salas de aula. Não é fácil, mas é possível.

Texto de Sara Dias Oliveira | Fotografia de Shutterstock

Se o cérebro de um aluno numa aula de mestrado tem a mesma atividade do que quando este está sentado no sofá a ver televisão (ou seja, praticamente nula) – sim, esta experiência foi feita nos Estados Unidos -, então há alguma coisa de errado.

As neurociências começam a imiscuir-se, no bom sentido, nos processos de aprendizagem e há uma nova tendência a surgir. Chama-se neurodidática e defende um novo modelo educacional que motive os alunos. Sem estímulos, o cérebro não aprende.

As escolas continuam agarradas a métodos tradicionais. Aulas expositivas, palestras, memorização, testes, exames. Todos os anos, o mesmo sistema. Mas para que novas informações entrem na cabeça, o cérebro coloca o hemisfério direito a funcionar, a parte mais ligada à intuição, imagens, criatividade, para processar esses dados.

A neurodidática propõe metodologias de ensino que usem diferentes recursos educativos: mais imagens, mais vídeos, mais gráficos interativos, mais participação dos alunos.

Por isso, a neurodidática propõe metodologias de ensino que usem diferentes recursos educativos. Mais imagens, mais vídeos, mais gráficos interativos, mais trabalhos de grupo, mais participação dos alunos.

Será este o caminho? «É mesmo esse o caminho, sem dúvida. Durante várias décadas a escola foi demasiado objetiva e, como tal, privilegiou funções do hemisfério cerebral esquerdo muito ligadas ao pensamento lógico, lado racional e objetivo. Sendo a escola uma preparação para a vida, pode dizer-se que essas eram, de certa forma, as funções de que as empresas mais necessitavam naquela altura. A escola passava ao lado de vetores essenciais como o sonho, a utopia, a fantasia ou a criatividade», responde Jorge Rio Cardoso, professor e autor de vários livros, entre os quais Este Ano Vais Ser o Melhor Aluno! Bora Lá?

Quando os miúdos gostam de aprender, aprendem melhor

Em seu entender, é importante que a neurociência se envolva nos processos de aprendizagem. A neurodidática já não é propriamente uma novidade aqui ao lado, em Espanha, segundo o jornal espanhol El País.

É, aliás, uma das tendências dos últimos cinco anos que se debruçam sobre métodos de aprendizagem. Não é bem uma metodologia, é sobretudo um conjunto de conhecimentos que suportam a pesquisa científica em métodos de aprendizagem. Ver a atividade do cérebro a realizar tarefas é agora possível e é uma grande ajuda.

É importante que os alunos adquiram competências, saibam trabalhar em grupo, criem empatia com todos, saibam reunir consensos e exponham as suas ideias.

«O modelo que defendo nos meus livros – e que a neurociência ou, se se quiser, a neurodidática corrobora – baseia-se num elo próximo entre professor e aluno. O conhecimento deixa de ser o elemento mais importante e porquê? Porque, antes do conhecimento (que facilmente fica desatualizado), é importante adquirir competências várias: relacionais, saber trabalhar em grupo, criar empatia com todos, saber reunir consensos ou saber expor (oralmente ou por escrito) as suas ideias, por exemplo».

O grande desafio das escolas passa por criar pedagogias atrativas, pensando nas competências essenciais e necessárias para o futuro. O modelo de ensino em que a pedagogia é basicamente expositiva, em que o professor apresenta o conhecimento e o aluno limita-se a ouvir, já não se ajusta aos nossos dias. E nem motiva quem aprende.

O que me interessa um aluno que tem 20 valores, mas que não tem qualquer tipo de respeito pelos outros? Estarão preparados para a vida futura?», questiona Jorge Rio Cardoso.

Mas será que os métodos tradicionais terão os dias contados? «Não diria que têm os dias contados, mas, com grande dose de certeza, penso que terão um peso muito menor dentro do método de ensino. Refiro-me à escolaridade obrigatória. A própria avaliação terá de mudar. Em vez se ser essencialmente baseada na avaliação sumativa (os tais testes), deve passar a incluir a avaliação formativa, para que as competências essenciais de cidadania e sã convivência não passem ao lado. O que me interessa um aluno que tem 20 valores, mas que não tem qualquer tipo de respeito pelos outros? No atual sistema é perfeitamente possível ter alunos com boas classificações e que se pautam pelo egoísmo. Pergunto: estarão preparados para a vida futura?», questiona Jorge Rio Cardoso.

O professor sublinha que o sistema de ensino precisa de repensar as suas metodologias para torná-las «mais apelativas e desafiadoras» e para «melhor preparar os alunos para a sua vida futura, onde naturalmente se incluirá o viver a cidadania».

Cérebro, um órgão social

«O cérebro é um órgão social que aprende fazendo coisas com outras pessoas», diz José Ramón Gamo, neuropsicólogo e diretor do mestrado em Neurodidáticas da Universidade Rey Juan Carlos, ao jornal espanhol El País.

Gamo conta que um dos principais problemas na introdução da neurodidática nas escolas públicas, o que tem vindo a fazer nos últimos anos, é que os estabelecimentos de ensino não sabem onde querem inovar e não fazem um acompanhamento efetivo na aplicação das novas metodologias.

Uma das plataformas educacionais online baseadas na neurodidática chama-se Neurok, aposta em debates e permite notificações no telemóvel.

Uma das plataformas educacionais online baseadas na neurodidática chama-se Neurok, aposta em debates e permite notificações no telemóvel. Uma equipa de 10 pedagogos e professores primários e universitários espanhóis decidiram aplicar os formatos Twitter e Facebook à educação, como plataformas onde todos os alunos partilham conteúdos e discutem matérias.

«O professor atua como guia e fornece critérios sobre o conteúdo», adianta ao El País Agustín Cuenca, diretor da empresa que gere o Neurok, que funciona como uma plataforma de suporte para aulas presenciais ou como um esqueleto de um curso online. «Ainda há muitas pessoas que desconfiam desses métodos, mas em 15 anos, começarão a ver os resultados», comenta Cuenca ao diário espanhol.

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