OPINIÃO

Aos 24 anos, Frederico sofreu um AVC um dia depois do seu casamento

Agora tem 26 anos, é gerente de um posto de abastecimento de combustíveis, conduz um carro sem mudanças automáticas, tem «bengalas» para avivar a memória, e só lhe falta apanhar o jeito para abotoar os botões da camisa. Hoje é o Dia Mundial do AVC.

Texto de Sara Dias Oliveira | Fotografia Artur Machado/Global Imagens

Aos 24 anos, pesava 98 quilos para uma altura de 1,72 metros. Fumava, bebia álcool e praticava exercício físico. «Era um maluquinho do ginásio», confessa Frederico Augusto. Chegava a ir ao ginásio duas vezes no mesmo dia.

Em março de 2015, sofreu um AVC um dia depois do casamento e do primeiro aniversário da filha. Cerimónia na igreja de Valongo, festa em Gondomar, e duas celebrações no mesmo dia: uma relação apaixonada e uma filha.

As mazelas não tiram a Frederico o sentido de humor e uma imensa vontade de viver e de trabalhar

Estava em casa, tinha acabado de tomar banho, caiu no chão do quarto, foi encontrado pela mulher. «Até digo a brincar que casar faz mal à saúde». Di-lo com um sorriso num corpo que tem agora 26 anos e que sobreviveu a um grave acidente vascular cerebral com sequelas que ainda se notam na fala e no andar.

A terapia da fala durou mais de dois anos, terminou há pouco tempo. Mas as mazelas não lhe tiram o sentido de humor e uma imensa vontade de viver e de trabalhar. E é o que faz.

«Não olho para a vida com medo que me volte a acontecer uma coisa assim, mas tenho atitudes que não tinha, como precaução». Não bebe, não fuma. Agora pesa 65 quilos. Voltou ao emprego, é gerente de um posto de abastecimento de combustível em Paços de Ferreira.

«A minha última memória é da despedida de solteiro e acordar no hospital sem me mexer», recorda Frederico aUGUSTO, 26 anos.

A lua-de-mel estava marcada para a Madeira, uma semana na ilha, mas não chegou a acontecer. «A minha última memória é da despedida de solteiro e acordar no hospital sem me mexer».

Não se lembra do casamento. O AVC provocou-lhe estragos na memória, na atenção, na concentração, na fala, no andar, na deglutição. Esteve internado em vários hospitais durante seis meses. Passou pelos cuidados intensivos, esteve dois meses sem conseguir pronunciar uma palavra. Quando voltou a casa, ainda não conseguia andar sozinho, precisava do apoio do andarilho.

Frederico é teimoso. O que ajudou na reabilitação. «Sou muito casmurro, é tentativa erro, tentativa erro, tentativa erro».

Hoje conduz um carro normal, sem mudanças automáticas. Divorciou-se entretanto, vive com os pais, e a sua filha tem três anos e nove meses. «Para a recuperação, tem de haver um background muito grande afetivo e familiar. A minha ex-mulher foi um apoio fundamental. Em seis meses que estive internado, só não foi visita-me um dia», diz.

O apoio também veio da equipa de trabalho. Não perdeu o emprego. «O chefe da minha chefe arranjou tempo para me ir visitar ao hospital e a casa», refere. Num jantar de Natal da empresa, um colega de trabalho foi buscá-lo a casa e o chefe levá-lo. A empresa esperou pela sua recuperação, não o riscou da lista.

Frederico é teimoso. O que ajudou na reabilitação. «Sou muito casmurro, é tentativa erro, tentativa erro, tentativa erro». As vezes que forem precisas. Não desiste facilmente.

«Conseguir levantar-se sozinho foi, na altura, uma vitória muito grande», recorda. Frequentou um programa para pessoas com lesão cerebral adquirida no Centro de Reabilitação Profissional de Gaia (CRPG), em Arcozelo, entre junho e novembro do ano passado.

«O AVC ensinou-me que não somos imortais, que pode acontecer a toda a gente, que ninguém está imune».

Os progressos foram significativos com elevados níveis de aceitação da lesão cerebral. «Foi uma readaptação, aprendi a utilizar ‘bengalas’ para o dia-a-dia, estratégias compensatórias, como usar uma agenda, não decoro coisas». «Sou autónomo, não tão rápido em algumas coisas». Abotoar os botões da camisa ainda é uma tarefa que exige de si, que faz com calma, com tempo.

Depois desse programa no CRPG, foi reintegrado na empresa. «Adoro o meu trabalho». Ainda hoje não sabe exatamente as razões do acidente vascular cerebral. «Era muito novo. Ao certo, a causa não está definida, mas há suspeitas: fumava, o colesterol estava elevado. Há uma série de coisas que, por si só, não fazem nada, mas que todas juntas podem ter provocado o AVC».

O que se passou passou e Frederico Augusto olha em frente com alegria e boa disposição. Mas aprendeu que ninguém é de ferro. «O AVC ensinou-me que não somos imortais, que pode acontecer a toda a gente, que ninguém está imune».

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