OPINIÃO

Aos guerreiros caídos

O cancro pode ser, afinal, uma autêntica roleta russa. E a melhor homenagem que podemos fazer aos que caem, numa luta sem tréguas, é viver sem medo do que nos pode tombar.

Chamam-lhe epidemia silenciosa. Porque assusta, angustia, o diagnóstico é quase sempre encarado como uma ameaça de morte. E porque avança progressivamente, com todas as projeções a apontar para um aumento da sua incidência. Estima-se que em 2030 uma em cada duas pessoas venha a ter cancro. Sobrinho Simões, considerado em 2015 o patologista mais influente do mundo, afirma que daqui a 50 anos toda a gente vai ter a doença. Mas não vamos morrer disso e de certa forma vamos controlá-la.

As conquistas da ciência permitiram nos últimos anos um aumento sustentado da esperança média de vida. À procura da imortalidade, fixamos os olhos em cada notícia que promete novos avanços e investigações. Há pouco mais de uma semana, um estudo de uma universidade australiana publicado na revista Science garantia ter sido descoberto um passo da regeneração de células que poderá permitir a criação de um medicamento antienvelhecimento.

A confiança que depositamos na medicina e na ciência é abalada cada vez que alguém perto de nós é atingido pelo cancro. E ele tem tantas formas de expressão. Às vezes os médicos olham-no desassombradamente e percebem de imediato que é possível vencê-lo. Noutras avançam a tatear, medindo forças com o bicho na incerteza do que irá acontecer. Há cancros agressivos, traiçoeiros, velozes. Todos já vimos algum assim entrar pela vida de pessoas de quem gostamos. E de quem passámos a ter de falar no passado.

Debate-se muito sobre as causas genéticas ou ambientais, o stress, uma alimentação deficiente, estilos de vida que deixam o organismo mais vulnerável à entrada do inimigo. E esses fatores existem, mas não explicarão tudo. Um grupo de investigadores da Universidade de John Hopkins, nos Estados Unidos, concluiu que dois terços dos casos ocorrem devido a anomalias aleatórias quando as células se copiam. Erros no ADN que podem não ter outra explicação a não ser o acaso. O azar. Tão simples e estranho como isso.

Gostamos de acreditar que se tivermos estilos de vida saudáveis podemos prevenir o cancro. Ou que com a atitude certa podemos vencê-lo. E, sim, claro que tudo isso ajuda. Mas não chega, e é nessa incapacidade que esbarra a nossa pequenez. Devemos, em tudo na vida, lutar com todas as forças, sabendo que o máximo esforço pode não ser suficiente. É por isso que todos os dias caem tantos guerreiros que se entregaram a uma luta sem tréguas. Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística, são 71 por dia. Todos têm rosto, nome, uma história que ficou escrita a meio.

Há guerras perante as quais nos sentimos impotentes. E, a ser verdadeiro, este estudo parece dar-nos os motivos perfeitos para que o medo se agigante. Ainda que um terço dos cancros seja evitável mudando de hábitos, o que fazer com os restantes? Essa roleta-russa não pode fazer-nos sentir que pouco importa a forma como vivemos. Pelo contrário: é a noção de fragilidade que torna tão importante a vida. Sabemos que não somos autossuficientes e, ainda assim, tantas vezes vivemos como se fôssemos. Não temos nas nossas mãos o poder de derrotar a morte. Mas somos inteiramente livres de decidir o que fazer com cada segundo de vida. Transportamos dentro de nós todas as possibilidades. E a melhor homenagem que podemos fazer aos guerreiros caídos é viver sem medo do que nos pode tombar.

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